"- ¿Creés en Diós?"
" - Creo en el río que va y viene, se expande, navega hacia el mar y uno va tierra adentro. A mí me commueve eso. Todos esos pensamientos, ese mundo de la naturaleza me inspira mucho"
Entrevista a la cantora Liliana Herrero, "Música del Alma", Revista Cielos Argentinos, no avião, Agosto 2011.
"Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve", Vergílio Ferreira, Escrever
terça-feira, 23 de agosto de 2011
terça-feira, 16 de agosto de 2011
os robôts da loucura é que a ignoram
Tenho apenas esta vida para viver, e seria quase uma traição que eu faltasse à sua entrevista - essa entrevista combinada desde toda a eternidade. Por isso eu a procuro à minha vida, em toda a parte onde sei que ela me espera com uma palavra a dizer.
Vergílio Ferreira, "O encontro original", in Carta ao Futuro
Vergílio Ferreira, "O encontro original", in Carta ao Futuro
domingo, 14 de agosto de 2011
É o meu corpo. Calhou-me.
"Estou velho. Há o sol e a neve e a aldeia deserta. O meu corpo o sabe, na humildade do seu cansaço, do seu fim. Alegria breve, este meu sabê-lo, esta posse de todo o milagre de eu ser e a deposição disso para o estrume da terra. Sento-me ao sol, aqueço. Estou só, terrivelmente povoado de mim. Valeu a pena viver? Matei a curiosidade, vim ver como isto era, valeu a pena. É engraçada a vida e a morte. Tem a sua piada, oh, se tem. Vim saber como isto era e soube coisas fantásticas. Vi a luz, a terra, os animais. Conheci o meu corpo em que apareci. É curioso um corpo. tem mãos, pés, nove buracos. Meteram-me nele, nunca mais o pude despir, como um cão à cor do pêlo que lhe calhou. É um corpo grande, um metro e oitenta e tal. É o meu corpo. Calhou-me. Movo as mãos, os pés, e é como se fossem meus e não fossem. É extraordinário, fantástico, um corpo. Com ele e nele tomei posse e conhecimento de coisas espantosas. Não seria uma pena não ter nascido? Ficava sem saber. Dirás tu: de que te serve se amanhã já não sabes? É certo. Mas agora sei. De que servem os prazeres que já tive e nunca mais poderei ter? Não servem de nada, serviram."
Alegria Breve, Vergílio Ferreira
Alegria Breve, Vergílio Ferreira
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Cale os seus olhos
É de olhares. É de olhares que eu preciso. (...) de um certo olhar. Preciso Doutor, que o azul dos seus olhos me faça companhia, que a cor, que é do céu e do mar, me traga a paz... Por favor, olhe-me e no seu olhar prometa-me. (...) o meu corpo é um casulo, dele só nascem borboletas. (...)
Não se esqueça, doutor, peço-lhe! É de um olhar que eu preciso. Cale-se, não fale, não anuncie tempestades, furacões, não me afunde em tristeza sem retorno. Conhece o poço, doutor? Já se debruçou? Conhece o fundo negro onde se reflecte a minha cara? Onde o eco da minha voz, ao repetir-se se apaga, como o tom dos sem vida.
(...) Perceba, Doutor, eu sou a Terra... há dentro de mim muito mais do que pode compreender. (...) Diga lá, Doutor, alguma vez dos seus olhos nasceu o Sol?
"Crónica do olhar que anuncia a morte", in Sinto Muito, Nuno Lobo Antunes
Não se esqueça, doutor, peço-lhe! É de um olhar que eu preciso. Cale-se, não fale, não anuncie tempestades, furacões, não me afunde em tristeza sem retorno. Conhece o poço, doutor? Já se debruçou? Conhece o fundo negro onde se reflecte a minha cara? Onde o eco da minha voz, ao repetir-se se apaga, como o tom dos sem vida.
(...) Perceba, Doutor, eu sou a Terra... há dentro de mim muito mais do que pode compreender. (...) Diga lá, Doutor, alguma vez dos seus olhos nasceu o Sol?
"Crónica do olhar que anuncia a morte", in Sinto Muito, Nuno Lobo Antunes
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
"duas solidões acompanhadas"
Correspondência entre Mécia e Jorge de Sena, "duas solidões acompanhadas", como o próprio escritor os descrevia, pois "esperar sempre fora parte de nos vermos".
Carta de Jorge para Mécia:
[…]”Isso desejava eu: reaprender a sonhar, a esperar, a confiar, a acreditar num futuro meramente pessoal, eu que tanto tenho acreditado em futuros colectivos. É esse o papel que te está reservado: acordar-me, encantar-me, absorver-me, chamar-me a uma vida inteiramente minha, que eu tenho dispersado, para que ma não roubem, e assim alguns bocados se salvem (creio que estou a lembrar-me sem querer, daquela lenda egípcia do Osíris cortado às fatias). Isso tens feito, naturalmente, pela tua condição de mulher, e de mulher que me quer a mim; […]
Lisboa, 5/1/1946.
In SENA, Mécia de, SENA, Jorge de – Isto tudo que nos rodeia (Cartas de amor).Lisboa: IN/CM, 1982, p. 76-77.
