segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Nua, a poesia sai dentre o arvoredo.
Como graça fugida ao namorado,
Vem a sorrir da causa do seu medo:
O seu corpo de noiva fecundado.

Vem com seu passo ledo,
Já sem rugas na fronte; descuidado
O coração divino, onde um segredo
Só em humana luz é revelado.

Realidade, embriaguez, beleza,
Tudo ela traz e entrega no seu gesto.
Há no seu rosto aberto outra certeza,

Outro sol, outro sonho, outra alegria.
O seu próprio regresso é o seu protesto
Contra o falso pudor por que fugia

Miguel Torga, "Regresso", in Poesia Completa, volume I, Ed. Dom Quixote, Lisboa 2007, p.181

terça-feira, 8 de novembro de 2011

"Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te"
 
Ruy Belo, "Muriel", Porto de Abrigo

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia, Herberto Helder

"Isolés dans l'amour ainsi qu'en un bois noir,
Nos deux coeurs, exhalant leur tendresse paisible,
Seront deux rossignols qui chantent dans le soir"
Paul Verlaine

É difícil lutar com o coração, pois paga-se com a alma.
χαλεπὸν θυμῷ μάχεσθαι· ψυχῆς γὰρ ὠνεῖται.
Heraclito DK B85


Lagoa da Ervedeira, Praia do Pedrógão. Fotografia de Susana Antunes.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

seremos nós a vertigem


 Invention of Love (2010) - Animated Short Film

Preto ou branco!
Não se pensa, sente-se e não se pode inventar.

"E das mãos que saiam gestos
de pura transformação
Entre o real e o sonho
seremos nós a vertigem"
Alexandre O'Neill

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

"Claro que tenho medo": a palavra no corpo



"Não pude evitar. O amor nasce assim. Às vezes, só num olhar. Não se pode resistir à felicidade.”

"Pourquoi le plaisir de la solitude s’en va avec la solitude ?"

"Todas as noites...todas as manhãs...
(...) 
Vamos fazer qualquer coisa... não se faz nada aqui...
Se tenho medo? Claro que tenho medo...
É um sítio tão racional quanto inexplicável
(...)
Claro que tenho medo"

Mas "Amor é fogo que arde sem se ver", "É um não querer mais que bem querer", "é um andar solitário entre a gente", "É querer estar preso por vontade"... 
Sábio soneto.

"When the fear came..."

Olga Roriz "Os Olhos de Gulay Cabbar"

segunda-feira, 10 de outubro de 2011


Porcupine tree - Prepare Yourself


Segue o teu destino

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

               Ricardo Reis


segunda-feira, 3 de outubro de 2011

subitamente as palavras romperam

"entrego-te as palavras mais brandas
que entre os meus dedos construí
para alimentar de ti os recantos da casa
invadindo o coração da noite

entrego-te as palavras com  redonda luz
das maçãs sobre a mesa    e o rumor da água
rasgando o caminho da paixão
em horas que já não conseguimos    sem ajuda recordar
mas que habitam a mais frágil memória de nós próprios

palavras jorrando dos meus olhos
invadindo-te o sono    e tropeçando
nas esquinas das frases que decoro
ao longo dos veios da tua pele

(...)

porque nunca ninguém se prepara convenientemente
para a chegada do amor
e ele é sempre um convidado estranho
sentado em silêncio na penumbra da sala
olhando os quadros   o chão    o tecto

como um velho parente da província
com medo de dizer o que não deve"


Alice Vieira, Poesia, Dois corpos tombando na água, Editorial Caminho, Lisboa 2011