sábado, 6 de agosto de 2011

E eu sei dar por isso muito bem...

Felgar, fotografia minha (Agosto 2011)


O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas 
Olhando para a direita e para a esquerda, 
E de vez em quando olhando para trás... 
E o que vejo a cada momento 
É aquilo que nunca antes eu tinha visto, 
E eu sei dar por isso muito bem... 
Sei ter o pasmo essencial 
Que tem uma criança se, ao nascer, 
Reparasse que nascera deveras... 
Sinto-me nascido a cada momento 
Para a eterna novidade do Mundo... 
Creio no mundo como num malmequer, 
Porque o vejo. 
Mas não penso nele 
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar... 

Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos", 8-3-1914

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Um pouco isso, um nada disso

Dorme. Está uma noite sufocante. Para lá das janelas, por sobre os telhados em frente, um aceno invisível. Para lá de ti, o inqualificável de tu seres, o absurdo indecifrável da tua presença. Um pouco isso, um nada disso. Eu digo o teu mistério e tudo fica por dizer porque o aniquilei com dizer. A tua pessoa, a transfiguração de ti na memória incerta. Reconheço-te, não te sei dizer, que é que de mim reconheces para um encontro plausível? (...)
O incorruptível, não do teu corpo, mas do teu ser. A perfeição, não da tua harmonia, mas da necessidade de existir. A tua essência, poderei dizê-lo? a tua divindade antes de haver deuses, uma coisa assim. E eu ir ter contigo e sermos uma iluminação. Uma chama pura. O sopro do universo, não sei. O começo, a origem de nós mesmos, a nossa ascensão. Quero estar contigo sem nada de permeio que nos divida e nos identifique em separação. Estar contigo no absoluto de nós.
A essência de nós e uma incerta alegria de uma estrela nos reconhecer. O fulgor de sermos e os astros estarem de acordo. E os deuses que ainda não nasceram, e são puros de um início que não tiveram.

Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Giving is not to nullify

Restituir-me por inteiro é dar-me até ao fim.
No jardim barroco, tanques e repuxos gelaram
durante a noite, mas os limoeiros estão intactos
contra os muros caiados de branco.
O gelo no chão não tocou as flores de laranjeira:
este Dezembro, as fontes geladas e as flores
partilham a manhã em conciliada coexistência;
ao meio-dia o termómetro continua abaixo de zero,
mas as árvores meridionais frutificam.
Assim dar-me por inteiro não me isenta de mim,
do mesmo modo que na manhã de Dezembro
a fonte gelada não impede a laranjeira de florir.

Frederico Lourenço, Santo Asinha e outros poemas, Editorial Caminho, 2010, p.13

Tempo e tranquilidade: "multiplicação de nós mesmos que é a felicidade"

"Se pensássemos que os olhos de uma rapariga como aquela não passam de uma brilhante rodela de mica, não ficaríamos ávidos de conhecer a sua vida e de a ligar a nós. Mas sentimos que o que brilha naquele disco reflector não se deve unicamente à sua composição material; que são as negras sombras, que nos são desconhecidas, das ideias que essa criatura concebe relativamente às pessoas e aos lugares que conhece - relvados dos hipódromos, areia dos caminhos para onde, pedalando por campos e bosques, me teria arrastado essa pequena feiticeira, mais sedutora para mim que o peri do paraíso persa -, e também as sombras da casa onde vai entrar, dos projectos que constrói ou construíram para ela; e sobretudo que é ela, com os seus desejos, as suas simpatias, as suas repulsas, a sua obscura e incessante vontade"

Marcel Proust, À sombra das raparigas em flor

terça-feira, 26 de julho de 2011

Psicossomáticos

Poetic language can compel the reader to co-operate physically:




"...each line is like a dancer who, if you are going to read the line at all, forces you to be a partner and dance... You can pronounce the line as silently as you like, but that launching of the inner self into full kinaesthetic participation is, so to speak, compulsory."
Stephe Harrop, "Physical Performance and the Language of Translation, in Theorising Performance, Greek Drama, Cultural History and Critical Practice, p.238.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Por enquanto há a eternidade de um relógio sem ponteiros.

De nós à vida há um vidro muito puro, muito límpido e o corpo é o vidro. Vai levar tempo que ele rache e crie lixo para existir, mas por enquanto não. Por enquanto é só a necessidade e a evidência de existir como os deuses e as pedras, antes de as racharem para calcetarem as ruas. Por enquanto há o milagre sem milagre nenhum.
Por enquanto há a eternidade de um relógio sem ponteiros.

Vergílio Ferreira, Em nome da terra
"Só de olhos vendados se chega ao segredo, disse sorrindo, e o músico respondeu, em tom igual, Quantas vezes assim mesmo se volta dele".

José Saramago, Memorial do Convento