quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Miscuglio di rumori

"L'inizio era paura, paura e piacere e un' orrida curiosità di ciò che stava per venire"

Thomas Mann, Morte a Venezia
Centro Cultural Victoria Ocampo, Mar de Plata, Argentina, fotografia minha

terça-feira, 23 de agosto de 2011

"- ¿Creés en Diós?"

" - Creo en el río que va y viene, se expande, navega hacia el mar y uno va tierra adentro. A mí me commueve eso. Todos esos pensamientos, ese mundo de la naturaleza me inspira mucho"

Entrevista a la cantora Liliana Herrero, "Música del Alma", Revista Cielos Argentinos, no avião, Agosto 2011.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

os robôts da loucura é que a ignoram

Tenho apenas esta vida para viver, e seria quase uma traição que eu faltasse à sua entrevista - essa entrevista combinada desde toda a eternidade. Por isso eu a procuro à minha vida, em toda a parte onde sei que ela me espera com uma palavra a dizer.

Vergílio Ferreira, "O encontro original", in Carta ao Futuro

domingo, 14 de agosto de 2011

É o meu corpo. Calhou-me.

"Estou velho. Há o sol e a neve e a aldeia deserta. O meu corpo o sabe, na humildade do seu cansaço, do seu fim. Alegria breve, este meu sabê-lo, esta posse de todo o milagre de eu ser e a deposição disso para o estrume da terra. Sento-me ao sol, aqueço. Estou só, terrivelmente povoado de mim. Valeu a pena viver? Matei a curiosidade, vim ver como isto era, valeu a pena. É engraçada a vida e a morte. Tem a sua piada, oh, se tem. Vim saber como isto era e soube coisas fantásticas. Vi a luz, a terra, os animais. Conheci o meu corpo em que apareci. É curioso um corpo. tem mãos, pés, nove buracos. Meteram-me nele, nunca mais o pude despir, como um cão à cor do pêlo que lhe calhou. É um corpo grande, um metro e oitenta e tal. É o meu corpo. Calhou-me. Movo as mãos, os pés, e é como se fossem meus e não fossem. É extraordinário, fantástico, um corpo. Com ele e nele tomei posse e conhecimento de coisas espantosas. Não seria uma pena não ter nascido? Ficava sem saber. Dirás tu: de que te serve se amanhã já não sabes? É certo. Mas agora sei. De que servem os prazeres que já tive e nunca mais poderei ter? Não servem de nada, serviram."

Alegria Breve, Vergílio Ferreira

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Cale os seus olhos

É de olhares. É de olhares que eu preciso. (...) de um certo olhar. Preciso Doutor, que o azul dos seus olhos me faça companhia, que a cor, que é do céu e do mar, me traga a paz... Por favor, olhe-me e no seu olhar prometa-me. (...) o meu corpo é um casulo, dele só nascem borboletas. (...)
Não se esqueça, doutor, peço-lhe! É de um olhar que eu preciso. Cale-se, não fale, não anuncie tempestades, furacões, não me afunde em tristeza sem retorno. Conhece o poço, doutor? Já se debruçou? Conhece o fundo negro onde se reflecte a minha cara? Onde o eco da minha voz, ao repetir-se se apaga, como o tom dos sem vida.
(...) Perceba, Doutor, eu sou a Terra... há dentro de mim muito mais do que pode compreender. (...) Diga lá, Doutor, alguma vez dos seus olhos nasceu o Sol?

"Crónica do olhar que anuncia a morte", in Sinto Muito, Nuno Lobo Antunes

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

"duas solidões acompanhadas"

Correspondência entre Mécia e Jorge de Sena, "duas solidões acompanhadas", como o próprio escritor os descrevia, pois "esperar sempre fora parte de nos vermos".

Carta de Jorge para Mécia:
[…]”Isso desejava eu: reaprender a sonhar, a esperar, a confiar, a acreditar num futuro meramente pessoal, eu que tanto tenho acreditado em futuros colectivos. É esse o papel que te está reservado: acordar-me, encantar-me, absorver-me, chamar-me a uma vida inteiramente minha, que eu tenho dispersado, para que ma não roubem, e assim alguns bocados se salvem (creio que estou a lembrar-me sem querer, daquela lenda egípcia do Osíris cortado às fatias). Isso tens feito, naturalmente, pela tua condição de mulher, e de mulher que me quer a mim; […]
Lisboa, 5/1/1946. 
In SENA, Mécia de, SENA, Jorge de – Isto tudo que nos rodeia (Cartas de amor).Lisboa: IN/CM, 1982, p. 76-77.

Carta de Mécia para Jorge:
[…] “ Para mim acho que uma obra de arte tem duas discussões: como obra de arte e como conteúdo. […] Olha lá, por favor não me dês troco, eu tenho maluqueira que chegue e sobre, tu bem sabes, e depois começo logo a andar na lua sem saber porquê. Fosse o Adão como tu e eu pasmaria como é que a Eva pôde ser tanto tempo ajuizada. Forte tola. Até amanhã, meu querido. Desculpa. Estou bem disposta e, para dizer a verdade, foi a tua carta que me dispôs bem, porque eu vinha aborrecida da rua, cheia de frio, farta de andar com rebanhos de eléctrico para eléctrico."
In SENA, Mécia de, SENA, Jorge de – Isto tudo que nos rodeia (Cartas de amor).Lisboa: IN/CM, 1982. 

Vide:
Maria Otília Pereira Lage, Correspondência(S) MÉCIA / JORGE DE SENA(EVOCAÇÃO DE CARRAZEDA, anos 1940)
GUIMARÃES, Universidade do Minho – Instituto de Ciências Sociais, Núcleo de Estudos de População e Sociedade (NEPS), 2007