Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.
Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.
Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce á rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.
Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.
Ary dos Santos
"Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve", Vergílio Ferreira, Escrever
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Ecce Homo
Ecce Homo
Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.
Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.
Pensando nos secamos e perdemos
Esta força selvagem e secreta,
Esta semente agreste que trazemos
E gera heróis e homens e poetas.
Pois Deuses somos nós. Deuses do fogo
Malhando-nos a carne, até que em brasa
Nossos sexos furiosos se confundam,
Nossos corpos pensantes se entrelacem
E sangue, raiva, desespero ou asa,
Os filhos que tivermos forem nossos.
José Carlos Ary dos Santos
La mort des amants
| Muro de Berlim: Janeiro de 2011: não sei porquê, mas quando vi esta imagem lembrei-me deste poema de Baudelaire |
Nous aurons des lits pleins d'odeurs légères,
Des divans profonds comme des tombeaux,
Et d'étranges fleurs sur des étagères,
Ecloses pour nous sous des cieux plus beaux.
Des divans profonds comme des tombeaux,
Et d'étranges fleurs sur des étagères,
Ecloses pour nous sous des cieux plus beaux.
Usant à l'envi leurs chaleurs dernières,
Nos deux coeurs seront deux vastes flambeaux,
Qui réfléchiront leurs doubles lumières
Dans nos deux esprits, ces miroirs jumeaux.
Nos deux coeurs seront deux vastes flambeaux,
Qui réfléchiront leurs doubles lumières
Dans nos deux esprits, ces miroirs jumeaux.
Un soir fait de rose et de bleu mystique,
Nous échangerons un éclair unique,
Comme un long sanglot, tout chargé d'adieux;
Nous échangerons un éclair unique,
Comme un long sanglot, tout chargé d'adieux;
Et plus tard un Ange, entr'ouvrant les portes,
Viendra ranimer, fidèle et joyeux,
Les miroirs ternis et les flammes mortes.
Viendra ranimer, fidèle et joyeux,
Les miroirs ternis et les flammes mortes.
Desperta-me de noite
Desperta-me de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito
É rede a tua língua
em sua teia
é vício as palavras
com que falas
A trégua
a entrega
o disfarce
E lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lençol que desfazes
Desperta-me de noite
com o teu corpo
tiras-me do sono
onde resvalo
E eu pouco a pouco
vou repelindo a noite
e tu dentro de mim
vai descobrindo vales.
Maria Teresa Horta
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Pela madrugada fora
À Anita, pela maravilhosa prenda
A Paixão segundo Constança H., de Maria Teresa Horta
O TEU CORPO
A febre acesa da tua língua,
Meu amor!
...a partir do clítoris
De bruços
De borco...o teu pénis
As mãos subindo, trepando
Pelo avesso do corpo
Constança H.
(Como se tacteasse na escuridão de uma gruta húmida; na penumbra encoberta de um confessionário; na cela nua de uma prisão de mulheres; na enfermaria de um hospital psiquiátrico)
É aqui, que a febre
Da loucura
Aumenta
Que o grito se contém
Mas nunca se contenta
(Poema enviado por Constança a Henrique H., antes de ser internada)
(Suspender um pouco, parar um pouco, a delimitar, a tentar entender as fronteiras)
O corpo nu dele estava gelado: tentou aquecê-lo com a boca.
Foi assim desde o princípio: aquela voragem.
Aquela fome. Aquele desassossego.
Quando ele a beijara pela primeira vez detectou logo aquele cheiro acre, forte, do seu corpo. Entregou-se-lhe sem se importar com nada, não querendo saber de mais nada.
Tirando-lhe o vigor: dias inteiros à espera que chegasse a casa para se atirar nos seus braços e se entregar ali mesmo à entrada da porta mal fechada e depois na sala, no chão da sala, na cama estreita, em cima dos cobertores nos quais de noite se envolvia friorenta.
Lambia-lhe o corpo a saborear-lhe o gosto da pele.
Arrepiada de prazer.
Regresso, sente Constança
“Como se fosse
o corpo do desejo”
Afinal, ela tem consciência de que vive num tempo de destruição, onde de súbito, de forma inesperada, se vem misturar de novo o desejo. Volteando, fazendo-a tropeçar, surpreendida.
“Durar é melhor que arder?”
(E o desejo? Que dizer do desejo: sempre a formular o corpo...)
Sei? Quem me desdiz, afinal? “Quando te beijo como que me afundo em ti, mas não me anulo” digo-te. “Não, não te sei no susto nem na mentira. Nem neste meu espaço vazio, desértico. Prendo-te com as pernas pelo lado do corpo, devagar, ao som dos teus gemidos. Depois. Não, não te sei pelo lado do susto...só a mim”
“Teve uma crise de despersonalização”, oiço os médicos dizerem.
