sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Vale a pena?

"É difícil ainda admitir que a Terra não é o centro do Mundo. É difícil conceber que a espécie humana é uma espécie entre as outras que há-de findar como elas. Nós pensamos na nossa morte, mas sonhamo-nos sempre perduráveis na memória dos que nos conheceram ou mesmo na dos que vierem depois desses.
Mas a espécie humana é pressupostamente contínua pelos milénios dos milénios. Raro assim imaginamos a extensão infinita do silêncio que a precedeu e há-de seguir. Mas é só pensando num silêncio infinito que a espera é que podemos entender a sua fragilidade.
Um dia a Terra será deserta e reduzida à condição de uma bola de pedra perdida nos espaços e no seu absurdo fantástico de ser. Pensa nisso quando conquistares um império ou realizares uma obra de arte ou sofreres ou infligires uma humilhação.
E verás que tudo se te transfigurará."

Vergílio Ferreira, Escrever, Bertrand Editora, Lisboa 2001ª, p.20.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

"De vez em quando a memória levanta-se...Estou bem. Cansado até às raízes de mim, mas estou bem. A vida inventa-se em cada hora em que ela se nos inventa (...) Uma serenidade invulnerável alastra-se pelo universo... O mar deserto até ao limite do poente. A vida inteira dentro de mim" 
Vergílio Ferreira, Até ao fim.
(http://www.youtube.com/watch?v=fD-AzafLWVk&feature=related - Ludovico Einaudi, In un'altra vita)

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

o único sentido oculto das cousas

 http://www.youtube.com/watch?v=hCNXp6LRP7E&feature=related
Ludovico Einaudi, Lady Labyrinth


O mistério das cousas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os
homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: —
As cousas não têm significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXXIX"

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Se amares o universo, serás do tamanho dele

Para que percorres inutilmente o céu inteiro à procura da tua estrela? 

Põe-na lá.

Vergílio Ferreira, Escrever


http://silentstilllife.blogspot.com/2010/04/blog-post.html
Intervenção sobre Edvard Munch. Noite estrelada. 1922-24.





terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Encontros imediatos

Nada podeis contra o amor,
contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
E é tão pouco!

Eugénio de Andrade, Frente a frente

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011