segunda-feira, 18 de junho de 2012

"Floresceu, teria dito o jardineiro, se tivesse aberto a porta; se tivesse entrado, em qualquer uma daquelas noites de antanho, e o encontrasse a escrever; se o tivesse encontrado a rasgar o que escrevera; se o tivesse encontrado a terminar uma obra-prima às três da manhã, saindo a correr para calcorrear as ruas, e visitar igrejas, e jejuar num dia, e beber no outro, a devorar Shakespeare, Darwin, A História da Civilização e Bernard Shaw"

Mrs Dalloway, Virginia Woolf

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Os olhos rasos de água

Cansado de ser homem durante o dia inteiro
chego à noite com os olhos rasos de água.
Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,
entrar dentro de ti como num bosque.

É a hora de fazer milagres:
posso ressuscitar os mortos e trazê-los
a este quarto branco e despovoado,
onde entro sempre pela primeira vez,
para falarmos das grandes searas de trigo
afogadas a luz do amanhecer.

Posso prometer uma viagem ao paraíso
a quem se estender ao pé de mim,
ou deixar uma lágrima nos meus olhos
ser toda a nostalgia das areias

Eugénio de Andrade, in As palavras interditas

terça-feira, 12 de junho de 2012

Mas como fazer durar
até ao último instante
esta boca, este sol?

É preciso amá-la,
paciente e alta,
onde a chama canta.

Amá-la. Até ao fim.
Até ser dança.

Eugénio de Andrade, "Matéria Solar", Poesia, Rosto Editora, Abril 2011, p.379

quarta-feira, 30 de maio de 2012

tal e qual

Pára-me de repente o Pensamento...
— Como se de repente sofreado
Na Douda Correria... em que, levado...
— Anda em Busca... da Paz... do Esquecimento

— Pára Surpreso... Escrutador... Atento
Como pára... um Cavalo Alucinado
Ante um Abismo... ante seus pés rasgado...
— Pára... e Fica... e Demora-se um Momento....

Vem trazido na Douda Correria
Pára à beira do Abismo e se demora
E Mergulha na Noute, Escura e Fria

Um Olhar d’Aço, que na Noute explora...
— Mas a Espora da dor seu flanco estria...
— E Ele Galga... e Prossegue... sob a Espora!

Publicado em várias revistas literárias, com ligeiras alterações, de 1900 (O Portugal) a 1935 (Sudeste).

terça-feira, 29 de maio de 2012

Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais.
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar.

Almada Negreiros, Reconhecimento à Loucura

sexta-feira, 27 de abril de 2012

"Com o corpo apaga-se o que nele se iluminou" ??



"Pensar um corpo. A inserção nele do espírito que nele se incendeia. Pensar no eu que o personaliza e na separação dos dois à hora da desintegração. (...) Ao fim de uma vida um corpo está cheio de sinais do que lhe aconteceu, do que em cada dia lhe põe a marca de uma presença (...) O último inquilino de um corpo é o eu em que ele é"  
Vergílio Ferreira, Pensar, 271, p.191
Por 2012, o Ano Europeu do Envelhecimento Activo e após o espectáculo Maior, coreografado por Clara Andermatt.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Tudo aquilo que não se pode partilhar acaba desfeito em átomos.

Virgínia Woolf, Mrs. Dalloway, trad. de M.J. Freire de Andrade, Clube do Autor, Lisboa 2011