«Tenho nas mãos a memória do teu corpo, do boleado doce do teu corpo. As pernas, os seios, deixa-me encher as mãos outra vez. O fio ardente da tua pele. A face. Mal te vejo os olhos, mas o teu olhar cai sobre mim em torrente. Despi-me brusco, deitados os dois na areia, e a fúria, e o limite. E uma só verdade para nós e o universo. Deitados de costas, lemos as estrelas. A paz enorme de horizonte a horizonte. A eternidade. E a necessidade de estarmos lá, para não haver mais nada para fora de nós. Depois erguemo-nos, mergulhámos nas águas.»...
"Querida. Veio-me hoje uma vontade enorme de te amar. E então pensei: vou-te escrever. Mas não te quero amar no tempo em que te lembro. Quero-te amar antes, muito antes. É quando o que é grande acontece. E não me digas lá porquê. Não sei. O que é grande acontece no eterno e o amor é assim, devias saber. Ama-se como se tem uma iluminação, deves ter ouvido. Ou se bate forte com a cabeça. Pelo menos comigo foi assim. Ou como quando se dá uma conjugação de astros no infinito, deve vir nos livros. Ou mais provavelmente esse tempo nunca pára de existir, que é quando realmente existe o que vale a pena existir. Vou pensar melhor a ver se eu próprio entendo."
V.F. Em nome da terra
corpo e música
o som do corpo abafava a oração infinita e visível das mãos.
um leve sussurro anunciava o trajecto que teríamos de executar.
ouvia-se uma música ou uma invenção de vozes que contrariava o silêncio.
tínhamos de aguardar o retorno súbito do sangue. assim poderíamos seguir junto ao fluir desdobrado do teu ventre. a medo porque, o corpo resiste ao espanto de si mesmo.
corpo e labirinto
agora deparo-me com o labirinto do trajecto que o teu corpo delineia.
estás despida. quase nua. escondida. excessiva.
insinuas-te: sigo-te.
e por te ver doemos esmagados na cor perfeita do sangue.
Eduardo de Quina, Corpo a corpo