De novo no melhor lugar do mundo, lá dentro, onde se cozia o pão e se faziam os pastéis de massa tenra, onde o avô batia nas pipas e assustava dizendo que estava um cabritinho preso lá dentro. De novo na salinha onde o saxofone estava pendurado e por onde o sol jorrava e se comiam torradas com manteiga que tinham definitivamente outro sabor. De novo, na cozinha, no forno onde saíram os primeiros bonecos biscoitos, de novo na escadaria, no quarto onde dormia, na cama dos avós onde a avó a empoleirava e a vestia e penteava com aquela palmeirinha no cimo da cabeça. De novo, em frente à porta medonha que conduzia ao sótão, onde nunca podia ir.
É tudo tão mais pequeno e estreito do que julgava... Mas como?
Baixou-se, de cócoras, e tornou a olhar em volta - então compreendeu - fui eu que cresci, não o melhor lugar do mundo que encolheu. Tinha 5 anos quando foi arrancada daquela nuvem de bem-estar e amor carinhoso que envolveu a infância, mas 26 anos depois, afinal, o melhor lugar do mundo está quase intacto.
São, de novo, as escadas onde caiu, rebolando, com a sorte de ser amparada pelos braços da mãe e da avó. É o relógio de pé, da sala grande, que metia medo e que agora, à luz do sol da tarde de dezembro, a faz sorrir das infantilidades dos cinco anos.
O jardim, no entanto, destoa, está triste e sombrio. A senhora amiga que vive na casa está mal, como esteve o avô há tantos anos atrás: a doença de que sofre fá-la esquecer-se de tudo, até de si mesma, como não deixar as flores, as heras, o baloiço caído, esquecidos também?
A aura da casa é a mesma, embora a lareira não esteja acesa, nem o odor de torradas encha o ar.
Mas há uma arca à espera, uma arca fechada: tem pano que se destinava a fazer e bordar lençóis para a "menina". A menina abre a arca, tem lençóis brancos e panos crus, tem um quadro de croché maravilhoso, feito por aquelas saudosas mãos, quando a menina nasceu. Tem a data, a hora, o peso, o tamanho da menina. A menina deixa as lágrimas soltarem-se.
No quarto que era dos pais estão as violas esquecidas e o bandolim que o avô segurara nos braços dizendo - Um dia será teu.
O bandolim no regaço, as memórias em catadupa, um incrível aperto de saudades.
A menina, a menina! Agora são duas, mas a menina mais nova observa tudo com a curiosidade e o amor ao desconhecido, buscando as memórias a partir das fotografias que conhece. Pudéssemos catapultá-la para esse mundo caloroso, à sombra protectora do Mosteiro, e enchêssemos de novo a casa, de lareira acesa, e os abraços e os sorrisos dos avós.
Mas eles estão lá, no melhor lugar do mundo, estão lá e estão aqui e estão sempre connosco, seja no legado que guardamos, nas tulipas rosa que enfeitam a jarra (só vinte anos depois damos conta de partilhar a predileção pela mesma flor...), seja na nossa memória diária, nos traços que deles herdámos.
Os avós não desaparecem, eles simplesmente tornam-se invisíveis, mas continuam a sorrir e a dar-nos a mão*
"Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve", Vergílio Ferreira, Escrever
sexta-feira, 30 de dezembro de 2016
terça-feira, 14 de junho de 2016
Sem palavras.
quinta-feira, 3 de março de 2016
A invenção de cada hora que nos vibra nos ossos
Ao Sam
"Toda a minha vida disponível a dediquei à literatura. (...) muita coisa sacrifiquei a isso. Mas não me queixo. Mesmo que eu seja realmente um escritor menor, como muitos me têm repetido para a hipótese de eu me esquecer. Não é o ser maior ou menor que está em causa: é só o ser eu. E é em literatura que sou", disse Vergílio Ferreira em Conta-Corrente II, 1977.
É isto. Não importa ser-se maior ou menor, importa ser-se! e eu não sei ser ou fazer outra coisa que não estudar e investigar literatura, filosofia, dar aulas de dança e dançar. :)
Évora, 2 de Fevereiro de 2016, nas Comemorações do Centenário de Vergílio Ferreira
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