segunda-feira, 23 de maio de 2011

Como aceitar assim a força da razão, se a força dela está onde ela não está? (Invocação ao meu corpo)

Ama-se um corpo como instrumento de amar, como forma de onanismo de que o trabalho é dele. Ou como êxtase de um terror paralítico. Ou como orientação ao impossível que não está lá. Com raiva desespero de quem já não pode mais e não sabe o quê. Como avidez insuportável não de o ter tido na mão, porque o podemos ter nela, sofregamente, boca seios o volume quente harmonioso da anca e tudo esmagar até à fúria, ter o que aí se procura e que é o que lá está, mas não o que está atrás disso e é justamente o que se procura e se não sabe o que é nem jamais poderemos atingir.

Vergílio Ferreira, in "Em Nome da Terra"

tens o corpo depositado na memória

«Tenho nas mãos a memória do teu corpo, do boleado doce do teu corpo. As pernas, os seios, deixa-me encher as mãos outra vez. O fio ardente da tua pele. A face. Mal te vejo os olhos, mas o teu olhar cai sobre mim em torrente. Despi-me brusco, deitados os dois na areia, e a fúria, e o limite. E uma só verdade para nós e o universo. Deitados de costas, lemos as estrelas. A paz enorme de horizonte a horizonte. A eternidade. E a necessidade de estarmos lá, para não haver mais nada para fora de nós. Depois erguemo-nos, mergulhámos nas águas.»...

"Querida. Veio-me hoje uma vontade enorme de te amar. E então pensei: vou-te escrever. Mas não te quero amar no tempo em que te lembro. Quero-te amar antes, muito antes. É quando o que é grande acontece. E não me digas lá porquê. Não sei. O que é grande acontece no eterno e o amor é assim, devias saber. Ama-se como se tem uma iluminação, deves ter ouvido. Ou se bate forte com a cabeça. Pelo menos comigo foi assim. Ou como quando se dá uma conjugação de astros no infinito, deve vir nos livros. Ou mais provavelmente esse tempo nunca pára de existir, que é quando realmente existe o que vale a pena existir. Vou pensar melhor a ver se eu próprio entendo."

V.F. Em nome da terra


corpo e música
o som do corpo abafava a oração infinita e visível das mãos.
um leve sussurro anunciava o trajecto que teríamos de executar.
ouvia-se uma música ou uma invenção de vozes que contrariava o silêncio.
tínhamos de aguardar o retorno súbito do sangue. assim poderíamos seguir junto ao fluir desdobrado do teu ventre. a medo porque, o corpo resiste ao espanto de si mesmo.

corpo e labirinto
agora deparo-me com o labirinto do trajecto que o teu corpo delineia.
estás despida. quase nua. escondida. excessiva.
insinuas-te: sigo-te.
e por te ver doemos esmagados na cor perfeita do sangue.

Eduardo de Quina, Corpo a corpo

sábado, 21 de maio de 2011

Pensar não dói como andar à chuva

A MS, um pouco mais de Jorge de Sena

Eu estou cansado de não me dissolver
continuamente em cada instante da vida,
ou das pessoas, ou de mim, ou de tudo.
Qu'ai-je à faire de l'éternel? I live here.
Non abbiamo confusion. E aqui é que morrerei de cansaço, como hoje estou
tão terrivelmente cansado.

"É tarde, muito tarde da noite"
 
Na noite cavernosa a que se aponta
E em que mergulha e se desliza e volta
Quanto se move do que as partes une
De oscilações o templo e o seu suporte –
Trementes superfícies e rebordos
Se roçam se estrangulam se recravam
Até que imóveis o edifício jorra
Adentro de si mesmo um fecho líquido
Selando a abóbada nocturna e quente
Da cripta profunda.

"Arquitectura dos corpos"

Última ceia de nudez absurda: imagens naturais além da moral

"La nature a ses lois. La morale est antinaturelle".(Rhinocéros, Ionesco)

Demónios de lingerie cor de carne, músculos, corpo e o poder do gesto e da insinuação...
-Pensei que fosses mais poético! A lógica é linda! Um grito na penumbra e os demónios lânguidos tentam obstinadamente a carne... eles são belos, vê, são felizes e dançam ("E que mover-se um corpo no de um outro o amplexo / não é dos corpos o mais puro intento?", Jorge de Sena, Exorcismos) e o bafo da respiração surda sente-se ("Olhos se fechem não para não ver / mas para o corpo ver o que eles são / e no silêncio se ouça o só ranger / da carne que é da carne a só razão", Jorge de Sena, Exorcismos) e sorris.
Escuta-se o esgar e o contorcer-se de alguém que veementemente afirma "Je ne capitule pas!" (Rhinocéros, Ionesco)

Ó doce perspicácia dos sentidos!
Versão mais táctil que apressados dedos
sempre na treva tropeçando em medos
que só o olfacto os ouve definidos!

Audível sexo, corpos repetidos,
gosto salgado em curvas sem segredos
a que outras acres e secretas - ledos,
tranquilos, finos ásperos rangidos -

se ligam, mancha a mancha, lentamente...
Perfume túrgido, macio, tépido,
sequioso de mão gélida e tremente...

Vago arrepio que se escoa lépido
por sobre os tensos corpos tão fingidos...
Ó doce perspicácia dos sentidos!
(Jorge de Sena, Pedra Filosofal)
«Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio de asas.
- Como quereis o equilíbrio?»
(David Mourão-Ferreira)
E porque entre corpos o que existe é pura energeia - "assez de tricoter" - seja!
 Post espectáculo Normal, do grupo Citac (É normal ir?) :http://www.youtube.com/watch?v=zcfpbjs4eaA

segunda-feira, 16 de maio de 2011

C'est le feu qui se relève avec son damné

La richesse d'un poème si elle doit s'évaluer au nombre des interprétations qu'il suscite, pour les ruiner bientôt, mais en les maintenant dans nos tissus, cette mesure est acceptable.
Qu'est-ce qui scintille, parle plus qu'il ne chuchote, se transmet silencieusement, puis file derrière la nuit, ne laissant que le vide de l'amour, la promesse de l'immunité?
Cette scintillation très personnelle, cette trépidation, cette hypnose, ces battements innombrables sont autant de versions, celles-là plausibles, d'un évènement unique: le présent perpétuel, en forme de roue comme le soleil, et comme le visage humain, avant que la terre et le ciel en le tirant à eux ne l'allongeassent cruellement.

Rimbaud, Poésies. Une saison en enfer, introdução de René Char, Éditions Gallimard
von den Sternen stürzt alle Zeit herab

Das estrelas escorre o tempo em cascata
(in Electra de Hgo von Hofmannsthal)