terça-feira, 20 de setembro de 2011

a força que tem um verso


Poeta Castrado, Não!
Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegada poesia
quando ela nos envenena.
Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:
De fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?
Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia !
Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado, não!

Ary dos Santos - Resumo. Lisboa, 1973.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

This is me

Neither prison nor temple of the soul, the body has always been an important refuge of the self. The body cannot be expropriated by another (...) it cannot be plagiarized (...) Its ownership cannot be collectivized, except perhaps during pregnancy. He or she who "has" any one body gets to keep it, enjoy its pleasures, and suffer its breakdown, whatever miracles are at his or her disposal to fix it as it breaks. The body is the passport, the warrant, the seal of one's identity.

"This", said as one firmly pounds one's chest with the flat of one's hands, "is me".

Rita Charon, Chapter 5, "The Pacient, the Body, and the Self", in Narrative Medicine, Honoring the Stories of Illness, 2006, Oxford University Press.

És homem, não te esqueças!

Ao J*

Recomeça...
se puderes,
sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres
nesse caminho duro
do futuro,
dá-os em liberdade.
Enquanto não o alcances
não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...

Miguel Torga

(a parte do "sem pressa" não é para levar muito à letra)

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

E suportar é o tempo mais comprido.

Chamo-te

Chamo-te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que não quero ver.

Peço-te que sejas o presente.
Peço-te que inundes tudo.
E que o teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado. 


Sophia de Mello Breyner Andresen
(declamação http://youtu.be/fs_Hvx8XgRA)


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Horas, horas sem fim

Espera
 
Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.
Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

Eugénio de Andrade

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Palavras assim deste jaez

Pelo aniversário de Aquilino Ribeiro

"Dentro da mata, com aquele seu ar de igreja antes de dizer missa, os horizontes a esfumarem-se por detrás das dunas onduladas, o silêncio - sim, o silêncio, pois o marulho das ondas e o ramalhar das franças ao vento parece ficar de fora, de envolta às paredes duma redoma - o exército hirto e negro de troncos"
  
A batalha sem fim, de Aquilino Ribeiro (sobre a Mata do Pedrógão)


Como o percebo...

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A disponibilidade das palavras...

"A disponibilidade das palavras! Pedras roladas pelo ímpeto expressivo de cada povo, criações inquietas e versáteis da inquieta e versátil natureza humana, o glaciar que as empurra, e lhes vai pulindo as arestas, não lhes consente a mais pequena recusa aos caprichos da sua vontade. Tanto as abandona enigmáticamente num dos valeiros da montanha, e as condena ao esquecimento eterno da íntima inércia, como lhes muda o rumo e a significação - e torna vivo o que parecia morto, e novo o que na verdade envelhecera - ou as sublima e degrada no mesmo instante, - um som igual a brilhar na alta cúpula dum verso ou a bruxulear no rasteiro alicerce dum insulto.
No pasarán!"

Miguel Torga, A criação do mundo (o terceiro dia), 3ª edição revista, Coimbra 1952