sábado, 12 de fevereiro de 2011

Shakespeare na noite fria

Love is a smoke raised with the fume of sighs;
Being purged, a fire sparkling in lovers' eyes;
Being vex'd a sea nourish'd with lovers' tears:
What is it else? a madness most discreet,
A choking gall and a preserving sweet.
Casem-se os poetas com a respiração do Mundo.

(Osvaldo Alcântara)
"Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura." 

Frases como estas, que parecem crescer sem vontade que as houvesse dito, limpam-me de toda a metafísica que espontaneamente acrescento à vida. Depois de as ler, chego à minha janela sobre a rua estreita, olho o grande céu e os muitos astros, e sou livre com um esplendor alado cuja vibração me estremece no corpo todo. 

"Sou do tamanho do que vejo!" E a frase fica sendo-me a alma inteira, encosto a ela todas as emoções que sinto, e sobre mim, por dentro, como sobre a cidade por fora, cai a paz indecifrável do luar duro que começa largo com o anoitecer."


Bernardo Soares, Livro do Desassossego

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Palavras denteadas de revolta mordida

Ai, quem nunca se abraçou a um tronco não sabe o que seja ser sozinha! Arada até ao âmago da pedra, até ao nódulo da secura, com a alma rasamente aplainada, roçados, a foices de desesperanças, os trigais ainda verdes do desejo, mal despontadas as lânguidas giestas, rumurosas, onde acolher-se?
Nenhum perdão, nenhum berço para a angústia.
Restavam as palavras. Nelas ia morar. Só elas possuíam a imponderável agitação da asa ou o peso, esmagante, da pedra. Amalgamados, o frémito e a quietude, a brevidade e o eterno, que o tempo é lento a comer.
Tinha-as amado tanto! Do fundo da alma da menina que fora.
Tilintavam, caíam sobre ela, como pingos de chuva, grossa, a espapaçarem-se em terra fofa. Eram girassóis de luz raiada. Soltas. Pássaros voantes? Tranças em liberdade? Deixavam-se partir em degrauzinhos felizes (...) e podiam enrolar-se em ternuras diminutivas. Tão guardadoras da meiguice de qualquer nome! (...) a quererem amarrar o tempo, a duração tão breve, das coisas, de tudo, agora o sabia. Vermelhas, sumarentas, medronhos ou bocas maduras. E pisadas, roxas (...) Com a dureza do granito: não! Ou a macieza das dunas: sim! Poliédricas de intenções...
Mágicas. Mágicas. Mágicas.

Luísa Dacosta, Corpo Recusado, pp.16-18

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Deutsche Tänze


Franz Schubert - Deutsche Tänze D 820 (SWR Symphony Orchestra, Cambreling)

http://danielferber.wordpress.com/2008/02/13/as-dancas-da-corte/


Devido à proximidade corporal do par durante a dança, postura considerada imoral e inadequada para os costumes da época, os estados da Alemanha e da Áustria promulgaram entre 1760 e 1772 várias leis contra as danças “valsantes”, onde pudesse ocorrer o perigo de contacto físico entre elementos de sexo oposto.
No entanto, estas proibições surtiram o efeito contrário pela parte conservadora da sociedade. No contexto da Revolução Francesa, a população e a burguesia escolheram a Dança Alemã como uma das formas de contrariar os ideais da nobreza e da igreja.
Os imperadores “esclarecidos” (aqueles que tentaram conciliar as exigências da burguesia, mas sem prejudicar os privilégios da nobreza e do clero), aceitaram novamente a Dança Alemã em festas da corte. Em 1790, Joseph II, imperador da Áustria, chega a contratar os melhores compositores e músicos para criar novas Danças Alemãs. Entre os compositores que se destacaram estão Haydn, Mozart e Beethoven. No mesmo período, Franz Peter Schubert também compõe várias valsas denominadas “Deutscher Tanz”, hoje conhecidas como “German Dance”.
No Congresso de Viena (1815), a “Dança Nacional Alemã” ganha aceitação internacional, tornando-se a principal dança social do século XIX. Com advento de novos instrumentos e composições mais elaboradas, a Dança Alemã evolui, aos poucos, para a “Valsa Vienense”.
http://www.parvizyashar.com/galleri1/03.htm

Edith Piaf & Sapho


Edith Piaf- Je t'ai dans la peau 1953


"a língua se me quebrou e um subtil
fogo de imediato se pôs a correr debaixo da pele;
não vejo nada com os olhos, zunem-me
os ouvidos;

o suor escorre-me do corpo e o tremor
me toma toda."

Sapho (fr.31 PLF)

Folha de rosto de Corpo Recusado

 Acabadinho de requisitar: Corpo Recusado, de Luísa Dacosta

"Um conto de fadas era para ela uma obra d'arte comparável às mais belas ou a uma sinfonia de Beethoven" - Simone Veil, citada por seu irmão André, na biografia de Simone Pétrement

"On a perdu en rêve ce qu'on a gagné en réalité", L'Homme Sans Qualités, Robert Musil