(“Eu sou nada”: o quarto rodopia ainda dentro dos cintilantes relâmpagos de luz que a cegam, agoniada, tonta, aturdida. Passa a língua tumefacta pelos lábios feridos, secos, apesar do objecto que lhe metem sempre entre os dentes antes de cada descarga eléctrica.)
Uma menina de olhos acesos, a boca cheia de gritos surdos que calca.
Cambaleia. Pensa poder voltar atrás, fugir da criança que fora, o medo, a loucura e o suicídio.
As enfermeiras, então, injectam-na de novo e Constança cai numa profunda letargia.
Deixo cair o livro sobre o cobertor e beijo-te pelo dentro dos lábios a procurar o peso do teu corpo. Sei que tento reencontrar-me viva através dos gemidos que te provoco. E quando entras em mim sinto o aço do homem a recompor as coisas na banalidade do mundo. Perco-me, pois, através dos olhos que me procuram no espelho colocado perto da cama no nosso quarto. Aqui apenas as paredes nuas nos respondem. Mas é como se na imagem antes reflectida do meu corpo nesse espelho que perdi eu recuperasse a minha imagem entretanto igualmente perdida.
E por isso, quem sabe, ela comesse terra, lambesse a cal das paredes tão agras, tão salgadas do mar a correr invisível pelo seu interior.
Oiço a analista dizer, voz doce atrás de mim: “Talvez procurasse o chão...”
Deitada na cama fico de olhos escancarados a beber o escuro.
Na obscuridade do sono disse muitas vezes a Henrique: “Há outra mulher em mim que não conheço.”
Eu?
A claridade da madrugada começa a esgarçar a noite da cela. Não vou conseguir voltar a adormecer.
Beijar-te-ei tão devagar...
A boca acesa,
Que também devagar me vou queimar
Até que só de nós
As cinzas restem
(poema encontrado na secretária de Henrique H.)
(O meu problema nunca foi desobedecer aos outros, mas sim desobedecer a mim própria.)
Moderato Cantabile, piano dedilhado enquanto a paixão vai fermentando, num poço de febres e de desesperanças, de enganos. Chopin?
“Estou bem. Já não me sinto revoltada”, afirma uma personagem de Sylvia Plath depois de lhe terem feito uma lobotomia.
Tenho medo.
Há anos que não me sucedia algo tão deliciosamente espontâneo, magnético, irresistível. Ofereceram-me um livro ontem à hora do almoço. Infelizmente, só pude apreciá-lo horas depois, já no calor das cobertas, à meia luz da noite cerrada. Adormeci de exaustão, mas tinha de o ler. Devorei-o. Ao acordar, dei por mim nos lençóis revoltos, o livro debaixo de mim, aberto ainda. Raiva de não o ter terminado, mas o sono, assim como a Palinuro, vencera-me já o sol entrava pelas portadas. E foi numa esplanada ao sol da tardinha que o terminei e reli os pedaços predilectos.
Hei-los. Desfrutem, se gostarem de tal narrativa.
Conheci mais uma autora portuguesa e o meu caminho não acaba aqui, apenas recomeça.
Hei-los. Desfrutem, se gostarem de tal narrativa.
Conheci mais uma autora portuguesa e o meu caminho não acaba aqui, apenas recomeça.
A Paixão segundo Constança H., de Maria Teresa Horta
O TEU CORPO
A febre acesa da tua língua,
Meu amor!
...a partir do clítoris
De bruços
De borco...o teu pénis
As mãos subindo, trepando
Pelo avesso do corpo
Constança H.
(Como se tacteasse na escuridão de uma gruta húmida; na penumbra encoberta de um confessionário; na cela nua de uma prisão de mulheres; na enfermaria de um hospital psiquiátrico)
É aqui, que a febre
Da loucura
Aumenta
Que o grito se contém
Mas nunca se contenta
(Poema enviado por Constança a Henrique H., antes de ser internada)
(Suspender um pouco, parar um pouco, a delimitar, a tentar entender as fronteiras)
O corpo nu dele estava gelado: tentou aquecê-lo com a boca.
Foi assim desde o princípio: aquela voragem.
Aquela fome. Aquele desassossego.
Quando ele a beijara pela primeira vez detectou logo aquele cheiro acre, forte, do seu corpo. Entregou-se-lhe sem se importar com nada, não querendo saber de mais nada.
