segunda-feira, 2 de julho de 2012

vou com ele na tua órbita


Mozart - Flute Concerto No. 2 in D, K. 314 / K. 285d [complete]


"É um concerto para oboé e orquestra KV314 (285d), é um concerto para Mónica, que giro. Primeiro o oboé entra muito tímido, encolhido e em bicos de pés, na grande massa orquestral. Depois a orquestra põe-se a olhar para ele - donde veio este miúdo? e ele faz umas tantas piruetas. (...) O oboé deve estar a fazer o flique-flaque e a roda e a orquestra espantada a ver.
Querida. Quanto tu eras mais poderosa quando parecias mais frágil. A força do efémero. Da graça leve. Do que se esgueira do combate mas lhe corta os abastecimentos. A força de uma criança está na imensidão do seu possível sem nada ainda a possibilitá-lo - e então a orquestra deixa o oboé brilhar e ele entusiasma-se. Depois a orquestra entra no jogo. Como te amo. Entra no jogo numa espécie de desafio. E abafa-o, sufoca-o, outra vezes retira-se encantada a ouvi-lo. E liberto em si com um espaço largo para a sua liberdade, que garoto traquinas.
A orquestra afasta-se mais e o oboé sozinho longamente, como ele brinca, dança, vejo-te, vejo-te. No espaço da Sé, no ginásio e eu grito-te Mónica, Mónica. Passa um vento, vou com ele na tua órbita. Mónica. Como te quero.
Mas a orquestra regressa, é o segundo andamento, suponho. Há uma harmonia que os envolve a todos, o oboé mais adulto integra-se ordeiro no conjunto. Mas sempre tão triste. De vez em quando ouço-o, a voz já crescida de galispo. Mas por vezes esquece-se, volta à brincalhotice, às suas cabriolas de garoto. Vejo-o escapar-se à orquestra, a orquestra apanha-o, ele safa-se de novo num jogo de enleio mútuo de caça ao caçador.
Até que toda a orquestra põe fim às suas diabruras, o oboé é absorvido, integrado e levado lá para dentro. Deve doer-se ainda, já o não ouço. É um instrumento triste, deve ter sido órfão de pai e mãe. Digo-o baixo o no teu nome. Mónica. Entardece devagar na minha memória, vem aí a noite sobre o mundo. O teu nome. Vou repeti-lo até. Um sorriso fatigado. O teu súbito esplendor. Adormecer."

Em nome da terra, Vergílio Ferreira

domingo, 1 de julho de 2012

uma ou outra consciência tresmalhada

Coimbra, 12 de Julho de 1953 - Esta Universidade única desgraçou-nos. Se fosse obrigada a dialogar, a argumentar, a defender-se, teria de ser subtil, ágil e audaz. Assim, pôs o capelo e a borla, alheou-se da realidade no alto da sua colina dogmática, e o país, rasteiro, em baixo, foi repetindo o cantochão. E de tal modo se acostumou à sebenta, à mnemónica, ao ritmo do chouto coimbrão, que, apesar dos esforços de Lisboa e do Porto, o humanismo português continua a ter uma andadura de cortejo doutoral, oco, barroco e charameleiro.
De vez em quando, uma ou outra consciência tresmalhada tenta reagir, é certo. Mas ninguém lhe dá crédito. Se tal acontecesse, diante das razões dum Garret ou dum Eça, cada ouvinte teria de rasgar a sua própria carta de bacharel, ou a do pai, ou a do filho. E não há nada mais sagrado do que um pergaminho selado a garantir a nossa maioridade intelectual, ou a da família.



Miguel Torga, Diário, Vols. I-VIII (1941-1959), 2ªedição integral, Publicações D.Quixote, Lisboa 1999, p.700.



