sexta-feira, 10 de junho de 2011

Pensa-se por sobre o impensável. O impensável é o que faz que o pensamento pense, identificando-se com ele como a pele com o corpo - porque ela é esse corpo e está fora dele como limite.

Vergílio Ferreira, Pensar, ao fim de um longo mas produtivo dia.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Esse ritmo das ninfas repetido


O ritmo antigo que há em pés descalços,
Esse ritmo das ninfas repetido,
Quando sob o arvoredo
Batem o som da dança,
Vós na alva praia relembrai, fazendo,

Que 'scura a 'spuma deixa; vós, infantes,
Que inda não tendes cura
De ter cura, responde
Ruidosa a roda, enquanto arqueia Apolo
Como um ramo alto, a curva azul que doura,
E a perene maré
Flui, enchente ou vazante.


Ricardo Reis, Odes

tacteias a pedra até ser flor

Sinais de Fogo
Sinais de fogo, os homens se despedem
exaustos e tranquilos, destas cinzas frias.
E o vento que essas cinzas nos dispersa
não é de nós, mas é de quem reacende
outros sinais ardendo na distância,
um breve instante, gestos e palavras,
ansiosas brasas que se apagam logo.

(Jorge de Sena, Sinais de Fogo, in Visão Perpétua, 1967)
 



Promessa de uma noite

cruzo as mãos
sobre as montanhas
um rio esvai-se
ao fogo do gesto
que inflamo

a lua eleva-se
na tua fronte
enquanto tacteias a pedra
até ser flor



(Mia Couto, in "Raíz de orvalho e outros poemas", Caminho, 2009) 

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sábado, 4 de junho de 2011

O que é difícil é acontecer aí o Sol

Não sonhes a eternidade, que os deuses aposentaram-se e já não a fabricam. Mas porque a não fabricas tu, se soubeste fabricar quem a fabricava? Está aí à tua mão, aproveita-a. Está aí numa música, num quadro, num poema. E se te é trabalhoso ter olhos e ouvidos, porque não experimentas tentá-la no que passou e onde nunca falha? Está lá, na sua fixação para sempre.

Vergílio Ferreira, Pensar, 63 e 464.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

"O acto de ler reabre feridas. No livros
em que isso acontece, com frequência,
poderia ao menos haver um aviso na capa;
assim como se faz com a carteira de tabaco,
embora se saiba que poucos deixam
de fumar
por isso"

Teresa Jardim, "Acto de ler", Resumo - a poesia de 2010, in Ler,  Maio 2011

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Podem tirar-te tudo, tudo, tudo

Podem despir-te de tudo o que tens
Podem tirar-te os olhos com que vês o mundo,
A arte com que pões viver
Numa folha de papel
(...)

Poeta,
Podem tirar-te tudo, tudo, tudo,
Que ainda ficará qualquer coisa de ti;
Qualquer coisa que poderá estar numa palavra apenas...
(...)
Qualquer coisa enorme, imensa indefinível,
Que também pode caber na mais ínfima das coisas
Qualquer coisa enorme, imensa, indefinível,
Atravessando os mares e abrangendo os mundos

Aguinaldo Fonseca, "Poeta", in Linha do Horizonte.

domingo, 29 de maio de 2011

Felizes poetas esses

Mandelstamm, Akhmatova e Rilke
ouviam vozes a ditar-lhes versos. Mesmo
o Valéry falava de um primeiro verso
de que se deduziam os seguintes.
Em tempos mais antigos, os demónios
(pessoais espíritos assim como anjos
menos da guarda que do ouvido bichos)
assim segredos assopravam sem
dizerem mais que enigmas. Felizes
poetas esses (como ainda os há)
capazes de de se crerem nunca sós
nem mesmo às horas mais terríveis da
terrível solidão. Por trás dos ombros,
lá estava o espiritinho a acompanhá-los
nos seus calvários de exilados ou de assassinados,
ou moradores de Duínos principescos,
ou de prefaciadores sacrificando-se
por uns milhares de francos a compor
ensaios sur l'idée de dictature.
Os Sócrates e os Goethes todos tiveram disto,
como outros depois a escrita automática.
E o triste é não dizerem francamente
(senão quando a si mesmos se mentissem) que
na solidão total, na noite escura
- aquela em que S.João da Cruz e os santos
mais dados à poesia se pensavam tendo
não é seguro e certo por que lado
uma Visita do Alto pelo corpo adentro -,
ninguém ou nada lhes falava: nada.
Apenas se falavam no silêncio humano
à dupla imagem que do ser se nega.

O Dáimon (7/11/1972), Jorge de Sena, in Conheço o Sal e outros poemas, Antologia Poética,