domingo, 11 de setembro de 2011

Apesar das ruínas
e da morte,
onde sempre
acabou cada ilusão,
a força dos meus sonhos é tão forte,
que de tudo nasce a exaltação
e nunca as minhas mãos
ficam vazias.

Sophia de Mello Breyner

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Es muss sein: o primeiro aniversário

Decorreu um ano desde que originei este blogue.

Estamos, de novo, a cinco dias dos Idos de Setembro, que é como quem diz à laia de romana, a dia 9 do dito mês...
"E já que a vida é feita de pequenos nadas..." canta a voz singular de Sérgio Godinho (“Caramba”) que a minha infância e adolescência completou com a ternura e a vivacidade das suas letras.
Se o é, de facto, evoquemos essa hipótese neste caso, o "nada que é tudo" pessoano faz, no dia de hoje, todo o sentido, já que um vazio sítio cibernáutico foi sendo povoado de literatura ao longo de 12 densos meses.
Num verdadeiro e "puro exercício de ninguém" (Natália Correia), confesso que às vezes me assustava a manutenção destas virtuais páginas onde, com gosto e dedicação, fui apontando algumas das mais deliciosas palavras que assolavam as minhas eclécticas leituras.

E volto todavia a Milan Kundera, à Insustentável leveza do ser:
"Der schwer gefasste Entschluss, a decisão gravemente pesada está associada à voz do destino (Es muss sein!); o peso, a necessidade e o valor são três noções íntima e profundamente ligadas: só é grave o que é necessário, só tem valor o que pesa". Será esta noção sustentável? "Mas o homem, porque só tem uma vida, não tem qualquer possibilidade de verificar as hipóteses através da experiência e nunca poderá saber se teve ou não razão em obedecer aos seus sentimentos" Kundera

"Espero viver dentro de mim" - afirma Natália Correia, na Defesa do poeta - ainda que seja só um cibinho, "descobrir o imponderável" de mim (Vergílio Ferreira, Em nome da terra)!
Pois seja, "Sou um poeta, jogo-me aos dados...". Então... isso quer dizer que...("Es koonte auch anders sein", Kundera) podia muito bem ser de outra maneira? Que nada está já escrito que as coisas têm de ser como são? Que são ou não o são?
"Pardieu!" (e evoco o Vaqueiro vicentino, do Auto da Visitação): nesse caso, no caso do acaso e do livre-arbítrio, com que peças de jogo nos movemos no tabuleiro? Podemos seguir este caminho e/ou aqueloutro, pois não há um "es muss sein", mas sim uma natural e ordenada desordem? Ou uma encantadora e desordenada ordem?
"Que prazer não cumprir um dever" (e conseguimos imaginar Fernando Pessoa espreguiçando-se estirado alegremento num sofá)! Se não existe um "es muss sein", o peso explodirá em leveza. Todavia, a dada altura, a leveza adquirirá o seu peso e desejá-lo-á-…?

A verdade é que "continuamos para aqui a dançar na corda bamba" (Sérgio Godinho) e o equilíbrio é desejável, mas poderá tornar-se um adynaton...o único ensejo legítimo, e que a todos assiste (além do medo), é a vontade de que o cosmos se re-reorganize, sempre, periodicamente, à medida dos nossos desejos e dos nossos tempos, pois com eles “mudam-se as vontades”…Que se reorganize calmamente e que tenhamos a consciência e o prazer de o saber saborear em cada momento, para que a "alma volte a subir à superfície do corpo como a tripulação a sair do ventre de um navio" (Kundera)

Mas que nunca alcance o peso de Para Sempre (Vergílio Ferreira), que eu não sinta as janelas da minha morada a cerrarem-se na penumbra, uma a uma como as de Paulo, o protagonista...ou, se o sentir, se o desejar - numa bela metáfora do eufemístico entardecer - , que seja já num final de vida delicioso e que, ao olhar para trás, possa compreender que, num dado momento, as tais janelas, no seu tempo oportuno, foram alegremente escancaradas para uma vida que brotava e para um mundo que me inundava.

São de veludo as palavras...nesta tão estranha vida  (http://www.youtube.com/watch?v=CTyPuuq9yLM&feature=related)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Uma coisa assim


A um Tu

"Tudo isto é difícil e eu não to sei dizer. Tudo isto está fora das leis humanas ou divinas porque é maior do que elas, do que o imaginado pelo homem para o homem e para os deuses. Há o nosso encontro aí porque tudo pesa imenso e nós devemos ser verdade. Verdade acima de um corpo que apodrece e de um espírito que se extraviou. Verdade entre a solidão que espera uma ideia deitada fora, uma palavra erradia, um olhar que alguém tenha esquecido num balde de lixo.
 (...)
Para lá de ti, o inqualificável de tu seres, o absurdo indecifrável da tua presença. Um pouco isso, um nada disso. Eu digo o teu mistério e tudo fica por dizer porque o aniquilei com dizer. A tua pessoa, a transfiguração de ti na minha memória incerta. Reconheço-te, não te sei dizer, que é que de mim reconheces para um encontro plausível?
(...)
A tua essência, poderei dizê-lo? a tua divindade antes de haver deuses, uma coisa assim. E eu ir ter contigo e sermos em iluminação. Uma chama pura. O sopro do universo, não sei.
(...)
Quero estar contigo sem nada de permeio que nos divida e nos identifique em separação. Estar contigo no absoluto de nós - onde é que poderemos ser todos no indizível e incomparável?
(...)
A essência de nós e uma incerta alegria de uma estrela nos reconhecer. O fulgor de sermos e os astros estarem de acordo. E os deuses que ainda não nasceram e são puros de um início que não tiveram.
Uma coisa assim - e que pena não saber o que é".

Vergílio Ferreira, Em nome da terra

"It's a dream, a frightful dream... life is..."

At my signal, unleash hell.

Gladiator

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

"O me! O life!"

Porque revi parte do Dead Poets Society:


"We don't read and write poetry because it's cute. We read and write poetry because we are members of the human race. And the human race is filled with passion. And medicine, law, business, engineering, these are noble pursuits and necessary to sustain life. But poetry, beauty, romance, love, these are what we stay alive for. To quote from Whitman, "O me! O life!... of the questions of these recurring; of the endless trains of the faithless... of cities filled with the foolish; what good amid these, O me, O life?" Answer. That you are here - that life exists, and identity; that the powerful play goes on and you may contribute a verse.
What will your verse be?"

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

un fresco múltiple y variable

"Se han esfumado las fronteras de la realidad, la vida es un laberinto de espejos encontrados y de imágenes torcidas.
Así es mi vida, un fresco múltiple y variable que sólo yo puedo descifrar y que me pertenece como un secreto. La mente selecciona, exagera, traiciona, los acontecimientos se esfuman, las personas se olvidan y al final sólo queda el trayecto del alma, esos escasos momentos de revelación del espíritu. No interesa lo que me pasó, sino las cicatrices que me marcan y distinguen."
Paula, de Isabel Allende