segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Eugénio de Andrade, São coisas assim

São coisas assim que tornam o coração
vulnerável: o regresso
das cegonhas brancas,
o comboiinho do ramal do Ceira
que parece de corda, as oito linhas
da Canção Nocturna do Viandante
de Goethe que Schubert musicou.
Quem dividiu comigo a alegria
merecia ao menos
que o trouxesse à orvalhada
e limpa terra do poema. Mas também
o poeta escreve direito por linhas
tortas: a poesia é a ficção
da verdade. Não será
a curva apetecida do teu peito
mas os lémures de Madagáscar,
que só vi num filme francês,
o que verdadeiramente me interessa
hoje trazer ao poema.

http://www.youtube.com/watch?v=OxpJFzJFpOU&translated=1

Johann Wolfgang von Goethe:

Abendlied (Wandrers Nachtlied II)

Über allen Gipfeln
Ist Ruh,
In allen Wipfeln
Spürest du
Kaum einen Hauch.
Die Vögelein schweigen im Walde.
Warte nur, balde
Ruhest du auch.
 
http://myweb.dal.ca/waue/Trans/Goethe-Wanderer.html

 

domingo, 19 de dezembro de 2010

"Namárië", Tolkien

Ao JB

Ai! laurië lantar lassi súrinen,
Yéni únótimë ve rámar aldaron!
Yéni ve lintë yuldar avánier
mi oromardi lissë-miruvóreva
Andúnë pella, Vardo tellumar
nu luini yassen tintilar i eleni
ómaryo airetári-lírinen.

Sí man i yulma nin enquantuva?

An sí Tintallë Varda Oiolossëo
ve fanyar máryat Elentári ortanë
ar ilyë tier undulávë lumbulë
ar sindanóriello caita mornië
i falmalinnar imbë met, ar hísië
untúpa Calaciryo míri oialë.
Sí vanwa ná, Rómello vanwa, Valimar!

Namárië! Nai hiruvalyë Valimar!
Nai elyë hiruva! Namárië!


http://pt.wikipedia.org/wiki/Nam%C3%A1ri%C3%AB

Tolkien a recitar "Namárië": http://www.youtube.com/watch?v=6de_SbVUVfA

sábado, 18 de dezembro de 2010

Cavaleiro de búzios Onde a Terra acaba e o Mar começa

Saudosismo - Café pré-almoço: o mais saboroso do dia

A caminho da Vieira de Leiria, pela estrada das Matas, deixando a Mata do Urso para trás e enfrentando a Mata do Pedrógão, envoltos na bruma matinal que sempre vem deste mar e que torna a mata um sonho real, ia eu para mais um passeio na companhia de meu pai, quando nos recordámos saudosamente da visita que fizémos à Casa Museu Afonso Lopes Vieira, poeta neo-romântico. Casinha de eleição, com a biblioteca dos meus sonhos, com varanda que se debruça sobre o mar de S.Pedro de Moel... Por esta casa, passaram amigos como Aquilino Ribeiro, Vitorino Nemésio, as irmãs Rey Colaço...



E mesmo antes do café, aí fui eu, à "livraria" (se assim podemos chamar à única tabacaria da terra, que tem, ainda assim, uma ou duas estantes onde até encontro algumas preciosidades), em busca de livros do autor. Nada - foi a resposta, não foram reeditados e resta-me agora esperar por regressar à cidade dos estudantes e esperar que um alfarrabista ou alguma biblioteca os guarde ainda.

E na recta do Pedrógão, vinha a escutar o meu pai, sempre com as suas observações. O olhar aguçado e o tom grave, sério e conhecedor com que me diz quando um pássaro, em voo rasante, passa por cima da carrinha: - Olha, viste? era uma arvéola - e isto deslumbrou-me.


http://www.flickr.com/photos/victor_maia/2194305869/

Afonso Lopes Vieira é o último esteta verdadeiro.
Bebeu na fonte da beleza e procurou espalhar essa sede por todos os meios ao seu alcance: a poesia, o ensaio, a intervenção nas causas cívicas, a música, a escrita para crianças, o bailado, a fotografia, o cinema, a divulgação cultural, a viagem...
Afonso Lopes Vieira é uma figura literária e foi um eclético homem de cultura e de bom gosto que atravessou o final o século XIX e se instalou na história literária portuguesa com honras de notoriedade pública, durante a primeira metade do século XX.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Afonso_Lopes_Vieira
  

