sexta-feira, 6 de maio de 2011

Faz tudo como se alguém te contemplasse (Epicuro)

"Nenhum prazer é um mal em si, mas certas coisas capazes de engendrar prazeres trazem consigo maior número de males que de prazeres. Se as coisas que proporcionam prazeres às pessoas dissolutas pudessem livrar-lhe o espírito das angústias que experimentam diante dos fenómenos celestes, da morte e dos sofrimentos, e se, por outro lado, lhes ensinassem o limite dos desejos, nada teriamos de censurar nelas, pois que as cumulariam de prazeres, sem mistura alguma de dor ou pesar, os quais constituem precisamente o mal."

Epicuro, in "Máximas Fundamentais"

En el zaguán hay un espejo, que fielmente duplica las apariencias

El universo (que otros llaman la Biblioteca) se compone de un número indefinido, y tal vez infinito, de galerías hexagonales, con vastos pozos de ventilación en el medio, cercados por barandas bajísimas. Desde cualquier hexágono, se ven los pisos inferiores y superiores: interminablemente.

En el zaguán hay un espejo, que fielmente duplica las apariencias. Los hombres suelen inferir de ese espejo que la Biblioteca no es infinita... yo prefiero soñar que las superficies bruñidas figuran y prometen el infinito...

«La Biblioteca es una esfera cuyo centro cabal es cualquier hexágono, cuya circunferencia es inaccesible»

El hombre, el imperfecto bibliotecario, puede ser obra del azar o de los demiurgos malévolos; el universo, con su elegante dotación de anaqueles, de tomos enigmáticos, de infatigables escaleras para el viajero y de letrinas para el bibliotecario sentado, sólo puede ser obra de un dios.

Jorge Luís Borges, "A Biblioteca de Babel", Ficciones, Coleccão Novis, Biblioteca Visão, 2000.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Não fales nela que a mentes.

Da vida... não fales nela,
quando o ritmo pressentes.
Não fales nela que a mentes.

Se os teus olhos se demoram
em coisas que nada são,
se os pensamentos se enfloram
em torno delas e não
em torno de não saber
da vida... Não fales nela.

Quanto saibas de viver
nesse olhar se te congela.
E só a dança é que dança,
quando o ritmo pressentes.

Se, firme, o ritmo avança,
é dócil a vida, e mansa...
Não fales nela, que a mentes.

Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Aqui está com simplicidade, em palavras nítidas, curtas e cifradas, o estado da instrução pública em Portugal.

A falta de carreira é a extinção do estímulo, é a petrificação da vontade, é o estabelecimento da inércia e da hesitação da vida. O homem assim não procura alargar-se, saber, conhecer mais, progredir: embrulha-se na sonolência do seu ofício como quem se acomoda para a eternidade.

Eça de Queirós, Farpas

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Eu sou desses monstros

O português nunca pode ter ideias por causa da paixão da forma. A sua mania é fazer belas frases, ver-lhes o brilho, sentir-lhes a música. Se for necessário falsear a ideia, deixá-la incompleta, exagerá-la, para a frase ganhar em beleza, o desgraçado não hesita...Vá-se pela água abaixo o pensamento, mas salve-se a bela da frase.
-Questão de temperamento - disse Carlos. - Há seres inferiores, para quem a sonoridade de um adjectivo é mais importante que a exactidão de um sistema... Eu sou desses monstros.

Viva a bela frase!


Os Maias, Eça de Queirós

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Num palácio de sons




É por dentro de um homem que se ouve
o tom mais alto que tiver a vida
a glória de cantar que tudo move
a força de viver enraivecida.

Num palácio de sons erguem-se as traves
que seguram o tecto da alegria
pedras que são ao mesmo tempo as aves
mais livres que voaram na poesia.

Para o alto se voltam as volutas
hieráticas  sagradas  impolutas
dos sons que surgem rangem e se somem.


Mas de baixo é que irrompem absolutas
as humanas palavras resolutas.
Por deus não basta. É mais preciso o Homem.


"Nona Sinfonia", Ary dos Santos in O Sangue das Palavras, 1979.