sábado, 19 de fevereiro de 2011

Beijo no Tempo

Relógio, Museu Romântico, Porto, fotografia minha (18/02/2011)
"Nenhum tecido igualava a seda da sua nudez. Nenhuma jóia o brilho dos seus olhos. E aguardava um coração livre, para a noite, infindável, do amor
O sol sucedia-se à ronda das luas, as manhãs apagavam as noites, o tempo fiava o ciclo do eterno retorno"
Luísa Dacosta, Corpo Recusado


O Beijo

(...)
E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...
Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'







Horas Rubras
Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos rubros e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas...

Oiço olaias em flor às gargalhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p'las estradas...

Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras...

Sou chama e neve e branca e mist'riosa...
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!
Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

E ainda:
http://www.youtube.com/watch?v=sGJ_Rir5wmo

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

“Escrever, escrever, escrever. Toma-me um desvairamento como o de ébrio, que tem mais sede com o beber para o beber, ou do impossível erotismo que vai até ao limite de sangrar. Escrever. Sentir-me devorado por essa bulimia, a avidez sôfrega que se alimenta do impossível”.

(Vergílio Ferreira, Pensar, 1992).

"Todo o entender é no impossível que tem o seu limite"

Como é que certos tipos têm belas frases à hora da morte?

O "tudo está bem" de Kant, ou o "mais luz" de Göethe, ou o "amanhã o que virá" de Pessoa, ou até mesmo, à maneira de Sócrates, o "tirem daqui as mulheres" de Herculano?
À hora da morte devia-se era estar calado. E à medida que se vai lá chegando, era o que se devia apetecer. E daí que talvez o não se perder a fala, mesmo em lamúria, é o sinal que resta de que ainda se está vivo.
Mas se a coisa é a doer, fica-se quieto e calado, à espera. A grande verdade da vida é a morte. E um morto está sossegado.
Como é que certos tipos à hora da morte têm o desplante de ter frases?

(...)

Mas o impossível é a medida do homem e da sua vocação. Aí sou. Aí estou

Vergílio Ferreira, Pensar.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Quo Vadis?

Santo-e-Senha

Deixem passar quem vai na sua estrada.
Deixem passar
Quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada.

Deixem, que vai apenas
Beber água do Sonho a qualquer fonte;
Ou colher açucenas
A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.

Vem da terra de todos, onde mora
E onde volta depois de amanhecer.
Deixem-no pois passar, agora.

Que vai cheio de noite e solidão.
Que vai ser
Uma estrela no chão.

Miguel Torga, Poesia Completa, volume I, p.93

Ausência e desvalorização de sentido

O importante é o que cada um faz do seu niilismo... Enest Jünger


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Tombar

Entrou a dementar-se aquela desconcertada cabeça. A saudade, em vez de lhe tirar lágrimas do íntimo, amadurou-lhe temporâmente o apostema de sandices, que em todo o homem se cria paredes meias com o coração.

Cairias tu nas pioses desta princesa dos mares, desta Lisboa que filtra aos nervos dos seus habitantes o fogo que lhe estua nas entranhas?
Cairias tu, anjo?

A Queda de um Anjo, Camilo Castelo Branco, Babel, 2010
Tausendfach wirken die Pfeile des Amors
Mil vezes se fazem as flechas do Amor sentir

Erotica Romana, Goethe