A gestação (a gesta) do ensaio é permanente, a bordo dos dias, com faróis acidentais que o guiam pelo obliterado bilhete de autocarro, pelos veios do tampo da secretária, pela parede branca à minha frente, que me reflecte todas as ideias, protegendo-me, impassível, das tentações do devaneio. O branco oferece-se, virgem, ao ensaio da desfloração da matéria: o hímen que resiste (os véus que me encobrem o corpo deste objecto instável); a penetração (a ficha, a anotação solta, o lampejo que torna o véu translúcido); o desfolhar do labirinto de experiências, a princípio ingovernáveis, intratáveis, depois domadas, até onde é possível; o derrame (o ímpeto incontrolável das ideias a ganhar forma).
O ensaio faz-se a bordo dos dias. E a bordo dos livros...
João Barrento, O género intranquilo, anatomia do ensaio e do fragmento, Assírio&Alvim, Lisboa, 2010.
"Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve", Vergílio Ferreira, Escrever
segunda-feira, 7 de março de 2011
Tu és o diabo...
L'érotisme, la mort et le "diable"
"Diabolique", il est vrai, se rapporte au christianisme. Mais, selon l'apparence, alors que le christianisme était loin, l'humanité la plus ancienne a connu l'érotisme. Les documents de la préhistoire sont frappants: les premières images de l'homme, peintes aux murs des cavernes, ont le sexe levé. Elles n'ont rien d'exactement diabolique: elles sont préhistoriques, et le diable en ce temps...malgré tout...
G. Bataille, Les larmes d'Éros
Relembremos o amigo Bocaccio, no seu Decameron, com a lenda do ermitão que ensinara uma moça a "meter o diabo no Inferno".
"Diabolique", il est vrai, se rapporte au christianisme. Mais, selon l'apparence, alors que le christianisme était loin, l'humanité la plus ancienne a connu l'érotisme. Les documents de la préhistoire sont frappants: les premières images de l'homme, peintes aux murs des cavernes, ont le sexe levé. Elles n'ont rien d'exactement diabolique: elles sont préhistoriques, et le diable en ce temps...malgré tout...
G. Bataille, Les larmes d'Éros
Relembremos o amigo Bocaccio, no seu Decameron, com a lenda do ermitão que ensinara uma moça a "meter o diabo no Inferno".
domingo, 6 de março de 2011
nada é de molde a tapar por completo a figura de bronze
enterrada na areia
o écran que floresce
como tu como eu nos tubos que dissemos
fizemos
faremos acordar
e até quando?
Amor
amor humano
amor que nos devolve tudo o que perdêssemos
A Vida Inteira Meu Amor
SOMOS NÓS
O cigarro do anúncio luminoso adoeceu deveras já não
fuma o espaço
a uma certa velocidade calma
o atrito longo e agudo dos eléctricos moendo calhas
diz-nos que amanheceu
(...)
amanheceu é óbvio amanheceu
Mário Cesariny, Corpo Visível poema, Assírio&Alvim,
enterrada na areia
o écran que floresce
como tu como eu nos tubos que dissemos
fizemos
faremos acordar
e até quando?
Amor
amor humano
amor que nos devolve tudo o que perdêssemos
A Vida Inteira Meu Amor
SOMOS NÓS
O cigarro do anúncio luminoso adoeceu deveras já não
fuma o espaço
a uma certa velocidade calma
o atrito longo e agudo dos eléctricos moendo calhas
diz-nos que amanheceu
(...)
amanheceu é óbvio amanheceu
Mário Cesariny, Corpo Visível poema, Assírio&Alvim,
Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais.
Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui.
Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
Entregar-me ao que não entendo será pôr-me à beira do nada. Será ir apenas indo, e como uma cega perdida num campo. Essa coisa sobrenatural que é viver.
Eu antes vivia de um mundo humanizado, mas o puramente vivo derrubou a moralidade que eu tinha?
É que um mundo todo vivo tem a força de um Inferno.
Enfim, enfim, quebrara-se realmente o meu invólucro, e sem limite eu era.
Eu estava agora tão maior que já não me via mais. Tão grande como uma paisagem ao longe. Eu era ao longe. Mais perceptível nas minhas mais últimas montanhas e nos meus mais remotos rios: a actualidade simultânea não me assustava mais, e na última extremidade de mim eu podia enfim sorrir...Enfim eu me estendia para além da minha sensibilidade.
Como poderei dizer senão timidamente assim: a vida se me é. A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro.
Clarice Lispector, A paixão segundo G.H., Relógio d'Água, 2000.
Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui.
Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
Entregar-me ao que não entendo será pôr-me à beira do nada. Será ir apenas indo, e como uma cega perdida num campo. Essa coisa sobrenatural que é viver.
Eu antes vivia de um mundo humanizado, mas o puramente vivo derrubou a moralidade que eu tinha?
É que um mundo todo vivo tem a força de um Inferno.
Enfim, enfim, quebrara-se realmente o meu invólucro, e sem limite eu era.
Eu estava agora tão maior que já não me via mais. Tão grande como uma paisagem ao longe. Eu era ao longe. Mais perceptível nas minhas mais últimas montanhas e nos meus mais remotos rios: a actualidade simultânea não me assustava mais, e na última extremidade de mim eu podia enfim sorrir...Enfim eu me estendia para além da minha sensibilidade.
Como poderei dizer senão timidamente assim: a vida se me é. A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro.
Clarice Lispector, A paixão segundo G.H., Relógio d'Água, 2000.
quinta-feira, 3 de março de 2011
terça-feira, 1 de março de 2011
| Sacode as nuvens |
Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.
Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.
Sophia de Mello Breyner |
| Fotografia minha, Arcos do Jardim, Coimbra, 26 de Fevereiro de 2011 |
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