sexta-feira, 8 de abril de 2011

Plano B

A mim custa-me imaginar o que aconteceria à minha biblioteca se levassem todos os livros que não abro há mais de um ano. Parece-me que posso vir a precisar de todos, várias vezes. Gosto que estejam aqui, de olhar para eles.
Já perdi uma biblioteca inteira num incêndio, há 25 anos. Fiquei sem livros. Mas a verdade é que ela foi-se reconstituindo e hoje tenho uma biblioteca muito melhor e maior do que a primeira, à qual estou ainda mais afeiçoado do que à primeira. Não trocaria esta por aquela que ardeu. (...)
A experiência do incêndio traiu o meu amor pelos livros. Nunca mais foi o mesmo. Ou então sou eu que sou incapaz de me perdoar por ter conseguido viver sem aqueles livros, sem os quais, tinha a certeza absoluta, não conseguia viver.
Vivemos todos com muita tralha. (...) A tralha sai cara. (...)
As coisas que nos prendem também são as coisas que nos atrasam. Se vivêssemos apenas com uma mala cada um, que pudéssemos fazer em meia hora, poderíamos viajar mais, para onde houvesse mais dinheiro, mais trabalho, mais alegria. (...)
Venha aí o que vier, mesmo sem ter um Plano B, o melhor é irmos desfazendo-nos das nossas tralhas. A começar pelas mentais.
No meu caso, é começar a perguntar quais seria os livros que escolheria para pôr naquela única mala. O primeiro passo foi reconhecer que nem todos os meus livros são indispensáveis. Que gosto e preciso mais de uns do que outros. E que estes outros são mais do que os primeiros. E por aí fora.
Ainda tenho muito trabalho pela frente. Deus queira que Portugal fique repentinamente rico.

Miguel Esteves Cardoso, P2, Sexta-feira 8 de Abril de 2011, pp.4-5.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

A razão era essa.


Sem nome, vejam só. E contudo, “os nomes penetram-nos até aos ossos”, afirmava Hemingway, esse viajante das mortes, em The Garden of Eden. Simplesmente, no meu homem sem memória tanto o nome que lhe pertencera como o das personagens que lhe cobriram a existência tinham enquistado e desfizeram-se em pó.
(…)
Daí a total total indiferença em que navegava à tona das comoções e dos afectos, uma indiferença extrema que, sucedesse o que sucedesse, não o levava a perturbar nem ao de leve a disciplina ambiente. Na verdade, não sabia de todo onde se encontrava, a razão era essa.

José Cardoso Pires, De profundis, Valsa Lenta, p.39
 

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Sonhos na mesa

Mesa dos sonhos

Ao lado do homem vou crescendo

Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao seu desejo violento
E lhe devoro o corpo lentamente

Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas

Ao lado do homem vou crescendo

E defendo-me da morte povoando
de novos sonhos a vida. 


Alexandre O'Neill

No brilho redondo



No brilho redondo

e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.

Procura a maravilha.

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Se eu morresse agora queria um epitáfio a dizer: Aqui jaz jovem com uma biblioteca que cabe em 34 caixotes de tamanho jeitoso.
Todavia, prefiro ainda aumentar o espólio, se faz favor.

quinta-feira, 31 de março de 2011

arte automática

Em memória do pintor Ângelo de Sousa e "das suas novas formas de fazer pintura".

















http://sol.sapo.pt/inicio/Cultura/Interior.aspx?content_id=15486
http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%82ngelo_de_Sousa

uma mulher de hoje e de infinitos

Totalmente herética.
Absolutamente hermética.
És a corrente eléctrica
que subverte a métrica.

vejo uma mulher distante amante
lutando contra o tempo desviante
uma mulher de células diamante
e oráculos védicos bramante…

uma rubra submérsica corrente
entregue aos ritos áuricos da mente
que me procura e eu busco demente
entre sonoras sombras manualmente!

uma mulher de súbitos desvios
de onde nascem tumultuosos rios
e se perfilam beijos desvarios
em sexos sanguíneos de-lírios…!...

uma mulher de hoje e de infinitos
saberes sabores de que se fazem mitos.

E.M de Melo e Castro, in «No Limite das Coisas», Campo das Letras, Porto, 2003