sábado, 28 de dezembro de 2013

A palavra «resignação» não tem boa reputação.

A Coragem da Resignação  

5 de Março - A palavra «resignação» não tem boa reputação. Lembra atitude devota, passividade, lágrima ao canto do olho. E todavia, não é isso. Em face dos limites de uma condição, da morte e do nada que vem nela, que outro nome dar à aceitação calma, à fria impassibili­dade? A revolta em tal caso pode falar ao nosso orgulho, à imagem de grandeza que queiramos se tenha de nós. Mas é uma imagem ridícula. Ela responde ainda, não ao reconhecimento do que nos espera, mas a uma notícia recente e não assimilada que disso nos dessem. A coragem não está na atitude espectacular, mas na serena e recolhida e modesta aceitação. Temos assim tendência a julgar herói o que enfrenta a morte com atitudes de grandiosidade, não o que a enfrenta no seu recanto, em silêncio e discrição. Mas o espec­táculo é ainda uma forma de compensar o desastre da morte — é ainda uma forma de uma parcela de nós se recusar a morrer. Quem morre resignado morre todo por inteiro, nada ele assim recusa do que a morte lhe exige.

Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente 2, Bertrand Editora, Venda Nova 1990, p.14.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013


“Ne cherche pas les limites de la mer. Tu les détiens. Elles te sont offertes au même instant que ta vie évaporée. Le sentiment, comme tu sais, est enfant de la matière; il est son regard admirablement nuancé.
 René Char, Le rempart des brindilles.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

E esta é a dança do ser

"O Minotauro" -- Sophia de Mello Breyner Andresen

Em Creta
Onde o Minotauro reina
Banhei-me no mar

Há uma rápida dança que se dança em frente de um toiro
Na antiquíssima juventude do dia

Nenhuma droga me embriagou me escondeu me protegeu
Só bebi retsina tendo derramado na terra a parte que pertence aos deuses

De Creta
Enfeitei-me de flores e mastiguei o amargo vivo das ervas
Para inteiramente acordada comungar a terra
De Creta
Beijei o chão como Ulisses
Caminhei na luz nua

Devastada era eu própria como a cidade em ruína
Que ninguém reconstruiu
Mas no sol dos meus pátios vazios
A fúria reina intacta
E penetra comigo no interior do mar
Porque pertenço à raça daqueles que mergulham de olhos abertos
E reconhecem o abismo pedra a pedra anémona a anémona flor a flor
E o mar de Creta por dentro é todo azul
Oferenda incrível de primordial alegria
Onde o sombrio Minotauro navega

Pinturas ondas colunas e planícies
Em Creta
Inteiramente acordada atravessei o dia
E caminhei no interior dos palácios veementes e vermelhos
Palácios sucessivos e roucos
Onde se ergue o respirar da sussurrada treva
E nos fitam pupilas semi-azuis de penumbra e terror
Imanentes ao dia --
Caminhei no palácio dual de combate e confronto
Onde o Príncipe dos Lírios ergue os seus gestos matinais

Nenhuma droga me embriagou me escondeu me protegeu
O Dionysos que dança comigo na vaga não se vende em nenhum mercado negro
Mas cresce como flor daqueles cujo ser
Sem cessar se busca e se perde e se desune e se reúne
E esta é a dança do ser

Em Creta
Os muros de tijolo da cidade minoica
São feitos com barro amassado com algas
E quando me virei para trás da minha sombra
Vi que era azul o sol que tocava o meu ombro

Em Creta onde o Minotauro reina atravessei a vaga
De olhos abertos inteiramente acordada
Sem drogas e sem filtro
Só vinho bebido em frente da solenidade das coisas --
Porque pertenço à raça daqueles que percorrem o labirinto
Sem jamais perderem o fio de linho da palavra.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

"Leurs mains parlent, et leurs pieds semblent écrire", Paul Valéry, L'Âme et la Danse


A Morte do Cisne

Anna Pavlova foi uma grande bailarina do século XIX, talvez não por possuir uma técnica perfeitamente exímia, mas pela sua candura, expressividade, zelo e entusiasmo que conferia à sua dança. A sua figura era débil, mas graciosa e colocava nos seus movimentos toda a energia e maleabilidade.
A sua figurinha grácil inspirou a Mikail Fokine um bailado a solo (com música composta por Camille Saint-Saëns em 1886, uma parte do Carnaval dos Animais), coreografia que construiu defronte do espelho com Pavlova a imitar e ele a corrigir simplesmente pormenores dos braços e das poses.
Considerava ainda esta pequena criação, com a bailarina em pontas, uma resposta aos críticos que o haviam acusado de trabalhar a dança em pés descalços (a influência de Isadora Duncan começava a tornar-se notória).
Anna dançou A Morte do Cisne milhares de vezes em toda a sua vida, pelo mundo inteiro, em tournées.

Anna Pavlova com um dos cisnes do seu jardim

"a dança podia e devia satisfazer não apenas os olhos mas, através da vista, devia penetrar na alma" ainda que sejam apenas 2 minutos de espectáculo. Fica a gravação (já de 1925) para fazer jus às minhas palavras.

A Morte do Cisne, por Anna Pavlova
 
T. Ribas (1962), Pavlova, Colecção Grandes Biografias, Editorial Aster, Lisboa. 

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

"A subida está dentro de nós mesmos"

Foi Luna Andermatt, bailarina e coreógrafa, que o disse numa entrevista, em Dezembro de 2011. Faleceu ontem, dia 5 de Novembro, com 87 anos de idade.
Pioneira na dança em Portugal, cofundou a Companhia Nacional de Bailado, apesar de todas as dificuldades para tornar a dança, o ballet, finalmente, numa profissão, uma arte como as restantes.

