A mim custa-me imaginar o que aconteceria à minha biblioteca se levassem todos os livros que não abro há mais de um ano. Parece-me que posso vir a precisar de todos, várias vezes. Gosto que estejam aqui, de olhar para eles.
Já perdi uma biblioteca inteira num incêndio, há 25 anos. Fiquei sem livros. Mas a verdade é que ela foi-se reconstituindo e hoje tenho uma biblioteca muito melhor e maior do que a primeira, à qual estou ainda mais afeiçoado do que à primeira. Não trocaria esta por aquela que ardeu. (...)
A experiência do incêndio traiu o meu amor pelos livros. Nunca mais foi o mesmo. Ou então sou eu que sou incapaz de me perdoar por ter conseguido viver sem aqueles livros, sem os quais, tinha a certeza absoluta, não conseguia viver.
Vivemos todos com muita tralha. (...) A tralha sai cara. (...)
As coisas que nos prendem também são as coisas que nos atrasam. Se vivêssemos apenas com uma mala cada um, que pudéssemos fazer em meia hora, poderíamos viajar mais, para onde houvesse mais dinheiro, mais trabalho, mais alegria. (...)
Venha aí o que vier, mesmo sem ter um Plano B, o melhor é irmos desfazendo-nos das nossas tralhas. A começar pelas mentais.
No meu caso, é começar a perguntar quais seria os livros que escolheria para pôr naquela única mala. O primeiro passo foi reconhecer que nem todos os meus livros são indispensáveis. Que gosto e preciso mais de uns do que outros. E que estes outros são mais do que os primeiros. E por aí fora.
Ainda tenho muito trabalho pela frente. Deus queira que Portugal fique repentinamente rico.
Miguel Esteves Cardoso, P2, Sexta-feira 8 de Abril de 2011, pp.4-5.
"Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve", Vergílio Ferreira, Escrever
sexta-feira, 8 de abril de 2011
quinta-feira, 7 de abril de 2011
A razão era essa.
Sem nome, vejam só. E contudo, “os nomes penetram-nos até aos ossos”, afirmava Hemingway, esse viajante das mortes, em The Garden of Eden. Simplesmente, no meu homem sem memória tanto o nome que lhe pertencera como o das personagens que lhe cobriram a existência tinham enquistado e desfizeram-se em pó.
(…)
Daí a total total indiferença em que navegava à tona das comoções e dos afectos, uma indiferença extrema que, sucedesse o que sucedesse, não o levava a perturbar nem ao de leve a disciplina ambiente. Na verdade, não sabia de todo onde se encontrava, a razão era essa.
José Cardoso Pires, De profundis, Valsa Lenta, p.39
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Sonhos na mesa
Mesa dos sonhos
Ao lado do homem vou crescendo
Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao seu desejo violento
E lhe devoro o corpo lentamente
Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas
Ao lado do homem vou crescendo
E defendo-me da morte povoando
de novos sonhos a vida.
Alexandre O'Neill
Ao lado do homem vou crescendo
Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao seu desejo violento
E lhe devoro o corpo lentamente
Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas
Ao lado do homem vou crescendo
E defendo-me da morte povoando
de novos sonhos a vida.
Alexandre O'Neill
No brilho redondo
No brilho redondo
e jovem dos joelhos.
Na noite inclinada
de melancolia.
Procura.
Procura a maravilha.
Eugénio de Andrade
segunda-feira, 4 de abril de 2011
quinta-feira, 31 de março de 2011
arte automática
Em memória do pintor Ângelo de Sousa e "das suas novas formas de fazer pintura".
http://sol.sapo.pt/inicio/Cultura/Interior.aspx?content_id=15486
http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%82ngelo_de_Sousa
uma mulher de hoje e de infinitos
Totalmente herética.
Absolutamente hermética.
És a corrente eléctrica
que subverte a métrica.
vejo uma mulher distante amante
lutando contra o tempo desviante
uma mulher de células diamante
e oráculos védicos bramante…
uma rubra submérsica corrente
entregue aos ritos áuricos da mente
que me procura e eu busco demente
entre sonoras sombras manualmente!
uma mulher de súbitos desvios
de onde nascem tumultuosos rios
e se perfilam beijos desvarios
em sexos sanguíneos de-lírios…!...
uma mulher de hoje e de infinitos
saberes sabores de que se fazem mitos.
E.M de Melo e Castro, in «No Limite das Coisas», Campo das Letras, Porto, 2003
Absolutamente hermética.
És a corrente eléctrica
que subverte a métrica.
vejo uma mulher distante amante
lutando contra o tempo desviante
uma mulher de células diamante
e oráculos védicos bramante…
uma rubra submérsica corrente
entregue aos ritos áuricos da mente
que me procura e eu busco demente
entre sonoras sombras manualmente!
uma mulher de súbitos desvios
de onde nascem tumultuosos rios
e se perfilam beijos desvarios
em sexos sanguíneos de-lírios…!...
uma mulher de hoje e de infinitos
saberes sabores de que se fazem mitos.
E.M de Melo e Castro, in «No Limite das Coisas», Campo das Letras, Porto, 2003
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