"Granito? Não obrigado."
Se há sítio no mundo aonde tenha medo de ir parar, tombar, ser ambulanciado, é esse o banco do Hospital S.José, em Lisboa.
Quantas e quantas vezes, crises asmáticas agudas, cardiopatias até imaginárias, ansiedades súbitas ou mesmo uns copitos a mais, a muito mais que a conta do meu aguentar, fui a correr, meti-me num táxi e recomendei pressa, carro amigo me levou, chegado ao banco me deixei ficar na sala de espera, balançando entre a aflição e o meu pavor do guiché. Até que coisa passe e me ponha a pirar, porreiríssimo.
Azar. Há dias enfiei resoluto…eram 7h20. Asma. Uma noire de respirar-não respirar, vá de bomba azul, vá de castanha, um calmante, logo café forte abrir a clarabóia para oxigenar, abanicar-me com um jornal dobrado…
Desta, porém, não. Aguardava-me um implacável homem de bata branca; direi um dr. propedêutico ou periférico, em fim de turno, chateadíssimo de aturar mazelas alheias.
Dr., por favor, venha a terapêutica habitual e piro-me já!
Não era assim tão fácil. Estava perante um fulano opinioso e teimoso, como tive depois o desprazer de verificar.
Pergunta seca: “O senhor trabalha com granito?” Olhei-o. Ele tinha a papeleta de inscrição na mão, diante do nariz. Lá vinha (…) Português, Escritor, 56 anos de idade. Naturalmente, sem acrimónia, respondi: “Geralmente é com esferográfica… granito, não, obrigado!” E fiz questão de espetar o dedo nas indicações da papeleta. Reagiu, áspero: “A minha pergunta não era destituída de lógica. Há escritores que carregam com pesos maiores.” Boa! Nunca tal vira nem o soubera. Mestre Vergílio Ferreira nunca refere, no seu (dele) “Livro Escuro” que é a Conta-Corrente, andar a carregar pianos sextos andares escusos. O meu Presidente da APE, Dr. Urbano Tavares Rodrigues, não me consta que pratique matinalmente o exercício de descarregar a saca-de-orelhas com batatas para o mercado da Ribeira.
LÓGICA?: Nem por isso. Nadinha. Mas aquilo que pensa um asmático, em ânsias de dispneia, não chega ao acontecimento oral audível. Mia, logo existe.
Sou o eterno convalescente, percebe-se. Ó asmáticos sexagenários!, ouvide, ouvide, dai-me razões de apoio (…) Percorri desde o Verão de 1925, toda a evolução da terapêutica anti-asmática (…) testes, para determinar as causas próximas, imediatas da minha alergia. (…) se vejo uma vassoura, fico sufocado -, certos cheiros, tintas. E toda e qualquer espécie de poluição, incluindo a mental, dita Estupidez.
(…) Por esse tempo, oito e picos, o movimento do banco começa a acelerar.. Pares de bombeiros-maqueiros despejam a sua colheita de estropiados, gritantes moribundos. Muito distractivo. A nossa defesa é um esforço de desumanização: não se meter na dor alheia, no seu conhecimento, deixar andar. Morra quem viveu, salve-me eu. Tronco disponível e quase despido para novas deduções do propedêutico, que passava por mim a, possivelmente, avaliar quantos gramas de granito eu podia elevar…
Foi quando, eram 9h45, me levantei do meu canto, e me dirigi a uma dr.ª mais atenciosa… “Sr.ª dr.ª, qual é, afinal, o MEU problema? Ou qual é o VOSSO?” (…)
Se aquela alma propedêutica que me atribuía forças atléticas para lidar com granito como se fosse algodão, viesse dar-me, certa e garantida, a novidade que o meu enfisema era mera fantasia, este vosso doentinho rejuvenescia (…)
O dr. propedêutico fora dormir. Informei-me do nome. Vou socorrer-me dele (…) pagando-lhe e bem no seu consultório. À cautela, não levo esferográfica. Mas uma moca (…) Sei como a consulta termina, quando ele me apresentar a factura.
José Luiz Pacheco, Revista 365, nº30, 2003, pp.57-61