quinta-feira, 30 de junho de 2011

sempre, sempre mar endins

EXCELSIOR

Vigila, esperit, vigila,
no perdis mai el teu nord,
no et deixis du´ a la tranquila
aigua mansa de cap port.

Gira, gira el ulls enlaire,
no miris les platges roïns,
dóna el front an el gran aire,
sempre, sempre mar endins.

Sempre amb les veles suspeses
del cel al mar transparent,
sempre entorn aigües esteses
que es moguin eternament.

Fuig-ne, de la terra innoble,
fuig dels horitzons mesquins:
sempre al mar, al gran mar noble;
sempre, sempre mar endins.

Fora terres, fora platja,
oblida't de tot regrés:
no s'acaba el teu viatge,
no s'acabarà mai més...

Excelsior, Joan Maragall, poeta catalão (1860-1911)

http://youtu.be/GrPB7m3bjC0

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Yo no busco, yo encuentro.

Museu Pablo Picasso, Barcelona

"Quiero decir el desnudo. No quiero hacer un desnudo como un desnudo. Quiero no solamente decir, sino decir pie, decir mano, decir vientre,... una sola palabra basta cuando se habla de estas cosas". Un pintor con nostalgia del significante, un pintor con una concepción del cuerpo que va de la palabra al goce. Podría decirse que Picasso pensaba dibujando, que su mano era una extensión de su mente, siempre en efervescente búsqueda creativa, en constante trasformación. Son ciento setenta y cinco pequeños cuadernos de dibujo los que se conservan realizados entre 1894 y 1967. http://sites.google.com/site/arteprocomun/picasso-el-desnudo-dibujado-sobre-cobre-y-piedra-
  
    

 

 

terça-feira, 28 de junho de 2011

as in life, so in art

Great writers are either husbands or lovers. Some writers supply the solid virtues of a husband: reliability, intelligibility, generosity, decency. There are other writers in whom one prizes the gifts of a lover, gifts of temperament rather than of moral goodness. Notoriously, women tolerate qualities in a lover - moodiness, selfishness, unreliability, brutality - that they would never countenance in a husband, in return for excitement, an infusion of intense feeling. In the same way, readers put up with unintelligibility, obsessiveness, painful truths, lies, bad grammar - if, in compensation, the writer allows them to savor rare emotions and dangerous sensations. And, as in life, so in art both are necessary, husbands and lovers. It's a great pity when one is forced to choose between them.

Susan Sontag, "Camus' Notebooks", in Against the Interpretation and other essays.

sábado, 25 de junho de 2011

À cautela, não levo esferográfica.


