terça-feira, 28 de junho de 2011

as in life, so in art

Great writers are either husbands or lovers. Some writers supply the solid virtues of a husband: reliability, intelligibility, generosity, decency. There are other writers in whom one prizes the gifts of a lover, gifts of temperament rather than of moral goodness. Notoriously, women tolerate qualities in a lover - moodiness, selfishness, unreliability, brutality - that they would never countenance in a husband, in return for excitement, an infusion of intense feeling. In the same way, readers put up with unintelligibility, obsessiveness, painful truths, lies, bad grammar - if, in compensation, the writer allows them to savor rare emotions and dangerous sensations. And, as in life, so in art both are necessary, husbands and lovers. It's a great pity when one is forced to choose between them.

Susan Sontag, "Camus' Notebooks", in Against the Interpretation and other essays.

sábado, 25 de junho de 2011

À cautela, não levo esferográfica.


"Granito? Não obrigado."
Se há sítio no mundo aonde tenha medo de ir parar, tombar, ser ambulanciado, é esse o banco do Hospital S.José, em Lisboa.
Quantas e quantas vezes, crises asmáticas agudas, cardiopatias até imaginárias, ansiedades súbitas ou mesmo uns copitos a mais, a muito mais que a conta do meu aguentar, fui a correr, meti-me num táxi e recomendei pressa, carro amigo me levou, chegado ao banco me deixei ficar na sala de espera, balançando entre a aflição e o meu pavor do guiché. Até que coisa passe e me ponha a pirar, porreiríssimo. 
Azar. Há dias enfiei resoluto…eram 7h20. Asma. Uma noire de respirar-não respirar, vá de bomba azul, vá de castanha, um calmante, logo café forte abrir a clarabóia para oxigenar, abanicar-me com um jornal dobrado…
Desta, porém, não. Aguardava-me um implacável homem de bata branca; direi um dr. propedêutico ou periférico, em fim de turno, chateadíssimo de aturar mazelas alheias.
Dr., por favor, venha a terapêutica habitual e piro-me já!
Não era assim tão fácil. Estava perante um fulano opinioso e teimoso, como tive depois o desprazer de verificar.
Pergunta seca: “O senhor trabalha com granito?” Olhei-o. Ele tinha a papeleta de inscrição na mão, diante do nariz. Lá vinha (…) Português, Escritor, 56 anos de idade. Naturalmente, sem acrimónia, respondi: “Geralmente é com esferográfica… granito, não, obrigado!” E fiz questão de espetar o dedo nas indicações da papeleta. Reagiu, áspero: “A minha pergunta não era destituída de lógica. Há escritores que carregam com pesos maiores.” Boa! Nunca tal vira nem o soubera. Mestre Vergílio Ferreira nunca refere, no seu (dele) “Livro Escuro” que é a Conta-Corrente, andar a carregar pianos sextos andares escusos. O meu Presidente da APE, Dr. Urbano Tavares Rodrigues, não me consta que pratique matinalmente o exercício de descarregar a saca-de-orelhas com batatas para o mercado da Ribeira.
LÓGICA?: Nem por isso. Nadinha. Mas aquilo que pensa um asmático, em ânsias de dispneia, não chega ao acontecimento oral audível. Mia, logo existe.
Sou o eterno convalescente, percebe-se. Ó asmáticos sexagenários!, ouvide, ouvide, dai-me razões de apoio (…) Percorri desde o Verão de 1925, toda a evolução da terapêutica anti-asmática (…) testes, para determinar as causas próximas, imediatas da minha alergia. (…) se vejo uma vassoura, fico sufocado -, certos cheiros, tintas. E toda e qualquer espécie de poluição, incluindo a mental, dita Estupidez.
(…) Por esse tempo, oito e picos, o movimento do banco começa a acelerar.. Pares de bombeiros-maqueiros despejam a sua colheita de estropiados, gritantes moribundos. Muito distractivo. A nossa defesa é um esforço de desumanização: não se meter na dor alheia, no seu conhecimento, deixar andar. Morra quem viveu, salve-me eu. Tronco disponível e quase despido para novas deduções do propedêutico, que passava por mim a, possivelmente, avaliar quantos gramas de granito eu podia elevar…
Foi quando, eram 9h45, me levantei do meu canto, e me dirigi a uma dr.ª mais atenciosa… “Sr.ª dr.ª, qual é, afinal, o MEU problema? Ou qual é o VOSSO?” (…)
Se aquela alma propedêutica que me atribuía forças atléticas para lidar com granito como se fosse algodão, viesse dar-me, certa e garantida, a novidade que o meu enfisema era mera fantasia, este vosso doentinho rejuvenescia (…)
O dr. propedêutico fora dormir. Informei-me do nome. Vou socorrer-me dele (…) pagando-lhe e bem no seu consultório. À cautela, não levo esferográfica. Mas uma moca (…) Sei como a consulta termina, quando ele me apresentar a factura.

José Luiz Pacheco, Revista 365, nº30, 2003, pp.57-61

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Je laisse aller, me laisse inhaler, mon opium

    

"Por isso eu tomo ópio. É um remédio 
Sou um convalescente do Momento.   
Moro no rés-do-chão do pensamento   
E ver passar a Vida faz-me tédio."

Álvaro de Campos, Opiário

Há quem diga



Les Chats Dansantes, de Nuno Almeida, Projecto Cellophane, no Festival Silêncio.

http://www.festivalsilencio.com/filmagem.php?id=24


On fait pas des rêves par des silences


Há quem diga que voamos nas asas
de abelhas-mestras, de flor em flor,
a preparar milagres de espasmos

domingo, 19 de junho de 2011



Não mais! Não mais! Que eu esqueça que te tive,
e tu me esqueças debruçado em ti!
Que tudo seja como outrora eu vi:
uma figura ao longe recortada,

e fina e esbelta, ou suave e alongada,
não tão distante que me não entendas,
nem tão perto de mim que tu me vendas,
no mesmo corpo belo, o que não vive

nesse teu rosto ou sob a pele:
uma malícia esplêndida, capaz
de se entregar violenta quando a impele,

sem mais que orgulho, a força juvenil.
Assim será que, em mim, teu corpo jaz.
E sem nos lábios o sorriso vil.

Mas como há-de teu corpo em mim ter paz?

Jorge de Sena, III, Sete sonetos da visão perpétua

sexta-feira, 17 de junho de 2011

"Sim senhores, que lindo luar o desta noite.
De manhã, ainda não nascera o sol, levantaram-se. Blimunda já comeu o pão. Dobrou a manta, era apenas uma mulher repetindo um gesto antigo, abrindo e fechando os braços, segurando debaixo do queixo as dobras feitas, depois descendo as mãos até ao centro do seu próprio corpo e aí fazendo a dobra final, quem para ela olhasse não diria que tem estranhos poderes de ver"

José Saramago, Memorial do Convento.
(veio-me à mente esta imagem a noite passada, a dobrar mantos cor de sangue num telhado da cidade, sob as estrelas e o luar âmbar, ainda que ligeiramente encoberto sob uma película nublada)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Reflexos



Mário Cesariny

O navio de espelhos
não navega cavalga
Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível
Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos
Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele
Os armadores não amam
a sua rota clara
(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)
Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga
O seu porão traz nada
nada leva à partida
Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta
(E no mastro espelhado
uma espécie de porta)
Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto
A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto
Quando um se revolta
há dez mil insurrectos
(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)
E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escuta o mar do fundo
Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)
Do princípio do mundo
até ao fim do mundo