A mim custa-me imaginar o que aconteceria à minha biblioteca se levassem todos os livros que não abro há mais de um ano. Parece-me que posso vir a precisar de todos, várias vezes. Gosto que estejam aqui, de olhar para eles.
Já perdi uma biblioteca inteira num incêndio, há 25 anos. Fiquei sem livros. Mas a verdade é que ela foi-se reconstituindo e hoje tenho uma biblioteca muito melhor e maior do que a primeira, à qual estou ainda mais afeiçoado do que à primeira. Não trocaria esta por aquela que ardeu. (...)
A experiência do incêndio traiu o meu amor pelos livros. Nunca mais foi o mesmo. Ou então sou eu que sou incapaz de me perdoar por ter conseguido viver sem aqueles livros, sem os quais, tinha a certeza absoluta, não conseguia viver.
Vivemos todos com muita tralha. (...) A tralha sai cara. (...)
As coisas que nos prendem também são as coisas que nos atrasam. Se vivêssemos apenas com uma mala cada um, que pudéssemos fazer em meia hora, poderíamos viajar mais, para onde houvesse mais dinheiro, mais trabalho, mais alegria. (...)
Venha aí o que vier, mesmo sem ter um Plano B, o melhor é irmos desfazendo-nos das nossas tralhas. A começar pelas mentais.
No meu caso, é começar a perguntar quais seria os livros que escolheria para pôr naquela única mala. O primeiro passo foi reconhecer que nem todos os meus livros são indispensáveis. Que gosto e preciso mais de uns do que outros. E que estes outros são mais do que os primeiros. E por aí fora.
Ainda tenho muito trabalho pela frente. Deus queira que Portugal fique repentinamente rico.
Miguel Esteves Cardoso,
P2, Sexta-feira 8 de Abril de 2011, pp.4-5.