quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Horas, horas sem fim

Espera
 
Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.
Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

Eugénio de Andrade

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Palavras assim deste jaez

Pelo aniversário de Aquilino Ribeiro

"Dentro da mata, com aquele seu ar de igreja antes de dizer missa, os horizontes a esfumarem-se por detrás das dunas onduladas, o silêncio - sim, o silêncio, pois o marulho das ondas e o ramalhar das franças ao vento parece ficar de fora, de envolta às paredes duma redoma - o exército hirto e negro de troncos"
  
A batalha sem fim, de Aquilino Ribeiro (sobre a Mata do Pedrógão)


Como o percebo...

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A disponibilidade das palavras...

"A disponibilidade das palavras! Pedras roladas pelo ímpeto expressivo de cada povo, criações inquietas e versáteis da inquieta e versátil natureza humana, o glaciar que as empurra, e lhes vai pulindo as arestas, não lhes consente a mais pequena recusa aos caprichos da sua vontade. Tanto as abandona enigmáticamente num dos valeiros da montanha, e as condena ao esquecimento eterno da íntima inércia, como lhes muda o rumo e a significação - e torna vivo o que parecia morto, e novo o que na verdade envelhecera - ou as sublima e degrada no mesmo instante, - um som igual a brilhar na alta cúpula dum verso ou a bruxulear no rasteiro alicerce dum insulto.
No pasarán!"

Miguel Torga, A criação do mundo (o terceiro dia), 3ª edição revista, Coimbra 1952

domingo, 11 de setembro de 2011

Apesar das ruínas
e da morte,
onde sempre
acabou cada ilusão,
a força dos meus sonhos é tão forte,
que de tudo nasce a exaltação
e nunca as minhas mãos
ficam vazias.

Sophia de Mello Breyner

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Es muss sein: o primeiro aniversário

Decorreu um ano desde que originei este blogue.

Estamos, de novo, a cinco dias dos Idos de Setembro, que é como quem diz à laia de romana, a dia 9 do dito mês...
"E já que a vida é feita de pequenos nadas..." canta a voz singular de Sérgio Godinho (“Caramba”) que a minha infância e adolescência completou com a ternura e a vivacidade das suas letras.
Se o é, de facto, evoquemos essa hipótese neste caso, o "nada que é tudo" pessoano faz, no dia de hoje, todo o sentido, já que um vazio sítio cibernáutico foi sendo povoado de literatura ao longo de 12 densos meses.
Num verdadeiro e "puro exercício de ninguém" (Natália Correia), confesso que às vezes me assustava a manutenção destas virtuais páginas onde, com gosto e dedicação, fui apontando algumas das mais deliciosas palavras que assolavam as minhas eclécticas leituras.

E volto todavia a Milan Kundera, à Insustentável leveza do ser:
"Der schwer gefasste Entschluss, a decisão gravemente pesada está associada à voz do destino (Es muss sein!); o peso, a necessidade e o valor são três noções íntima e profundamente ligadas: só é grave o que é necessário, só tem valor o que pesa". Será esta noção sustentável? "Mas o homem, porque só tem uma vida, não tem qualquer possibilidade de verificar as hipóteses através da experiência e nunca poderá saber se teve ou não razão em obedecer aos seus sentimentos" Kundera

"Espero viver dentro de mim" - afirma Natália Correia, na Defesa do poeta - ainda que seja só um cibinho, "descobrir o imponderável" de mim (Vergílio Ferreira, Em nome da terra)!
Pois seja, "Sou um poeta, jogo-me aos dados...". Então... isso quer dizer que...("Es koonte auch anders sein", Kundera) podia muito bem ser de outra maneira? Que nada está já escrito que as coisas têm de ser como são? Que são ou não o são?
"Pardieu!" (e evoco o Vaqueiro vicentino, do Auto da Visitação): nesse caso, no caso do acaso e do livre-arbítrio, com que peças de jogo nos movemos no tabuleiro? Podemos seguir este caminho e/ou aqueloutro, pois não há um "es muss sein", mas sim uma natural e ordenada desordem? Ou uma encantadora e desordenada ordem?
"Que prazer não cumprir um dever" (e conseguimos imaginar Fernando Pessoa espreguiçando-se estirado alegremento num sofá)! Se não existe um "es muss sein", o peso explodirá em leveza. Todavia, a dada altura, a leveza adquirirá o seu peso e desejá-lo-á-…?

A verdade é que "continuamos para aqui a dançar na corda bamba" (Sérgio Godinho) e o equilíbrio é desejável, mas poderá tornar-se um adynaton...o único ensejo legítimo, e que a todos assiste (além do medo), é a vontade de que o cosmos se re-reorganize, sempre, periodicamente, à medida dos nossos desejos e dos nossos tempos, pois com eles “mudam-se as vontades”…Que se reorganize calmamente e que tenhamos a consciência e o prazer de o saber saborear em cada momento, para que a "alma volte a subir à superfície do corpo como a tripulação a sair do ventre de um navio" (Kundera)

Mas que nunca alcance o peso de Para Sempre (Vergílio Ferreira), que eu não sinta as janelas da minha morada a cerrarem-se na penumbra, uma a uma como as de Paulo, o protagonista...ou, se o sentir, se o desejar - numa bela metáfora do eufemístico entardecer - , que seja já num final de vida delicioso e que, ao olhar para trás, possa compreender que, num dado momento, as tais janelas, no seu tempo oportuno, foram alegremente escancaradas para uma vida que brotava e para um mundo que me inundava.

São de veludo as palavras...nesta tão estranha vida  (http://www.youtube.com/watch?v=CTyPuuq9yLM&feature=related)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Uma coisa assim


A um Tu

"Tudo isto é difícil e eu não to sei dizer. Tudo isto está fora das leis humanas ou divinas porque é maior do que elas, do que o imaginado pelo homem para o homem e para os deuses. Há o nosso encontro aí porque tudo pesa imenso e nós devemos ser verdade. Verdade acima de um corpo que apodrece e de um espírito que se extraviou. Verdade entre a solidão que espera uma ideia deitada fora, uma palavra erradia, um olhar que alguém tenha esquecido num balde de lixo.
 (...)
Para lá de ti, o inqualificável de tu seres, o absurdo indecifrável da tua presença. Um pouco isso, um nada disso. Eu digo o teu mistério e tudo fica por dizer porque o aniquilei com dizer. A tua pessoa, a transfiguração de ti na minha memória incerta. Reconheço-te, não te sei dizer, que é que de mim reconheces para um encontro plausível?
(...)
A tua essência, poderei dizê-lo? a tua divindade antes de haver deuses, uma coisa assim. E eu ir ter contigo e sermos em iluminação. Uma chama pura. O sopro do universo, não sei.
(...)
Quero estar contigo sem nada de permeio que nos divida e nos identifique em separação. Estar contigo no absoluto de nós - onde é que poderemos ser todos no indizível e incomparável?
(...)
A essência de nós e uma incerta alegria de uma estrela nos reconhecer. O fulgor de sermos e os astros estarem de acordo. E os deuses que ainda não nasceram e são puros de um início que não tiveram.
Uma coisa assim - e que pena não saber o que é".

Vergílio Ferreira, Em nome da terra