quarta-feira, 19 de outubro de 2011

"Claro que tenho medo": a palavra no corpo



"Não pude evitar. O amor nasce assim. Às vezes, só num olhar. Não se pode resistir à felicidade.”

"Pourquoi le plaisir de la solitude s’en va avec la solitude ?"

"Todas as noites...todas as manhãs...
(...) 
Vamos fazer qualquer coisa... não se faz nada aqui...
Se tenho medo? Claro que tenho medo...
É um sítio tão racional quanto inexplicável
(...)
Claro que tenho medo"

Mas "Amor é fogo que arde sem se ver", "É um não querer mais que bem querer", "é um andar solitário entre a gente", "É querer estar preso por vontade"... 
Sábio soneto.

"When the fear came..."

Olga Roriz "Os Olhos de Gulay Cabbar"

segunda-feira, 10 de outubro de 2011


Porcupine tree - Prepare Yourself


Segue o teu destino

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

               Ricardo Reis


segunda-feira, 3 de outubro de 2011

subitamente as palavras romperam

"entrego-te as palavras mais brandas
que entre os meus dedos construí
para alimentar de ti os recantos da casa
invadindo o coração da noite

entrego-te as palavras com  redonda luz
das maçãs sobre a mesa    e o rumor da água
rasgando o caminho da paixão
em horas que já não conseguimos    sem ajuda recordar
mas que habitam a mais frágil memória de nós próprios

palavras jorrando dos meus olhos
invadindo-te o sono    e tropeçando
nas esquinas das frases que decoro
ao longo dos veios da tua pele

(...)

porque nunca ninguém se prepara convenientemente
para a chegada do amor
e ele é sempre um convidado estranho
sentado em silêncio na penumbra da sala
olhando os quadros   o chão    o tecto

como um velho parente da província
com medo de dizer o que não deve"


Alice Vieira, Poesia, Dois corpos tombando na água, Editorial Caminho, Lisboa 2011

sábado, 1 de outubro de 2011

Aqui...


Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.


Sophia de Mello Breyner

Me@Praia do Pedrógão, fotografia de Susana Antunes

terça-feira, 27 de setembro de 2011

est-il d'autres vies?

"Connais-je encore la nature? me connais-je? - Plus de mots.
J'ensevelis les morts dans mon ventre. Cris, tambour, danse, danse, danse, danse! Je ne vois même pas l'heure où, les blancs débarquant, je tomberai au néant.
Faim, soif, cris, danse, danse, danse, danse!"

Rimbaud, Une saison en enfer, Poésie, Gallimard

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

"A minha fala tem as vozes do círculo cromático"

À memória de Júlio Resende

"A minha fala tem as vozes do círculo cromático", afirmava Júlio Resende, em entrevista, no ano de 2008.  
O pintor, que faleceu esta quarta-feira, dia 21 de Setembro de 2011, nasceu no Porto a 23 de Outubro de 1917 e frequentou as Escolas de Belas-Artes do Porto e de Paris. Iniciou a sua actividade no mundo artístico como ilustrador sobretudo infantil e na imprensa diária enquanto jovem. Entre os seus trabalhos, além da pintura e exposições, inclusive em numerosas bienais, contam-se experiências com azuleijaria e trabalhos no âmbito arquitectónico, que lhe garantiram diversos prémios, como o Prémio AICA (Associação Internacional de Críticos de Arte) em 1985. 
Ilustrou romances como Aparição de Vergílio Ferreira, em 1959 (que lhe garantiu o Prémio Artes Gráficas na Bienal de Artes de S. Paulo) e uma edição de Retalhos da vida de um médico (Lisboa, 1973), do escritor Fernando Namora, obra que me é bastante querida e da qual deixo uma imagem.





“Sou médico. Um médico é um médico; não escolhe doentes nem caminhos”,   
Retalhos da Vida de Um Médico I, p.28

Dizia Resende: "O Picasso não procura, o Picasso encontra. Eu procuro, continuo à procura" 
(entrevista 2008)


http://www.publico.pt/Cultura/morreu-o-pintor-julio-resende-1512922
http://www.publico.pt/Cultura/julio-resende-a-morte-cada-vez-me-preocupa-menos-1512931 

terça-feira, 20 de setembro de 2011

a força que tem um verso


Poeta Castrado, Não!
Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegada poesia
quando ela nos envenena.
Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:
De fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?
Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia !
Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado, não!

Ary dos Santos - Resumo. Lisboa, 1973.