sábado, 11 de junho de 2011

"e lamber o bolor inocente da insónia" - aging

o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão

(...)

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo.

(...)

sabes como é falso o tempo das imagens
dos gestos inacabados que te evocam o rosto
perdido no confuso sémen dos sonhos

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

(...)

e uma vez acordou
caminhou lentamente por cima da idade
tão longe quanto pôde
onde era possível inventar outra infância
que não lhe ferisse o coração

[...] no centro da cidade, um grito. Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar. (...) e na ténue luminosidade que se recolhe ao horizonte acaba o corpo. Recolho o mel, guardo a alegria, e digo-te baixinho: Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge."

Al berto, "Os Amigos", in O último coração do sonho

¡Es la hora de la medianoche mortal!

¿Sabes cuál es la única obligación que tenemos en esta vida? Pues no ser imbéciles. La palabra «imbécil» es más sustanciosa de lo que parece, no te vayas a creer. Viene del latín baculus que significa «bastón»: el imbécil es el que necesita bastón para caminar.

Que no se enfaden con nosotros los cojos ni los ancianitos, porque el bastón al que nos referimos no es el que se usa muy legítimamente para ayudar a sostenerse y dar pasitos a un cuerpo quebrantado por algún accidente o por la edad. El imbécil puede ser todo lo ágil que se quiera y dar brincos como una gacela olímpica, no se trata de eso. Si el imbécil cojea no es de los pies, sino del ánimo: es su espíritu el debilucho y cojitranco, aunque su cuerpo pegue unas volteretas de órdago.

Hay imbéciles de varios modelos, a elegir:
  a) El que cree que no quiere nada, el que dice que todo le da igual, el que vive en un perpetuo bostezo o en siesta permanente, aunque tenga los ojos abiertos y no ronque.
  b) El que cree que lo quiere todo, lo primero que se le presenta y lo contrario de lo que se le presenta: marcharse y quedarse, bailar y estar sentado, masticar ajos y dar besos sublimes, todo a la vez.
  c) El que no sabe lo que quiere ni se molesta en averiguarlo. Imita los quereres de sus vecinos o les lleva la contraria porque sí, todo lo que hace está dictado por la opinión mayoritaria de los que le rodean: es conformista sin reflexión o rebelde sin causa.
  d) El que sabe que quiere y sabe lo que quiere y, más o menos, sabe por qué lo quiere pero lo quiere flojito, con miedo o con poca fuerza. A fin de cuentas, termina siempre haciendo lo que no quiere y dejando lo que quiere para mañana, a ver si entonces se encuentra más entonado.
  e) El que quiere con fuerza y ferocidad, en plan bárbaro, pero se ha engañado a sí mismo sobre lo que es la realidad, se despista enormemente y termina confundiendo la buena vida con aquello que va a hacerle polvo.

(...)
Siento decirte que los imbéciles suelen acabar bastante mal, crea lo que crea la opinión vulgar. Cuando digo que «acaban mal» no me refiero a que terminen en la cárcel o fulminados por un rayo (eso sólo suele pasar en las películas), sino que te aviso de que suelen fastidiarse a sí mismos y nunca logran vivir la buena vida esa que tanto nos apetece a ti y a mí.
Y todavía siento más tener que informarte que síntomas de imbecilidad solemos tener casi todos; vamos, por lo menos yo me los encuentro un día sí y otro también, ojalá a ti te vaya mejor en el intento... Conclusión: ¡alerta! ¡en guardia!, ¡la imbecilidad acecha y no perdona!


Fernando Savater, Ética para Amador, p.22

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Pensa-se por sobre o impensável. O impensável é o que faz que o pensamento pense, identificando-se com ele como a pele com o corpo - porque ela é esse corpo e está fora dele como limite.

Vergílio Ferreira, Pensar, ao fim de um longo mas produtivo dia.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Esse ritmo das ninfas repetido


O ritmo antigo que há em pés descalços,
Esse ritmo das ninfas repetido,
Quando sob o arvoredo
Batem o som da dança,
Vós na alva praia relembrai, fazendo,

Que 'scura a 'spuma deixa; vós, infantes,
Que inda não tendes cura
De ter cura, responde
Ruidosa a roda, enquanto arqueia Apolo
Como um ramo alto, a curva azul que doura,
E a perene maré
Flui, enchente ou vazante.


Ricardo Reis, Odes

tacteias a pedra até ser flor

Sinais de Fogo
Sinais de fogo, os homens se despedem
exaustos e tranquilos, destas cinzas frias.
E o vento que essas cinzas nos dispersa
não é de nós, mas é de quem reacende
outros sinais ardendo na distância,
um breve instante, gestos e palavras,
ansiosas brasas que se apagam logo.

(Jorge de Sena, Sinais de Fogo, in Visão Perpétua, 1967)
 



Promessa de uma noite

cruzo as mãos
sobre as montanhas
um rio esvai-se
ao fogo do gesto
que inflamo

a lua eleva-se
na tua fronte
enquanto tacteias a pedra
até ser flor



(Mia Couto, in "Raíz de orvalho e outros poemas", Caminho, 2009) 

http://www.facebook.com/media/set/?set=a.205848176126938.58438.100001052726269#!/photo.php?fbid=207441589291613&set=a.114014221967684.7650.112890882080018&type=1&theater

sábado, 4 de junho de 2011

O que é difícil é acontecer aí o Sol

Não sonhes a eternidade, que os deuses aposentaram-se e já não a fabricam. Mas porque a não fabricas tu, se soubeste fabricar quem a fabricava? Está aí à tua mão, aproveita-a. Está aí numa música, num quadro, num poema. E se te é trabalhoso ter olhos e ouvidos, porque não experimentas tentá-la no que passou e onde nunca falha? Está lá, na sua fixação para sempre.

Vergílio Ferreira, Pensar, 63 e 464.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

"O acto de ler reabre feridas. No livros
em que isso acontece, com frequência,
poderia ao menos haver um aviso na capa;
assim como se faz com a carteira de tabaco,
embora se saiba que poucos deixam
de fumar
por isso"

Teresa Jardim, "Acto de ler", Resumo - a poesia de 2010, in Ler,  Maio 2011