PINHAL DO REI

Catedral verde e sussurrante, aonde
a luz se ameiga e se esconde
e aonde, ecoando a cantar,
se alonga e se prolonga a longa voz do mar:
ditoso o "Lavrador" que a seu contento
por suas mãos semeou este jardim;
ditoso o Poeta que lançou ao vento
esta canção sem fim...

Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
rei D. Dinis, bom poeta e mau marido,
lá vem as velidas bailar e cantar.

Encantado jardim da minha infância,
aonde a minh'alma aprendeu;
a música do Longe e o ritmo da Distância
que a tua voz marítima lhe deu;
místico órgão cujo além se esfuma
no além do Oceano, e onde a maresia
ameiga e dissolve em bruma,
e em penumbra de nave, a luz do dia.
Por estes fundos claustros gemem
os ais do Velho do Restelo...
Mas tu debruças-te no mar e, ao vê-lo,
teus velhos troncos de saudades fremem...

Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
são as caravelas, teu corpo cortado,
é lo verde pino no mar a boiar.

Luísa Dacosta, Morrer a Ocidente

E custavam-lhe aqueles crepúsculos, lentos, que cintavam o horizonte de fogo, tornavam róseas as areias da beirada e demoravam a arrastar a noite com a sua malha de estrelas e a esperança de "um amanhã".

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Eugénio de Andrade, Ocorre-me tropeçar

Ocorre-me tropeçar em ti numa linha
que escrevi noutra idade - tão discreta
é a tua presença que ninguém
a não ser eu te poderá descobrir.
E sinto-me grato, como também o estou
ao gato do quintal ou às gaivotas
que esgravatam em tantos versos meus
à procura de sol fresco para alimento.
"É o seu peito, a sua boca", digo então,
e na penumbra do quarto por instantes
brilha de novo o corpo do desejo.

in O sal da língua

Caetano Veloso, Fora da Ordem

Fora da Ordem

Vapor barato
Um mero serviçal
Do narcotráfico
Foi encontrado na ruína
De uma escola em construção...

Aqui tudo parece
Que era ainda construção
E já é ruína
Tudo é menino, menina
No olho da rua
O asfalto, a ponte, o viaduto
Ganindo prá lua
Nada continua...

E o cano da pistola
Que as crianças mordem
Reflete todas as cores
Da paisagem da cidade
Que é muito mais bonita
E muito mais intensa
Do que no cartão postal...

Alguma coisa
Está fora da ordem
Fora da nova ordem
Mundial...(4x)

Escuras coxas duras
Tuas duas de acrobata mulata
Tua batata da perna moderna
A trupe intrépida em que fluis...

Te encontro em Sampa
De onde mal se vê
Quem sobe ou desce a rampa
Alguma coisa em nossa transa
É quase luz forte demais
Parece pôr tudo à prova
Parece fogo, parece
Parece paz, parece paz...

Pletora de alegria
Um show de Jorge Benjor
Dentro de nós
É muito, é grande
É total...

Alguma coisa
Está fora da ordem
Fora da nova ordem
Mundial...(4x)

Meu canto esconde-se
Como um bando de Ianomâmis
Na floresta
Na minha testa caem
Vem colocar-se plumas
De um velho cocar...

Estou de pé em cima
Do monte de imundo
Lixo baiano
Cuspo chicletes do ódio
No esgoto exposto do Leblon
Mas retribuo a piscadela
Do garoto de frete
Do Trianon
Eu sei o que é bom...

Eu não espero pelo dia
Em que todos
Os homens concordem
Apenas sei de diversas
Harmonias bonitas
Possíveis sem juízo final...

Alguma coisa
Está fora da ordem
Fora da nova ordem
Mundial...(várias vezes)
http://www.youtube.com/watch?v=HUb-z8C3CBs

Eugénio de Andrade, Respiro o teu corpo

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.