Decorreu um ano desde que originei este blogue.
Estamos, de novo, a cinco dias dos Idos de Setembro, que é como quem diz à laia de romana, a dia 9 do dito mês...
"E já que a vida é feita de pequenos nadas..." canta a voz singular de Sérgio Godinho (“Caramba”) que a minha infância e adolescência completou com a ternura e a vivacidade das suas letras.
Se o é, de facto, evoquemos essa hipótese neste caso, o "nada que é tudo" pessoano faz, no dia de hoje, todo o sentido, já que um vazio sítio cibernáutico foi sendo povoado de literatura ao longo de 12 densos meses.
Num verdadeiro e "puro exercício de ninguém" (Natália Correia), confesso que às vezes me assustava a manutenção destas virtuais páginas onde, com gosto e dedicação, fui apontando algumas das mais deliciosas palavras que assolavam as minhas eclécticas leituras.
E volto todavia a Milan Kundera, à Insustentável leveza do ser:
"Der schwer gefasste Entschluss, a decisão gravemente pesada está associada à voz do destino (Es muss sein!); o peso, a necessidade e o valor são três noções íntima e profundamente ligadas: só é grave o que é necessário, só tem valor o que pesa". Será esta noção sustentável? "Mas o homem, porque só tem uma vida, não tem qualquer possibilidade de verificar as hipóteses através da experiência e nunca poderá saber se teve ou não razão em obedecer aos seus sentimentos" Kundera
"Espero viver dentro de mim" - afirma Natália Correia, na Defesa do poeta - ainda que seja só um cibinho, "descobrir o imponderável" de mim (Vergílio Ferreira, Em nome da terra)!
Pois seja, "Sou um poeta, jogo-me aos dados...". Então... isso quer dizer que...("Es koonte auch anders sein", Kundera) podia muito bem ser de outra maneira? Que nada está já escrito que as coisas têm de ser como são? Que são ou não o são?
"Pardieu!" (e evoco o Vaqueiro vicentino, do Auto da Visitação): nesse caso, no caso do acaso e do livre-arbítrio, com que peças de jogo nos movemos no tabuleiro? Podemos seguir este caminho e/ou aqueloutro, pois não há um "es muss sein", mas sim uma natural e ordenada desordem? Ou uma encantadora e desordenada ordem?
"Que prazer não cumprir um dever" (e conseguimos imaginar Fernando Pessoa espreguiçando-se estirado alegremento num sofá)! Se não existe um "es muss sein", o peso explodirá em leveza. Todavia, a dada altura, a leveza adquirirá o seu peso e desejá-lo-á-…?
A verdade é que "continuamos para aqui a dançar na corda bamba" (Sérgio Godinho) e o equilíbrio é desejável, mas poderá tornar-se um adynaton...o único ensejo legítimo, e que a todos assiste (além do medo), é a vontade de que o cosmos se re-reorganize, sempre, periodicamente, à medida dos nossos desejos e dos nossos tempos, pois com eles “mudam-se as vontades”…Que se reorganize calmamente e que tenhamos a consciência e o prazer de o saber saborear em cada momento, para que a "alma volte a subir à superfície do corpo como a tripulação a sair do ventre de um navio" (Kundera)
Mas que nunca alcance o peso de Para Sempre (Vergílio Ferreira), que eu não sinta as janelas da minha morada a cerrarem-se na penumbra, uma a uma como as de Paulo, o protagonista...ou, se o sentir, se o desejar - numa bela metáfora do eufemístico entardecer - , que seja já num final de vida delicioso e que, ao olhar para trás, possa compreender que, num dado momento, as tais janelas, no seu tempo oportuno, foram alegremente escancaradas para uma vida que brotava e para um mundo que me inundava.