sábado, 1 de outubro de 2011

Aqui...


Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.


Sophia de Mello Breyner

Me@Praia do Pedrógão, fotografia de Susana Antunes

terça-feira, 27 de setembro de 2011

est-il d'autres vies?

"Connais-je encore la nature? me connais-je? - Plus de mots.
J'ensevelis les morts dans mon ventre. Cris, tambour, danse, danse, danse, danse! Je ne vois même pas l'heure où, les blancs débarquant, je tomberai au néant.
Faim, soif, cris, danse, danse, danse, danse!"

Rimbaud, Une saison en enfer, Poésie, Gallimard

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

"A minha fala tem as vozes do círculo cromático"

À memória de Júlio Resende

"A minha fala tem as vozes do círculo cromático", afirmava Júlio Resende, em entrevista, no ano de 2008.  
O pintor, que faleceu esta quarta-feira, dia 21 de Setembro de 2011, nasceu no Porto a 23 de Outubro de 1917 e frequentou as Escolas de Belas-Artes do Porto e de Paris. Iniciou a sua actividade no mundo artístico como ilustrador sobretudo infantil e na imprensa diária enquanto jovem. Entre os seus trabalhos, além da pintura e exposições, inclusive em numerosas bienais, contam-se experiências com azuleijaria e trabalhos no âmbito arquitectónico, que lhe garantiram diversos prémios, como o Prémio AICA (Associação Internacional de Críticos de Arte) em 1985. 
Ilustrou romances como Aparição de Vergílio Ferreira, em 1959 (que lhe garantiu o Prémio Artes Gráficas na Bienal de Artes de S. Paulo) e uma edição de Retalhos da vida de um médico (Lisboa, 1973), do escritor Fernando Namora, obra que me é bastante querida e da qual deixo uma imagem.





“Sou médico. Um médico é um médico; não escolhe doentes nem caminhos”,   
Retalhos da Vida de Um Médico I, p.28

Dizia Resende: "O Picasso não procura, o Picasso encontra. Eu procuro, continuo à procura" 
(entrevista 2008)


http://www.publico.pt/Cultura/morreu-o-pintor-julio-resende-1512922
http://www.publico.pt/Cultura/julio-resende-a-morte-cada-vez-me-preocupa-menos-1512931 

terça-feira, 20 de setembro de 2011

a força que tem um verso


Poeta Castrado, Não!
Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegada poesia
quando ela nos envenena.
Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:
De fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?
Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia !
Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado, não!

Ary dos Santos - Resumo. Lisboa, 1973.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

This is me

Neither prison nor temple of the soul, the body has always been an important refuge of the self. The body cannot be expropriated by another (...) it cannot be plagiarized (...) Its ownership cannot be collectivized, except perhaps during pregnancy. He or she who "has" any one body gets to keep it, enjoy its pleasures, and suffer its breakdown, whatever miracles are at his or her disposal to fix it as it breaks. The body is the passport, the warrant, the seal of one's identity.

"This", said as one firmly pounds one's chest with the flat of one's hands, "is me".

Rita Charon, Chapter 5, "The Pacient, the Body, and the Self", in Narrative Medicine, Honoring the Stories of Illness, 2006, Oxford University Press.

És homem, não te esqueças!

Ao J*

Recomeça...
se puderes,
sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres
nesse caminho duro
do futuro,
dá-os em liberdade.
Enquanto não o alcances
não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...

Miguel Torga

(a parte do "sem pressa" não é para levar muito à letra)

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

E suportar é o tempo mais comprido.

Chamo-te

Chamo-te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que não quero ver.

Peço-te que sejas o presente.
Peço-te que inundes tudo.
E que o teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado. 


Sophia de Mello Breyner Andresen
(declamação http://youtu.be/fs_Hvx8XgRA)