terça-feira, 24 de julho de 2012

Não a ouço

"- Às vezes calha falar de ti, digo que és 'bibliotecário geral'. As pessoas riem.
- Porque é que riem?
- Não sei, acham piada, levares assim a vida, para aqui enterrado em livros velhos. Acham divertido.
- Também achas, tu.
- É cómico.
e no entanto, porquê? ela sabia.
(...)
- É cómico pensar que uma pessoa levou a vida toda assim, trabalhada a traça e a bafio. Dá vontade de rir, que é que queres? a gente pensar que lá fora há coisas, acontecem coisas, revoluções, e gente que nasce e que morre, e alegria, e ar livre (...) E de repente pensar que há um tipo, que és tu, que levou a vida a cheiriscar os palimpsestos. É de rebentar a rir, hás-de concordar.
Não a ouço. Olho a tarde para lá da varanda, a montanha escura do horizonte.
(...)
- Como é que te não chegou ainda a notícia de que um livro é de um tempo que já morreu? de que é do tempo da memória e que a memória findou? Escrever um livro imagina o tempo de vida que se perdeu. E lê-lo devagar, com notas à margem. E guardá-lo em estantes como um cadáver num jazigo.
- Tu escreves para jornais.
- É diferente. Escreve-se um artigo como se toma um café. As pessoas lêem e deitam fora. Se alguém o apanha, é para uma necessidade de momento. Para embrulhar castanhas. Para utilizar na retrete quando não há papel.
(...)
- O tempo do livro é o tempo do artesanato. Coisa destinada a um indivíduo, fabricada com vagares, consumida com vagares. Não temos vagares, estamos cheios de pressa. O tempo do livro - o das saias compridas, do coco e da bengala, dos espartilhos com varas de baleia, dos colarinhos engomados até ao queixo. Tu ainda usas bengala?
(...)
- O tempo do livro é o tempo da morte e nós estamos vivos e cheios de coisas a fazer. O tempo do livro é o da imaginação trabalhosa e nós estamos cheios de realidade. Descreve esta sala e vê o tempo que se leva, tu a escreveres e eu a ler. Mas eu olho a sala e sei logo tudo. O tempo do livro é o do carro de bois. Tenho mais que fazer.
Olho a minha filha, sorri sempre. (...) Nada tenho a dizer, ela sorri ainda.
Sou do tempo dos mortos, os mortos não falam."

Vergílio Ferreira, Para Sempre, Quetzal Editores, Lisboa 2008

terça-feira, 17 de julho de 2012

Fado

Hoje a grande desgraça não fui eu:
Foi um velho navio que partiu
E me deixou no cais
Sem nenhum sonho mais.

Vila Nova, 7 de Outubro de 1936 - Aqui na minha frente a folha branca do papel, à espera; dentro de mim esta angústia, à espera: e nada escrevo. A vida não é para se escrever. A vida - esta intimidade profunda, este ser sem remédio, esta noite de pesadelo que nem se chega a saber ao certo porque foi assim - é para se viver, não é para se fazer dela literatura.

Miguel Torga, Diário  vols. I a VIII 1941-1959,  Publicações Dom Quixote, p.41-42.


sexta-feira, 13 de julho de 2012

silêncio nulo

"Ouvir as horas dizer-nos que existimos com um sorriso deliciado e incrédulo. Ver o Tempo pintar o mundo e achar o quadro não só falso mas vão.
Pensar em frases que se contradigam, falando alto em sons que não são sons e cores que não são cores. Dizer - e compreendê-lo, o que é aliás impossível - que temos consciência de não ter consciência, e que não somos o que somos. Explicar isto tudo por um sentido oculto e paradoxo que as coisas tenham no seu aspecto outro-lado e divino, e não acreditar demasiado na explicação para que não hajamos de as abandonar.
Esculpir em silêncio nulo todos os nossos sonhos de falar. Estagnar em torpor todos os nossos pensamentos de acção."

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, Assírio&Alvim. p.374

segunda-feira, 2 de julho de 2012

vou com ele na tua órbita


Mozart - Flute Concerto No. 2 in D, K. 314 / K. 285d [complete]


"É um concerto para oboé e orquestra KV314 (285d), é um concerto para Mónica, que giro. Primeiro o oboé entra muito tímido, encolhido e em bicos de pés, na grande massa orquestral. Depois a orquestra põe-se a olhar para ele - donde veio este miúdo? e ele faz umas tantas piruetas. (...) O oboé deve estar a fazer o flique-flaque e a roda e a orquestra espantada a ver.
Querida. Quanto tu eras mais poderosa quando parecias mais frágil. A força do efémero. Da graça leve. Do que se esgueira do combate mas lhe corta os abastecimentos. A força de uma criança está na imensidão do seu possível sem nada ainda a possibilitá-lo - e então a orquestra deixa o oboé brilhar e ele entusiasma-se. Depois a orquestra entra no jogo. Como te amo. Entra no jogo numa espécie de desafio. E abafa-o, sufoca-o, outra vezes retira-se encantada a ouvi-lo. E liberto em si com um espaço largo para a sua liberdade, que garoto traquinas.
A orquestra afasta-se mais e o oboé sozinho longamente, como ele brinca, dança, vejo-te, vejo-te. No espaço da Sé, no ginásio e eu grito-te Mónica, Mónica. Passa um vento, vou com ele na tua órbita. Mónica. Como te quero.
Mas a orquestra regressa, é o segundo andamento, suponho. Há uma harmonia que os envolve a todos, o oboé mais adulto integra-se ordeiro no conjunto. Mas sempre tão triste. De vez em quando ouço-o, a voz já crescida de galispo. Mas por vezes esquece-se, volta à brincalhotice, às suas cabriolas de garoto. Vejo-o escapar-se à orquestra, a orquestra apanha-o, ele safa-se de novo num jogo de enleio mútuo de caça ao caçador.
Até que toda a orquestra põe fim às suas diabruras, o oboé é absorvido, integrado e levado lá para dentro. Deve doer-se ainda, já o não ouço. É um instrumento triste, deve ter sido órfão de pai e mãe. Digo-o baixo o no teu nome. Mónica. Entardece devagar na minha memória, vem aí a noite sobre o mundo. O teu nome. Vou repeti-lo até. Um sorriso fatigado. O teu súbito esplendor. Adormecer."

Em nome da terra, Vergílio Ferreira

domingo, 1 de julho de 2012

uma ou outra consciência tresmalhada

Coimbra, 12 de Julho de 1953 - Esta Universidade única desgraçou-nos. Se fosse obrigada a dialogar, a argumentar, a defender-se, teria de ser subtil, ágil e audaz. Assim, pôs o capelo e a borla, alheou-se da realidade no alto da sua colina dogmática, e o país, rasteiro, em baixo, foi repetindo o cantochão. E de tal modo se acostumou à sebenta, à mnemónica, ao ritmo do chouto coimbrão, que, apesar dos esforços de Lisboa e do Porto, o humanismo português continua a ter uma andadura de cortejo doutoral, oco, barroco e charameleiro.
De vez em quando, uma ou outra consciência tresmalhada tenta reagir, é certo. Mas ninguém lhe dá crédito. Se tal acontecesse, diante das razões dum Garret ou dum Eça, cada ouvinte teria de rasgar a sua própria carta de bacharel, ou a do pai, ou a do filho. E não há nada mais sagrado do que um pergaminho selado a garantir a nossa maioridade intelectual, ou a da família.



Miguel Torga, Diário, Vols. I-VIII (1941-1959), 2ªedição integral, Publicações D.Quixote, Lisboa 1999, p.700.