segunda-feira, 25 de junho de 2012

A “ideologia portuguesa”, por Vergílio Ferreira

Em 1977 Vergílio Ferreira sobre a “ideologia portuguesa”. Espantosa e dolorosamente actual.
“Decerto que não é o mando que está no nosso horizonte – e ainda bem; mas não deve estar também a submissão. E se tal submissão é evidente, quando ao nosso destino o detêm mãos alheias, é já menos evidente quando se obscurece a consciência de que o temos, o devemos ter, nas nossas mãos. Porque o não perdemos apenas quando de facto o perdemos, mas ainda quando nos perdemos dele e nele deixamos de nos reencontrar. Não deixa de ser nosso apenas quando ele é já de outrem, mas ainda quando não o reconhecemos para o assumir e continuar. Porque esquecermo-nos de nós é correr o risco de que outros nos encontrem …  (…) O  mínimo que de nós podemos exigir é assim a sensatez. Parecerá um pouco excessivo, talvez, misturar o nome puro do grande poeta [Camões] à perturbação por que passamos. Porque ela desenvolve-se não apenas ou não bem numa dimensão de idealidade ou de grandeza, mas numa esfera do elementar. É mesmo grave, decerto, ou um pouco despropositado que, esquecidos do elementar, pensemos apenas no que o transcende, que, esquecidos do mais urgente, nos fixemos no que o excede, ainda que a isso julguemos mais importante. É grave assim que a um problema imediatamente económico, nós sobreponhamos um problema de ideologia. Determinados por esquemas ideológicos, enquistados nos termos de uma doutrinação, valorizando acima de tudo a nossa paixão política, ou seja a paixão de nós – porque a política, ou certa política, contra o que possa parecer, é uma paixão solitária – nós recusamo-nos muitas vezes, ou quase sempre, a pensar no que lhe subjaz, nós recusamo-nos a considerar o que a excede, nós recusamo-nos sobretudo a admitir o seu erro, ainda que a realidade a desminta. Como os medievos em face de Aristóteles, se os factos põem em causa a nossa doutrina, tudo podemos admitir, excepto que esteja errada. Porque o que está em causa somos nós. E nós, obviamente, somos exactos como um axioma …” (15-16)
[Vergílio Ferreira "Da Ausência, Camões" (discurso nas comemorações oficiais do 10 de Junho, 1977), em Camões e a Identidade Nacional, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1983]

segunda-feira, 18 de junho de 2012

"Floresceu, teria dito o jardineiro, se tivesse aberto a porta; se tivesse entrado, em qualquer uma daquelas noites de antanho, e o encontrasse a escrever; se o tivesse encontrado a rasgar o que escrevera; se o tivesse encontrado a terminar uma obra-prima às três da manhã, saindo a correr para calcorrear as ruas, e visitar igrejas, e jejuar num dia, e beber no outro, a devorar Shakespeare, Darwin, A História da Civilização e Bernard Shaw"

Mrs Dalloway, Virginia Woolf

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Os olhos rasos de água

Cansado de ser homem durante o dia inteiro
chego à noite com os olhos rasos de água.
Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,
entrar dentro de ti como num bosque.

É a hora de fazer milagres:
posso ressuscitar os mortos e trazê-los
a este quarto branco e despovoado,
onde entro sempre pela primeira vez,
para falarmos das grandes searas de trigo
afogadas a luz do amanhecer.

Posso prometer uma viagem ao paraíso
a quem se estender ao pé de mim,
ou deixar uma lágrima nos meus olhos
ser toda a nostalgia das areias

Eugénio de Andrade, in As palavras interditas

terça-feira, 12 de junho de 2012

Mas como fazer durar
até ao último instante
esta boca, este sol?

É preciso amá-la,
paciente e alta,
onde a chama canta.

Amá-la. Até ao fim.
Até ser dança.

Eugénio de Andrade, "Matéria Solar", Poesia, Rosto Editora, Abril 2011, p.379

quarta-feira, 30 de maio de 2012

tal e qual

Pára-me de repente o Pensamento...
— Como se de repente sofreado
Na Douda Correria... em que, levado...
— Anda em Busca... da Paz... do Esquecimento

— Pára Surpreso... Escrutador... Atento
Como pára... um Cavalo Alucinado
Ante um Abismo... ante seus pés rasgado...
— Pára... e Fica... e Demora-se um Momento....

Vem trazido na Douda Correria
Pára à beira do Abismo e se demora
E Mergulha na Noute, Escura e Fria

Um Olhar d’Aço, que na Noute explora...
— Mas a Espora da dor seu flanco estria...
— E Ele Galga... e Prossegue... sob a Espora!

Publicado em várias revistas literárias, com ligeiras alterações, de 1900 (O Portugal) a 1935 (Sudeste).