Tirando-lhe o vigor: dias inteiros à espera que chegasse a casa para se atirar nos seus braços e se entregar ali mesmo à entrada da porta mal fechada e depois na sala, no chão da sala, na cama estreita, em cima dos cobertores nos quais de noite se envolvia friorenta.
Lambia-lhe o corpo a saborear-lhe o gosto da pele.
Arrepiada de prazer.
Regresso, sente Constança
“Como se fosse
o corpo do desejo”
Afinal, ela tem consciência de que vive num tempo de destruição, onde de súbito, de forma inesperada, se vem misturar de novo o desejo. Volteando, fazendo-a tropeçar, surpreendida.
“Durar é melhor que arder?”
(E o desejo? Que dizer do desejo: sempre a formular o corpo...)
Sei? Quem me desdiz, afinal? “Quando te beijo como que me afundo em ti, mas não me anulo” digo-te. “Não, não te sei no susto nem na mentira. Nem neste meu espaço vazio, desértico. Prendo-te com as pernas pelo lado do corpo, devagar, ao som dos teus gemidos. Depois. Não, não te sei pelo lado do susto...só a mim”
“Teve uma crise de despersonalização”, oiço os médicos dizerem.
(“Eu sou nada”: o quarto rodopia ainda dentro dos cintilantes relâmpagos de luz que a cegam, agoniada, tonta, aturdida. Passa a língua tumefacta pelos lábios feridos, secos, apesar do objecto que lhe metem sempre entre os dentes antes de cada descarga eléctrica.)
Uma menina de olhos acesos, a boca cheia de gritos surdos que calca.
Cambaleia. Pensa poder voltar atrás, fugir da criança que fora, o medo, a loucura e o suicídio.
As enfermeiras, então, injectam-na de novo e Constança cai numa profunda letargia.
Deixo cair o livro sobre o cobertor e beijo-te pelo dentro dos lábios a procurar o peso do teu corpo. Sei que tento reencontrar-me viva através dos gemidos que te provoco. E quando entras em mim sinto o aço do homem a recompor as coisas na banalidade do mundo. Perco-me, pois, através dos olhos que me procuram no espelho colocado perto da cama no nosso quarto. Aqui apenas as paredes nuas nos respondem. Mas é como se na imagem antes reflectida do meu corpo nesse espelho que perdi eu recuperasse a minha imagem entretanto igualmente perdida.
E por isso, quem sabe, ela comesse terra, lambesse a cal das paredes tão agras, tão salgadas do mar a correr invisível pelo seu interior.
Oiço a analista dizer, voz doce atrás de mim: “Talvez procurasse o chão...”
Deitada na cama fico de olhos escancarados a beber o escuro.
Na obscuridade do sono disse muitas vezes a Henrique: “Há outra mulher em mim que não conheço.”
Eu?
A claridade da madrugada começa a esgarçar a noite da cela. Não vou conseguir voltar a adormecer.
Beijar-te-ei tão devagar...
A boca acesa,
Que também devagar me vou queimar
Até que só de nós
As cinzas restem
(poema encontrado na secretária de Henrique H.)
(O meu problema nunca foi desobedecer aos outros, mas sim desobedecer a mim própria.)
Moderato Cantabile, piano dedilhado enquanto a paixão vai fermentando, num poço de febres e de desesperanças, de enganos. Chopin?
“Estou bem. Já não me sinto revoltada”, afirma uma personagem de Sylvia Plath depois de lhe terem feito uma lobotomia.
Tenho medo.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Ao JB
Gretchens Stube
Gretchens (am Spinnrade, allein):
Meine Ruh ist hin,
Meine Herz ist schwer,
Ich finde sie nimmer
Und nimmermehr
Le poèle de Marguerite
Marguerite (à son rouet, seule)
Ma paix s'est enfuie,
Mon coeur est lourd,
Je ne la retrouverai plus jamais,
Jamais, jamais plus.
(Agradecendo a prenda de anos: Faust, Goethe, éditions Gallimard folio bilingue, 2007)
Gretchens Stube
Gretchens (am Spinnrade, allein):
Meine Ruh ist hin,
Meine Herz ist schwer,
Ich finde sie nimmer
Und nimmermehr
| Foto tirada no Alte Nationalgalerie - Museumsinsel Berlim, 19 de Janeiro de 2011, por Weberson Grizoste |
Le poèle de Marguerite
Marguerite (à son rouet, seule)
Ma paix s'est enfuie,
Mon coeur est lourd,
Je ne la retrouverai plus jamais,
Jamais, jamais plus.
(Agradecendo a prenda de anos: Faust, Goethe, éditions Gallimard folio bilingue, 2007)
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