Carta de Mécia para Jorge:
[…] “ Para mim acho que uma obra de arte tem duas discussões: como obra de arte e como conteúdo. […] Olha lá, por favor não me dês troco, eu tenho maluqueira que chegue e sobre, tu bem sabes, e depois começo logo a andar na lua sem saber porquê. Fosse o Adão como tu e eu pasmaria como é que a Eva pôde ser tanto tempo ajuizada. Forte tola. Até amanhã, meu querido. Desculpa. Estou bem disposta e, para dizer a verdade, foi a tua carta que me dispôs bem, porque eu vinha aborrecida da rua, cheia de frio, farta de andar com rebanhos de eléctrico para eléctrico."
In SENA, Mécia de, SENA, Jorge de – Isto tudo que nos rodeia (Cartas de amor).Lisboa: IN/CM, 1982.
Vide:
Maria Otília Pereira Lage, Correspondência(S) MÉCIA / JORGE DE SENA(EVOCAÇÃO DE CARRAZEDA, anos 1940)
GUIMARÃES, Universidade do Minho – Instituto de Ciências Sociais, Núcleo de Estudos de População e Sociedade (NEPS), 2007
Carta de Jorge para Mécia:
[…]”Isso desejava eu: reaprender a sonhar, a esperar, a confiar, a acreditar num futuro meramente pessoal, eu que tanto tenho acreditado em futuros colectivos. É esse o papel que te está reservado: acordar-me, encantar-me, absorver-me, chamar-me a uma vida inteiramente minha, que eu tenho dispersado, para que ma não roubem, e assim alguns bocados se salvem (creio que estou a lembrar-me sem querer, daquela lenda egípcia do Osíris cortado às fatias). Isso tens feito, naturalmente, pela tua condição de mulher, e de mulher que me quer a mim; […]
Lisboa, 5/1/1946.
In SENA, Mécia de, SENA, Jorge de – Isto tudo que nos rodeia (Cartas de amor).Lisboa: IN/CM, 1982, p. 76-77.
Carta de Mécia para Jorge:
[…] “ Para mim acho que uma obra de arte tem duas discussões: como obra de arte e como conteúdo. […] Olha lá, por favor não me dês troco, eu tenho maluqueira que chegue e sobre, tu bem sabes, e depois começo logo a andar na lua sem saber porquê. Fosse o Adão como tu e eu pasmaria como é que a Eva pôde ser tanto tempo ajuizada. Forte tola. Até amanhã, meu querido. Desculpa. Estou bem disposta e, para dizer a verdade, foi a tua carta que me dispôs bem, porque eu vinha aborrecida da rua, cheia de frio, farta de andar com rebanhos de eléctrico para eléctrico."
In SENA, Mécia de, SENA, Jorge de – Isto tudo que nos rodeia (Cartas de amor).Lisboa: IN/CM, 1982.
Vide:
Maria Otília Pereira Lage, Correspondência(S) MÉCIA / JORGE DE SENA(EVOCAÇÃO DE CARRAZEDA, anos 1940)
GUIMARÃES, Universidade do Minho – Instituto de Ciências Sociais, Núcleo de Estudos de População e Sociedade (NEPS), 2007
sábado, 6 de agosto de 2011
E eu sei dar por isso muito bem...
| Felgar, fotografia minha (Agosto 2011) |
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.
Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...
Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos", 8-3-1914
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
Um pouco isso, um nada disso
Dorme. Está uma noite sufocante. Para lá das janelas, por sobre os telhados em frente, um aceno invisível. Para lá de ti, o inqualificável de tu seres, o absurdo indecifrável da tua presença. Um pouco isso, um nada disso. Eu digo o teu mistério e tudo fica por dizer porque o aniquilei com dizer. A tua pessoa, a transfiguração de ti na memória incerta. Reconheço-te, não te sei dizer, que é que de mim reconheces para um encontro plausível? (...)
O incorruptível, não do teu corpo, mas do teu ser. A perfeição, não da tua harmonia, mas da necessidade de existir. A tua essência, poderei dizê-lo? a tua divindade antes de haver deuses, uma coisa assim. E eu ir ter contigo e sermos uma iluminação. Uma chama pura. O sopro do universo, não sei. O começo, a origem de nós mesmos, a nossa ascensão. Quero estar contigo sem nada de permeio que nos divida e nos identifique em separação. Estar contigo no absoluto de nós.
A essência de nós e uma incerta alegria de uma estrela nos reconhecer. O fulgor de sermos e os astros estarem de acordo. E os deuses que ainda não nasceram, e são puros de um início que não tiveram.
Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra.
O incorruptível, não do teu corpo, mas do teu ser. A perfeição, não da tua harmonia, mas da necessidade de existir. A tua essência, poderei dizê-lo? a tua divindade antes de haver deuses, uma coisa assim. E eu ir ter contigo e sermos uma iluminação. Uma chama pura. O sopro do universo, não sei. O começo, a origem de nós mesmos, a nossa ascensão. Quero estar contigo sem nada de permeio que nos divida e nos identifique em separação. Estar contigo no absoluto de nós.
A essência de nós e uma incerta alegria de uma estrela nos reconhecer. O fulgor de sermos e os astros estarem de acordo. E os deuses que ainda não nasceram, e são puros de um início que não tiveram.
Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra.
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