"Granito? Não obrigado."
Se há sítio no mundo aonde tenha medo de ir parar, tombar, ser ambulanciado, é esse o banco do Hospital S.José, em Lisboa.
Quantas e quantas vezes, crises asmáticas agudas, cardiopatias até imaginárias, ansiedades súbitas ou mesmo uns copitos a mais, a muito mais que a conta do meu aguentar, fui a correr, meti-me num táxi e recomendei pressa, carro amigo me levou, chegado ao banco me deixei ficar na sala de espera, balançando entre a aflição e o meu pavor do guiché. Até que coisa passe e me ponha a pirar, porreiríssimo. 
Azar. Há dias enfiei resoluto…eram 7h20. Asma. Uma noire de respirar-não respirar, vá de bomba azul, vá de castanha, um calmante, logo café forte abrir a clarabóia para oxigenar, abanicar-me com um jornal dobrado…
Desta, porém, não. Aguardava-me um implacável homem de bata branca; direi um dr. propedêutico ou periférico, em fim de turno, chateadíssimo de aturar mazelas alheias.
Dr., por favor, venha a terapêutica habitual e piro-me já!
Não era assim tão fácil. Estava perante um fulano opinioso e teimoso, como tive depois o desprazer de verificar.
Pergunta seca: “O senhor trabalha com granito?” Olhei-o. Ele tinha a papeleta de inscrição na mão, diante do nariz. Lá vinha (…) Português, Escritor, 56 anos de idade. Naturalmente, sem acrimónia, respondi: “Geralmente é com esferográfica… granito, não, obrigado!” E fiz questão de espetar o dedo nas indicações da papeleta. Reagiu, áspero: “A minha pergunta não era destituída de lógica. Há escritores que carregam com pesos maiores.” Boa! Nunca tal vira nem o soubera. Mestre Vergílio Ferreira nunca refere, no seu (dele) “Livro Escuro” que é a Conta-Corrente, andar a carregar pianos sextos andares escusos. O meu Presidente da APE, Dr. Urbano Tavares Rodrigues, não me consta que pratique matinalmente o exercício de descarregar a saca-de-orelhas com batatas para o mercado da Ribeira.
LÓGICA?: Nem por isso. Nadinha. Mas aquilo que pensa um asmático, em ânsias de dispneia, não chega ao acontecimento oral audível. Mia, logo existe.
Sou o eterno convalescente, percebe-se. Ó asmáticos sexagenários!, ouvide, ouvide, dai-me razões de apoio (…) Percorri desde o Verão de 1925, toda a evolução da terapêutica anti-asmática (…) testes, para determinar as causas próximas, imediatas da minha alergia. (…) se vejo uma vassoura, fico sufocado -, certos cheiros, tintas. E toda e qualquer espécie de poluição, incluindo a mental, dita Estupidez.
(…) Por esse tempo, oito e picos, o movimento do banco começa a acelerar.. Pares de bombeiros-maqueiros despejam a sua colheita de estropiados, gritantes moribundos. Muito distractivo. A nossa defesa é um esforço de desumanização: não se meter na dor alheia, no seu conhecimento, deixar andar. Morra quem viveu, salve-me eu. Tronco disponível e quase despido para novas deduções do propedêutico, que passava por mim a, possivelmente, avaliar quantos gramas de granito eu podia elevar…
Foi quando, eram 9h45, me levantei do meu canto, e me dirigi a uma dr.ª mais atenciosa… “Sr.ª dr.ª, qual é, afinal, o MEU problema? Ou qual é o VOSSO?” (…)
Se aquela alma propedêutica que me atribuía forças atléticas para lidar com granito como se fosse algodão, viesse dar-me, certa e garantida, a novidade que o meu enfisema era mera fantasia, este vosso doentinho rejuvenescia (…)
O dr. propedêutico fora dormir. Informei-me do nome. Vou socorrer-me dele (…) pagando-lhe e bem no seu consultório. À cautela, não levo esferográfica. Mas uma moca (…) Sei como a consulta termina, quando ele me apresentar a factura.

José Luiz Pacheco, Revista 365, nº30, 2003, pp.57-61

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Je laisse aller, me laisse inhaler, mon opium

    

"Por isso eu tomo ópio. É um remédio 
Sou um convalescente do Momento.   
Moro no rés-do-chão do pensamento   
E ver passar a Vida faz-me tédio."

Álvaro de Campos, Opiário

Há quem diga



Les Chats Dansantes, de Nuno Almeida, Projecto Cellophane, no Festival Silêncio.

http://www.festivalsilencio.com/filmagem.php?id=24


On fait pas des rêves par des silences


Há quem diga que voamos nas asas
de abelhas-mestras, de flor em flor,
a preparar milagres de espasmos

domingo, 19 de junho de 2011



Não mais! Não mais! Que eu esqueça que te tive,
e tu me esqueças debruçado em ti!
Que tudo seja como outrora eu vi:
uma figura ao longe recortada,

e fina e esbelta, ou suave e alongada,
não tão distante que me não entendas,
nem tão perto de mim que tu me vendas,
no mesmo corpo belo, o que não vive

nesse teu rosto ou sob a pele:
uma malícia esplêndida, capaz
de se entregar violenta quando a impele,

sem mais que orgulho, a força juvenil.
Assim será que, em mim, teu corpo jaz.
E sem nos lábios o sorriso vil.

Mas como há-de teu corpo em mim ter paz?

Jorge de Sena, III, Sete sonetos da visão perpétua