sexta-feira, 18 de março de 2011

Ai, Camões! Na Esquina da Rua do Loureiro, ao 22

Erros meus, má Fortuna, Amor ardente

Em minha perdição se conjuraram;

Os erros e a Fortuna sobejaram,

Que para mim bastava Amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente

A grande dor das cousas que passaram,
Que já as frequências suas me ensinaram
A desejos deixar de ser contente.
Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa a que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.
De Amor não vi senão breves enganos.
Oh! Quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!

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Busque Amor novas artes, novo engenho

Para matar-me, e novas esquivanças;

Que não pode tirar-me as esperanças,

Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!

Vede que perigosas seguranças!
Pois não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.
Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde;
Vem não sei como; e dói não sei porquê.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Música no Coração e Milan Kundera



"O seu drama não era o drama do peso, mas o da leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser.
Sabe que irá para longe, cada vez mais para longe...uma mulher que não pode estar parada não suporta a ideia de que lhe acabem de uma vez por todas com a caminhada."
O amor começa com uma metáfora. Ou, por outras palavras, o amor começa no preciso instante em que, com uma das suas palavras, uma mulher se inscreve na nossa memória poética.

A insustentável leveza do ser, Milan Kundera 

terça-feira, 15 de março de 2011

No tempo dividido

"neste lugar de imperfeição, com o terror de amar num sítio tão frágil como o mundo".

"Como em Rilke, ela traz em si a possibilidade estranha de fazer vibrar em uníssono a alma do mundo criado e a sua própria alma. Lê por toda a parte a história íntima de si mesma."

Sophia de Mello Breyner pelo olhar do marido, Francisco Sousa Tavares


Embora o teu corpo às vezes se contorça
Numa oscilação incerta e vaga,
Sei como é intacta e pura a tua força,
Sei como é absoluta a harmonia,
Que regressando nasce em cada vaga.

No infinito sorriso das espumas,
No chamar da maresia, no convite das brumas,
Na exaltação de cada maré cheia,
No teu ritmo de dança e bebedeira,
O que eu procuro e encontro extasiada,
É a tua alma viva, nunca profanada.

Exposição Sophia de Mello Breyner, uma vida de poeta, Biblioteca Nacional Portuguesa, http://www.bnportugal.pt/
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.


Miguel Torga, Antologia Poética

quarta-feira, 9 de março de 2011

Maud Muller
 
For of all sad words of tongue or pen,
The saddest are these: "It might have been!" 
 
John Greenleaf Whittier (1807-1892)

segunda-feira, 7 de março de 2011

O ensaio faz-se a bordo dos dias

A gestação (a gesta) do ensaio é permanente, a bordo dos dias, com faróis acidentais que o guiam pelo obliterado bilhete de autocarro, pelos veios do tampo da secretária, pela parede branca à minha frente, que me reflecte todas as ideias, protegendo-me, impassível, das tentações do devaneio. O branco oferece-se, virgem, ao ensaio da desfloração da matéria: o hímen que resiste (os véus que me encobrem o corpo deste objecto instável); a penetração (a ficha, a anotação solta, o lampejo que torna o véu translúcido); o desfolhar do labirinto de experiências, a princípio ingovernáveis, intratáveis, depois domadas, até onde é possível; o derrame (o ímpeto incontrolável das ideias a ganhar forma).

O ensaio faz-se a bordo dos dias. E a bordo dos livros...

João Barrento, O género intranquilo, anatomia do ensaio e do fragmento, Assírio&Alvim, Lisboa, 2010.