Aqui está com simplicidade, em palavras nítidas, curtas e cifradas, o estado da instrução pública em Portugal.
A falta de carreira é a extinção do estímulo, é a petrificação da vontade, é o estabelecimento da inércia e da hesitação da vida. O homem assim não procura alargar-se, saber, conhecer mais, progredir: embrulha-se na sonolência do seu ofício como quem se acomoda para a eternidade.
Eça de Queirós, Farpas
"Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve", Vergílio Ferreira, Escrever
segunda-feira, 25 de abril de 2011
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Eu sou desses monstros
O português nunca pode ter ideias por causa da paixão da forma. A sua mania é fazer belas frases, ver-lhes o brilho, sentir-lhes a música. Se for necessário falsear a ideia, deixá-la incompleta, exagerá-la, para a frase ganhar em beleza, o desgraçado não hesita...Vá-se pela água abaixo o pensamento, mas salve-se a bela da frase.
-Questão de temperamento - disse Carlos. - Há seres inferiores, para quem a sonoridade de um adjectivo é mais importante que a exactidão de um sistema... Eu sou desses monstros.
Viva a bela frase!
Os Maias, Eça de Queirós
-Questão de temperamento - disse Carlos. - Há seres inferiores, para quem a sonoridade de um adjectivo é mais importante que a exactidão de um sistema... Eu sou desses monstros.
Viva a bela frase!
Os Maias, Eça de Queirós
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Num palácio de sons
É por dentro de um homem que se ouve
o tom mais alto que tiver a vida
a glória de cantar que tudo move
a força de viver enraivecida.
Num palácio de sons erguem-se as traves
que seguram o tecto da alegria
pedras que são ao mesmo tempo as aves
mais livres que voaram na poesia.
Para o alto se voltam as volutas
hieráticas sagradas impolutas
dos sons que surgem rangem e se somem.
Mas de baixo é que irrompem absolutas
as humanas palavras resolutas.
Por deus não basta. É mais preciso o Homem.
"Nona Sinfonia", Ary dos Santos in O Sangue das Palavras, 1979.
quinta-feira, 14 de abril de 2011
Atravessar a noite
Atravesso a noite
Atravesso a noite com os pulsos quebrados
Pelos poentes das manhãs falhadas.
Canto o sol na tua boca,
A alegria fugitiva dos minutos
Com um barco em cada palavra
E uma lágrima estilhaçada
Na música do poema.
Atravesso a noite
Com a sede de todas as bocas.
Junto de ti
O tempo é um mercado de fruta.
Canto amor as estrelas que habitam
Os teus olhos de fogo
E as puras maçãs
Dos teus seios de sangue.
Aqui o tempo é um jornal antigo
Com as notícias amarelas
Do suor de muitas mãos.
Cristóvão Aguiar
in O badalo, jornal do conselho das Repúblicas de Coimbra, Março 1968, p.19.
Atravesso a noite com os pulsos quebrados
Pelos poentes das manhãs falhadas.
Canto o sol na tua boca,
A alegria fugitiva dos minutos
Com um barco em cada palavra
E uma lágrima estilhaçada
Na música do poema.
Atravesso a noite
Com a sede de todas as bocas.
Junto de ti
O tempo é um mercado de fruta.
Canto amor as estrelas que habitam
Os teus olhos de fogo
E as puras maçãs
Dos teus seios de sangue.
Aqui o tempo é um jornal antigo
Com as notícias amarelas
Do suor de muitas mãos.
Cristóvão Aguiar
in O badalo, jornal do conselho das Repúblicas de Coimbra, Março 1968, p.19.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Pies...para qué los quiero si tengo alas para volar?
![]() |
| http://lilianarosa.blogspot.com/2008/03/frida-kahlo-com-ferida-e-calo.html |
"Sinto-me mal, e ficarei pior, mas vou aprendendo a estar sozinha e isso já é uma vantagem e um pequeno triunfo."
(Frida Kahlo)
"A separação do meu corpo, estar eu para um lado e ele para o outro,
eu a ser orgulhoso de altivez e ele a ser um tipo ordinaríssimo, cheio de imundície e baixeza.
eu a ser orgulhoso de altivez e ele a ser um tipo ordinaríssimo, cheio de imundície e baixeza.
E ser eu ao mesmo tempo o imundo e baixo e não sê-lo. Mas não te sei explicar."
Em nome da terra, Vergílio Ferreira
Em nome da terra, Vergílio Ferreira
segunda-feira, 11 de abril de 2011
A um Cristo sem cruz
E tiveste depois a glória de subires ao céu com as marcas do sofrimento nesse teu corpo terrestre. E é só aí que me interessas. Na lástima desse teu corpo. N amargura da solidão. Como te devias sentir só. É só aí que te entendo para me entender a mim. Só na dor absoluta de um homem sem divindade nenhuma.
Porque um corpo destruído é tão humilhante.
E essa é a solidão maior, porque um corpo é a nossa última companhia.
Vergílio Ferreira, Em nome da terra
Porque um corpo destruído é tão humilhante.
E essa é a solidão maior, porque um corpo é a nossa última companhia.
Vergílio Ferreira, Em nome da terra
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