quarta-feira, 25 de maio de 2011

Bibliotecas na madrugada

E assim, quando te vais, fica o vazio na divisão dos livros (FB)

«A tua ausência é, em cada momento, a tua ausência.

não esqueço que os teus lábios existem longe de mim.

aqui há casas vazias. há cidades desertas. há lugares.


mas eu lembro que o tempo é outra coisa, e tenho

tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.

aqui não há palavras. há a tua ausência. há o medo sem os

teus lábios, sem os teus cabelos. fecho os olhos para te ver

e para não chorar.»

José Luís Peixoto

terça-feira, 24 de maio de 2011

Ao JB
 "(...) e sei que danço porque quero ser amada e amar na vertigem de ser amada e sei que danço porque em meu tronco rebentam dois verdes frutos que querem sazonar-se na estação do amor." 
Natália Correia, Madona
 
IPHIGENIE AUF TAURIS de Christoph Willibald Gluck (2010-11) 


Coreografia de Pina Bausch













Por Entre os Sons da Música  

Por entre os sons da música, ao ouvido
como a uma porta que ficou entreaberta
o que se me revela em ter sentido
é o que por essa música encoberta

acena em vão do outro lado dela
e eu sinto como a voz que respondesse
ao que em mim não chamou nem está nela,
porque é só o desejar que aí batesse.

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O que és é-lo no absoluto de ti: dance




"Dance, dance, otherwise we are lost", Pina Bausch

A consciência que te acompanha no que vais sendo é o puro registo disso que vais sendo para o poderes ler, se quiseres, depois de já ter sido. Mas no instante de seres o que és, o que és é apenas, por uma decisão anterior ao decidires. O que és é-lo onde a tua realidade profunda em profundeza obscura se realizou. O que és é-lo no absoluto de ti. A consciência testifica-nos apenas como o ser privilegiado que sabe o que é por aquilo que vai sendo e pode assim reconverter-se à posse iluminada disso que vai sendo. A consciência constata mas não interfere senão para se não ser mais o que se foi, ou mais rigorosamente, para se não querer ser o que se é - o que é ser-se ainda, embora de outra maneira.Porque se neste instante me sobreponho, ao que sou, outra maneira de ser - a consciência que me altera o primeiro modo de ser é a paralela iluminação do modo de ser segundo. Decidi ainda antes de decidir, quando decidi não ser o que primeiramente decidira. Assim no torvelinho dos actos que me presentificam e da consciência desses actos, sempre o insondável de nós se abre para lá do que podemos sondar. Sempre a realidade de nós é a realidade original que na origens se gera. Sempre a autenticidade de nós está a uma distância infinita das razões que a justificam.

Vergílio Ferreira, in 'Invocação ao Meu Corpo'

Como aceitar assim a força da razão, se a força dela está onde ela não está? (Invocação ao meu corpo)

Ama-se um corpo como instrumento de amar, como forma de onanismo de que o trabalho é dele. Ou como êxtase de um terror paralítico. Ou como orientação ao impossível que não está lá. Com raiva desespero de quem já não pode mais e não sabe o quê. Como avidez insuportável não de o ter tido na mão, porque o podemos ter nela, sofregamente, boca seios o volume quente harmonioso da anca e tudo esmagar até à fúria, ter o que aí se procura e que é o que lá está, mas não o que está atrás disso e é justamente o que se procura e se não sabe o que é nem jamais poderemos atingir.

Vergílio Ferreira, in "Em Nome da Terra"

tens o corpo depositado na memória

«Tenho nas mãos a memória do teu corpo, do boleado doce do teu corpo. As pernas, os seios, deixa-me encher as mãos outra vez. O fio ardente da tua pele. A face. Mal te vejo os olhos, mas o teu olhar cai sobre mim em torrente. Despi-me brusco, deitados os dois na areia, e a fúria, e o limite. E uma só verdade para nós e o universo. Deitados de costas, lemos as estrelas. A paz enorme de horizonte a horizonte. A eternidade. E a necessidade de estarmos lá, para não haver mais nada para fora de nós. Depois erguemo-nos, mergulhámos nas águas.»...

"Querida. Veio-me hoje uma vontade enorme de te amar. E então pensei: vou-te escrever. Mas não te quero amar no tempo em que te lembro. Quero-te amar antes, muito antes. É quando o que é grande acontece. E não me digas lá porquê. Não sei. O que é grande acontece no eterno e o amor é assim, devias saber. Ama-se como se tem uma iluminação, deves ter ouvido. Ou se bate forte com a cabeça. Pelo menos comigo foi assim. Ou como quando se dá uma conjugação de astros no infinito, deve vir nos livros. Ou mais provavelmente esse tempo nunca pára de existir, que é quando realmente existe o que vale a pena existir. Vou pensar melhor a ver se eu próprio entendo."

V.F. Em nome da terra


corpo e música
o som do corpo abafava a oração infinita e visível das mãos.
um leve sussurro anunciava o trajecto que teríamos de executar.
ouvia-se uma música ou uma invenção de vozes que contrariava o silêncio.
tínhamos de aguardar o retorno súbito do sangue. assim poderíamos seguir junto ao fluir desdobrado do teu ventre. a medo porque, o corpo resiste ao espanto de si mesmo.

corpo e labirinto
agora deparo-me com o labirinto do trajecto que o teu corpo delineia.
estás despida. quase nua. escondida. excessiva.
insinuas-te: sigo-te.
e por te ver doemos esmagados na cor perfeita do sangue.

Eduardo de Quina, Corpo a corpo

sábado, 21 de maio de 2011

Pensar não dói como andar à chuva

A MS, um pouco mais de Jorge de Sena

Eu estou cansado de não me dissolver
continuamente em cada instante da vida,
ou das pessoas, ou de mim, ou de tudo.
Qu'ai-je à faire de l'éternel? I live here.
Non abbiamo confusion. E aqui é que morrerei de cansaço, como hoje estou
tão terrivelmente cansado.

"É tarde, muito tarde da noite"
 
Na noite cavernosa a que se aponta
E em que mergulha e se desliza e volta
Quanto se move do que as partes une
De oscilações o templo e o seu suporte –
Trementes superfícies e rebordos
Se roçam se estrangulam se recravam
Até que imóveis o edifício jorra
Adentro de si mesmo um fecho líquido
Selando a abóbada nocturna e quente
Da cripta profunda.

"Arquitectura dos corpos"