Coimbra, 12 de Julho de 1953 - Esta Universidade única desgraçou-nos. Se fosse obrigada a dialogar, a argumentar, a defender-se, teria de ser subtil, ágil e audaz. Assim, pôs o capelo e a borla, alheou-se da realidade no alto da sua colina dogmática, e o país, rasteiro, em baixo, foi repetindo o cantochão. E de tal modo se acostumou à sebenta, à mnemónica, ao ritmo do chouto coimbrão, que, apesar dos esforços de Lisboa e do Porto, o humanismo português continua a ter uma andadura de cortejo doutoral, oco, barroco e charameleiro.
De vez em quando, uma ou outra consciência tresmalhada tenta reagir, é certo. Mas ninguém lhe dá crédito. Se tal acontecesse, diante das razões dum Garret ou dum Eça, cada ouvinte teria de rasgar a sua própria carta de bacharel, ou a do pai, ou a do filho. E não há nada mais sagrado do que um pergaminho selado a garantir a nossa maioridade intelectual, ou a da família.
Miguel Torga, Diário, Vols. I-VIII (1941-1959), 2ªedição integral, Publicações D.Quixote, Lisboa 1999, p.700.
"Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve", Vergílio Ferreira, Escrever
domingo, 1 de julho de 2012
segunda-feira, 25 de junho de 2012
A “ideologia portuguesa”, por Vergílio Ferreira
Em 1977 Vergílio Ferreira sobre a “ideologia portuguesa”. Espantosa e dolorosamente actual.
“Decerto que não é o mando que está no nosso horizonte – e ainda bem; mas não deve estar também a submissão. E se tal submissão é evidente, quando ao nosso destino o detêm mãos alheias, é já menos evidente quando se obscurece a consciência de que o temos, o devemos ter, nas nossas mãos. Porque o não perdemos apenas quando de facto o perdemos, mas ainda quando nos perdemos dele e nele deixamos de nos reencontrar. Não deixa de ser nosso apenas quando ele é já de outrem, mas ainda quando não o reconhecemos para o assumir e continuar. Porque esquecermo-nos de nós é correr o risco de que outros nos encontrem … (…) O mínimo que de nós podemos exigir é assim a sensatez. Parecerá um pouco excessivo, talvez, misturar o nome puro do grande poeta [Camões] à perturbação por que passamos. Porque ela desenvolve-se não apenas ou não bem numa dimensão de idealidade ou de grandeza, mas numa esfera do elementar. É mesmo grave, decerto, ou um pouco despropositado que, esquecidos do elementar, pensemos apenas no que o transcende, que, esquecidos do mais urgente, nos fixemos no que o excede, ainda que a isso julguemos mais importante. É grave assim que a um problema imediatamente económico, nós sobreponhamos um problema de ideologia. Determinados por esquemas ideológicos, enquistados nos termos de uma doutrinação, valorizando acima de tudo a nossa paixão política, ou seja a paixão de nós – porque a política, ou certa política, contra o que possa parecer, é uma paixão solitária – nós recusamo-nos muitas vezes, ou quase sempre, a pensar no que lhe subjaz, nós recusamo-nos a considerar o que a excede, nós recusamo-nos sobretudo a admitir o seu erro, ainda que a realidade a desminta. Como os medievos em face de Aristóteles, se os factos põem em causa a nossa doutrina, tudo podemos admitir, excepto que esteja errada. Porque o que está em causa somos nós. E nós, obviamente, somos exactos como um axioma …” (15-16)
[Vergílio Ferreira "Da Ausência, Camões" (discurso nas comemorações oficiais do 10 de Junho, 1977), em Camões e a Identidade Nacional, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1983]
segunda-feira, 18 de junho de 2012
"Floresceu, teria dito o jardineiro, se tivesse aberto a porta; se tivesse entrado, em qualquer uma daquelas noites de antanho, e o encontrasse a escrever; se o tivesse encontrado a rasgar o que escrevera; se o tivesse encontrado a terminar uma obra-prima às três da manhã, saindo a correr para calcorrear as ruas, e visitar igrejas, e jejuar num dia, e beber no outro, a devorar Shakespeare, Darwin, A História da Civilização e Bernard Shaw"
Mrs Dalloway, Virginia Woolf
Mrs Dalloway, Virginia Woolf
quarta-feira, 13 de junho de 2012
Os olhos rasos de água
Cansado de ser homem durante o dia inteiro
chego à noite com os olhos rasos de água.
Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,
entrar dentro de ti como num bosque.
É a hora de fazer milagres:
posso ressuscitar os mortos e trazê-los
a este quarto branco e despovoado,
onde entro sempre pela primeira vez,
para falarmos das grandes searas de trigo
afogadas a luz do amanhecer.
Posso prometer uma viagem ao paraíso
a quem se estender ao pé de mim,
ou deixar uma lágrima nos meus olhos
ser toda a nostalgia das areias
Eugénio de Andrade, in As palavras interditas
Cansado de ser homem durante o dia inteiro
chego à noite com os olhos rasos de água.
Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,
entrar dentro de ti como num bosque.
É a hora de fazer milagres:
posso ressuscitar os mortos e trazê-los
a este quarto branco e despovoado,
onde entro sempre pela primeira vez,
para falarmos das grandes searas de trigo
afogadas a luz do amanhecer.
Posso prometer uma viagem ao paraíso
a quem se estender ao pé de mim,
ou deixar uma lágrima nos meus olhos
ser toda a nostalgia das areias
Eugénio de Andrade, in As palavras interditas
terça-feira, 12 de junho de 2012
quarta-feira, 30 de maio de 2012
tal e qual
Pára-me de repente o Pensamento...
— Como se de repente sofreado
Na Douda Correria... em que, levado...
— Anda em Busca... da Paz... do Esquecimento
— Pára Surpreso... Escrutador... Atento
Como pára... um Cavalo Alucinado
Ante um Abismo... ante seus pés rasgado...
— Pára... e Fica... e Demora-se um Momento....
Vem trazido na Douda Correria
Pára à beira do Abismo e se demora
E Mergulha na Noute, Escura e Fria
Um Olhar d’Aço, que na Noute explora...
— Mas a Espora da dor seu flanco estria...
— E Ele Galga... e Prossegue... sob a Espora!
Publicado em várias revistas literárias, com ligeiras alterações, de 1900 (O Portugal) a 1935 (Sudeste).
terça-feira, 29 de maio de 2012
Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?
Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais.
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar.
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?
Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais.
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar.
Almada Negreiros, Reconhecimento à Loucura
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