Saudosismo - Café pré-almoço: o mais saboroso do dia
A caminho da Vieira de Leiria, pela estrada das Matas, deixando a Mata do Urso para trás e enfrentando a Mata do Pedrógão, envoltos na bruma matinal que sempre vem deste mar e que torna a mata um sonho real, ia eu para mais um passeio na companhia de meu pai, quando nos recordámos saudosamente da visita que fizémos à Casa Museu Afonso Lopes Vieira, poeta neo-romântico. Casinha de eleição, com a biblioteca dos meus sonhos, com varanda que se debruça sobre o mar de S.Pedro de Moel... Por esta casa, passaram amigos como Aquilino Ribeiro, Vitorino Nemésio, as irmãs Rey Colaço...
E mesmo antes do café, aí fui eu, à "livraria" (se assim podemos chamar à única tabacaria da terra, que tem, ainda assim, uma ou duas estantes onde até encontro algumas preciosidades), em busca de livros do autor. Nada - foi a resposta, não foram reeditados e resta-me agora esperar por regressar à cidade dos estudantes e esperar que um alfarrabista ou alguma biblioteca os guarde ainda.
E na recta do Pedrógão, vinha a escutar o meu pai, sempre com as suas observações. O olhar aguçado e o tom grave, sério e conhecedor com que me diz quando um pássaro, em voo rasante, passa por cima da carrinha: - Olha, viste? era uma arvéola - e isto deslumbrou-me.
http://www.flickr.com/photos/victor_maia/2194305869/
Afonso Lopes Vieira é o último esteta verdadeiro.
Bebeu na fonte da beleza e procurou espalhar essa sede por todos os meios ao seu alcance: a poesia, o ensaio, a intervenção nas causas cívicas, a música, a escrita para crianças, o bailado, a fotografia, o cinema, a divulgação cultural, a viagem...
Afonso Lopes Vieira é uma figura literária e foi um eclético homem de cultura e de bom gosto que atravessou o final o século XIX e se instalou na história literária portuguesa com honras de notoriedade pública, durante a primeira metade do século XX.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Afonso_Lopes_Vieira
PINHAL DO REI
Catedral verde e sussurrante, aonde
a luz se ameiga e se esconde
e aonde, ecoando a cantar,
se alonga e se prolonga a longa voz do mar:
ditoso o "Lavrador" que a seu contento
por suas mãos semeou este jardim;
ditoso o Poeta que lançou ao vento
esta canção sem fim...
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
rei D. Dinis, bom poeta e mau marido,
lá vem as velidas bailar e cantar.
Encantado jardim da minha infância,
aonde a minh'alma aprendeu;
a música do Longe e o ritmo da Distância
que a tua voz marítima lhe deu;
místico órgão cujo além se esfuma
no além do Oceano, e onde a maresia
ameiga e dissolve em bruma,
e em penumbra de nave, a luz do dia.
Por estes fundos claustros gemem
os ais do Velho do Restelo...
Mas tu debruças-te no mar e, ao vê-lo,
teus velhos troncos de saudades fremem...
Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
são as caravelas, teu corpo cortado,
é lo verde pino no mar a boiar.