segunda-feira, 18 de julho de 2011

eu não construo conceitos de um discurso rigoroso e exacto

Texto de António Ramos Rosa
 
"Poema que dedico à leitura do desenho de Manuela Justino:

Toda tu és o olhar do teu corpo
e esse olhar ouve saboreia toca
e quando desenhas uma mancha no papel como uma nuvem esfarrapada
é porque a tua visão tem a luz da sombra mais vidente
que dir-se-ia que vê com as pálpebras no mar nocturno de um deserto obscuro
e reúnes a sombra e a claridade como se imergisse do ouvido
Tu danças em torno de cinzas que bailam com a vertigem de uma sensação
mas também visão funda de uma água intempestiva
Tu ofereces-nos a forma mais intensa e obscura porque é a da matéria viva
És solidária da vida nascente porque te levantas no seio da ruptura
Mas eu que te digo estas palavras fascinadas quem sou eu?
Apenas uma estilha de vida no teu caminho
e tu um elemento que inunda e frutifica
Mas de algum modo tu pintas e eu escrevo sobre ti é porque há uma relação
talvez um pouco errática mas solidária e produtiva
Se te descrevo talvez com audaciosa paixão é porque
não podendo ser quem sou sou aquilo que escrevo
e sou também o que ama e tem o desejo de penetrar na obscuridade
onde aprendeste a ver o negro no negro
Tu não és tanto o dia que multiplica os espelhos como a noite que se vai abolindo
Se te escrevo com alguma justeza ou algum fulgor sombrio
é porque vejo com o sono que é a minha face feminina
e para te dizer talvez o mais importante
eu não construo conceitos de um discurso rigoroso e exacto
mas escrevo porque para mim a nudez seduz-me e no conhecimento
com o avesso de tudo como o ar é o avesso de uma asa."



http://manuelajustino.blogspot.com/2008_03_01_archive.html

domingo, 17 de julho de 2011

São talvez enigmas com outro significado

Muitas vezes os livros falam de outros livros. Muitas vezes um livro inócuo é como uma semente, que florescerá num livro perigoso, ou inversamente, é o fruto doce de uma raíz amarga. (...)

Até então tinha pensado que cada livro falava das coisas, humanas ou divinas, que estão fora dos livros. Agora apercebia-me que, não raro, os livros falam dos livros, ou melhor, é como se falassem entre si. À luz desta reflexão, a biblioteca pareceu-me meis inquietante. Era portanto o lugar de um longo e secular sussurro, de um diálogo imperceptível entre pergaminhos e pergaminhos, uma coisa viva, um receptáculo de poderes que uma mente humana não podia dominar, tesouro de segredos emanados de tantas mentes, e sobrevivendo à morte daqueles que os tinham produzido ou deles se tinham feito mensageiros.

O nome da Rosa, Umberto Eco (finalmente a lê-lo)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Viver é isto, quando se é só vida.

Ser

Cansada expectativa tão ansiosa
que ser só eu na minha vida espalha!
Na longa noite em que se tece a malha
do que não serei nunca, fervorosa

minha presença rútila e curiosa
arde sombria como um arder de palha,
curiosa apenas de saber se goza
o voar das cinzas quando o vento calha

lá onde o levantá-las é verdade.
Inutilmente se mistura tudo,
que a mesma ansiedade, já esquecida,

de novo recomeça. Mas quem há-de
contrariá-la? Eu não, que não me iludo:
Viver é isto, quando se é só vida.

Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'

quarta-feira, 6 de julho de 2011

As três bailarinas de Picasso

Leve como a pluma
Gestos de bailarina
Aquece-se a atleta matutina
Moldada mulher, no ventre da densa neblina

Revelada a obra prima
Em carne e osso esculpida
Traspassa o ar a rosa tatuada
A correr, mais veloz do que a vida

E, do chão que ela pisa
Brotam versos de perfeita rima
Onde poetas bebem vocábulos
Como água de fonte cristalina

por João Luis Calliari



http://www.terminartors.com/files/artworks/1/9/9/19966/Picasso_Pablo-Three_Dancers.jpg

terça-feira, 5 de julho de 2011

Não mais, silêncio, não mais

Dois poemas de O'Neill

FALA

Fala a sério, fala no gozo
Fá-la pela calada e fala claro,
Fala deveras saboroso
Fala barato e fala claro,
Fala ao ouvido e fala ao coração
falinhas mansas ou palavrão.
Fala à miúda, mas fala bem.
Fala ao teu Pai mas ouve tua Mãe.

Fala françês, fala béubéu,
fala fininho e fala grosso.
Desentulha a garganta, levanta o pescoço.

Fala como se falar fosse andar,
fala com elegância, muito, e, devagar!


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A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

sempre, sempre mar endins

EXCELSIOR

Vigila, esperit, vigila,
no perdis mai el teu nord,
no et deixis du´ a la tranquila
aigua mansa de cap port.

Gira, gira el ulls enlaire,
no miris les platges roïns,
dóna el front an el gran aire,
sempre, sempre mar endins.

Sempre amb les veles suspeses
del cel al mar transparent,
sempre entorn aigües esteses
que es moguin eternament.

Fuig-ne, de la terra innoble,
fuig dels horitzons mesquins:
sempre al mar, al gran mar noble;
sempre, sempre mar endins.

Fora terres, fora platja,
oblida't de tot regrés:
no s'acaba el teu viatge,
no s'acabarà mai més...

Excelsior, Joan Maragall, poeta catalão (1860-1911)

http://youtu.be/GrPB7m3bjC0

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Yo no busco, yo encuentro.

Museu Pablo Picasso, Barcelona

"Quiero decir el desnudo. No quiero hacer un desnudo como un desnudo. Quiero no solamente decir, sino decir pie, decir mano, decir vientre,... una sola palabra basta cuando se habla de estas cosas". Un pintor con nostalgia del significante, un pintor con una concepción del cuerpo que va de la palabra al goce. Podría decirse que Picasso pensaba dibujando, que su mano era una extensión de su mente, siempre en efervescente búsqueda creativa, en constante trasformación. Son ciento setenta y cinco pequeños cuadernos de dibujo los que se conservan realizados entre 1894 y 1967. http://sites.google.com/site/arteprocomun/picasso-el-desnudo-dibujado-sobre-cobre-y-piedra-