Restituir-me por inteiro é dar-me até ao fim.
No jardim barroco, tanques e repuxos gelaram
durante a noite, mas os limoeiros estão intactos
contra os muros caiados de branco.
O gelo no chão não tocou as flores de laranjeira:
este Dezembro, as fontes geladas e as flores
partilham a manhã em conciliada coexistência;
ao meio-dia o termómetro continua abaixo de zero,
mas as árvores meridionais frutificam.
Assim dar-me por inteiro não me isenta de mim,
do mesmo modo que na manhã de Dezembro
a fonte gelada não impede a laranjeira de florir.
Frederico Lourenço, Santo Asinha e outros poemas, Editorial Caminho, 2010, p.13
"Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve", Vergílio Ferreira, Escrever
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Tempo e tranquilidade: "multiplicação de nós mesmos que é a felicidade"
"Se pensássemos que os olhos de uma rapariga como aquela não passam de uma brilhante rodela de mica, não ficaríamos ávidos de conhecer a sua vida e de a ligar a nós. Mas sentimos que o que brilha naquele disco reflector não se deve unicamente à sua composição material; que são as negras sombras, que nos são desconhecidas, das ideias que essa criatura concebe relativamente às pessoas e aos lugares que conhece - relvados dos hipódromos, areia dos caminhos para onde, pedalando por campos e bosques, me teria arrastado essa pequena feiticeira, mais sedutora para mim que o peri do paraíso persa -, e também as sombras da casa onde vai entrar, dos projectos que constrói ou construíram para ela; e sobretudo que é ela, com os seus desejos, as suas simpatias, as suas repulsas, a sua obscura e incessante vontade"
Marcel Proust, À sombra das raparigas em flor
Marcel Proust, À sombra das raparigas em flor
terça-feira, 26 de julho de 2011
Psicossomáticos
Poetic language can compel the reader to co-operate physically:
"...each line is like a dancer who, if you are going to read the line at all, forces you to be a partner and dance... You can pronounce the line as silently as you like, but that launching of the inner self into full kinaesthetic participation is, so to speak, compulsory."
Stephe Harrop, "Physical Performance and the Language of Translation, in Theorising Performance, Greek Drama, Cultural History and Critical Practice, p.238.
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Por enquanto há a eternidade de um relógio sem ponteiros.
De nós à vida há um vidro muito puro, muito límpido e o corpo é o vidro. Vai levar tempo que ele rache e crie lixo para existir, mas por enquanto não. Por enquanto é só a necessidade e a evidência de existir como os deuses e as pedras, antes de as racharem para calcetarem as ruas. Por enquanto há o milagre sem milagre nenhum.
Por enquanto há a eternidade de um relógio sem ponteiros.
Vergílio Ferreira, Em nome da terra
Por enquanto há a eternidade de um relógio sem ponteiros.
Vergílio Ferreira, Em nome da terra
mensagem: esperar.
Não me saem da mente estes versos de Fernando Pessoa.
Mas será? Não olhar a meios para atingir os fins? Perceber o que se quer? E se nunca chegarmos a perceber?
Ponto de interrogação (arriscamos?) ou ponto de exclamação (arriscamos!) ?
Arrisquemos...
Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Mensagem, Fernando Pessoa
Mas será? Não olhar a meios para atingir os fins? Perceber o que se quer? E se nunca chegarmos a perceber?
Ponto de interrogação (arriscamos?) ou ponto de exclamação (arriscamos!) ?
Arrisquemos...
Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Mensagem, Fernando Pessoa
terça-feira, 19 de julho de 2011
Com as metáforas não se brinca (?)
Nunca se pode saber o que se deve querer porque só se tem uma vida que não pode ser comparada com vidas anteriores nem rectificada em vidas posteriores.
(...)
Não há forma nenhuma de se verificar qual das decisões é melhor porque não há comparação possível. Tudo se vive imediatamente pela primeira vez sem preparação. Como se um actor entrasse em cena sem nunca ter ensaiado.
Mas o que vale a vida se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É o que faz com que a vida pareça sempre um esquisso. Mas nem mesmo "esquisso" é a palavra certa, porque um esquisso é sempre o esboço de alguma coisa, a preparação de um quadro, enquanto o esquisso que a nossa vida é, não é esquisso de nada, é um esboço sem quadro.
O amor não se manifesta através do desejo de fazer amor ... mas através do desejo de partilhar o sono.
Enquanto as pessoas são novas e as partituras musicais das suas vidas ainda só vão nos primeiros compassos, podem compô-las em conjunto e até trocarem temas.
Com as metáforas não se brinca. O amor pode nascer de uma única metáfora.
Milan Kundera, A insustentável leveza do ser
(...)
Não há forma nenhuma de se verificar qual das decisões é melhor porque não há comparação possível. Tudo se vive imediatamente pela primeira vez sem preparação. Como se um actor entrasse em cena sem nunca ter ensaiado.
Mas o que vale a vida se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É o que faz com que a vida pareça sempre um esquisso. Mas nem mesmo "esquisso" é a palavra certa, porque um esquisso é sempre o esboço de alguma coisa, a preparação de um quadro, enquanto o esquisso que a nossa vida é, não é esquisso de nada, é um esboço sem quadro.
O amor não se manifesta através do desejo de fazer amor ... mas através do desejo de partilhar o sono.
Enquanto as pessoas são novas e as partituras musicais das suas vidas ainda só vão nos primeiros compassos, podem compô-las em conjunto e até trocarem temas.
Com as metáforas não se brinca. O amor pode nascer de uma única metáfora.
Milan Kundera, A insustentável leveza do ser
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