"À loucura queremos dar equilíbrio
Ao medo queremos dar confiança e fé
Ao egoísmo opomos a dádiva de nós mesmos"

O espectáculo inaugural da Companhia realizou-se a 24 de Maio de 1961, no Teatro Nacional de São Carlos com a presença do Presidente da República. Dançou-se "As Sílfides", "Pássaro Azul", O festim da aranha" e "Vodka". O programa abria com o poema acima transcrito.

Tive a honra de a ver dançar a 26 de Abril de 2012, na minha cidade, Coimbra, no Teatro Académico de Gil Vicente, no espectáculo Maior, coreografado pela filha, Clara Andermatt. 


Notícia sobre o bailado Maior e fotografias aqui

Luna Andermatt escreveu nas suas Notas de Juventude sobre o Ser a Dança que "a Dança é desafio ao impossível e é rigor infatigável da ponta dos pés ao fundo da alma".

domingo, 3 de novembro de 2013

Há mulheres

à João

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes
e calma
.

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, in OBRA POÉTICA (Ed. Caminho, 2010)

sábado, 19 de outubro de 2013

100 anos de Vinicius de Moraes




O Haver, como proferido no vídeo

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai! eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo que existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de sua inútil poesia e de sua força inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será e virá a ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de uma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do grande medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada.





O Haver,
publicado no livro "Jardim Noturno - Poemas Inéditos", Companhia das Letras - São Paulo, 1993, pág. 17.

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória.
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.



15/04/1962

domingo, 29 de setembro de 2013


Le petit prince fit l'ascension d'une haute montagne. Les seules montagnes qu'il eût jamais connues étaient les trois volcans qui lui arrivaient au genou. Et il se servait du volcan étein comme d'un tabouret. "D'une montagne haute comme celle-ci, se dit-til donc, j'apercevrai d'un coup toute la planète et tous les hommes...". Mais il n'aperçut rien que des aiguilles de roc bien aiguisées.

"Bonjour", dit-il à tout hasard.
- Bonjour... Bonjour... Bonjour..., répondit l'écho.
-Qui êtes-vous? dit le petii prince.
-Qui êtes-vous?... qui êtes-vous?... qui êtes-vous?..., répondit l'écho.
-Soyez mes amis, je suis seul, dit-il.
-Je suis seul... je suis seul..., je suis seul..., répondit l'écho.


imagem aqui


Antoine de Saint-Éxupéry, Le Petit Prince, folio, 1999, p.67.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Desencontro  

Só quem procura sabe como há dias
de imensa paz deserta; pelas ruas
a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias,
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas,
alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste. Nenhum gesto
a um gesto corresponde; olhar nenhum
perfura a placidez, como de incesto,

de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum -
- que mesmo o que se encontra não se encontra.

Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Aos homens constipados
Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.
  
Poema de António Lobo Antunes, In 'Sátira aos Homens quando estão com Gripe'
 
Lisboa, 26 de Julho de 2013, Curso de Narrativa e Medicina - Ler: o texto do corpo e o corpo do texto, FLUL.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Eu & a Dançar



à Sophia e aos Bundolos

Festa fim de ano lectivo The Stream, Aveiro. Fotografia de RP. Fábio&Ana, Rumba

Festa fim de ano lectivo The Stream, Aveiro. Fotografia de RP. Fábio&Ana, Cha Cha



Um eu.
Um eu em movimento.
O meu eu mais tenso e mais liberto.
O meu corpo.
O corpo dele.
O homem é a moldura que deve sempre realçar a mulher.
Há o meu espaço e o espaço dele, invioláveis.
Há o eu.
Há o meu sorriso.
Eu eu eu.
Peço desculpa
mas é mesmo isto.


Lisboa, 25 de Julho de 2013, Curso de Narrativa e Medicina - Ler: o texto do corpo e o corpo do texto, FLUL.

domingo, 9 de junho de 2013

o meu pedrógão: é necessário amar os pinheiros bravos


   Foi aqui, na Praia do Pedrógão, a sul da Figueira da Foz, que comecei a andar, no verão de 1985.
   Foi nesta praia que comecei a beber café, que tomei os primeiros licores no Restaurante Central, foi aqui que aprendi a gostar de peixe em criança, a encher a barriga de fruta e a dourar a pele todos os verões. Foi aqui que andei descalça pela rua fora até ficar com os pés negros de alcatrão e lá veio o meu pai, o Menino Rui Pedro, como é conhecido nestas bandas desde pequeno, com a água-raz lavar-me os pés pretos e cheios de areia.
   Nesta casa, no número 4 da Aquilino Ribeiro, muita história se conta ainda das gerações anteriores. Foi o meu avô paterno Rui que a mandou construir, médico em Monte Redondo e aldeias em redor.
   O escritor Aquilino Ribeiro inspirou-se nesta zona, do Pedrógão ao Coimbrão, para redigir o maravilhoso romance que é a Batalha sem Fim (cujo enredo já referi e citei nos inícios deste blogue). O exemplar belíssimo que tenho do meu avô data de 1944. O próprio Miguel Torga vários verões aqui passou, os meus pais recordam-se dele: instalava-se normalmente na casinha de azulejos azuis, por detrás do Posto de Turismo.

   Estamos a nove de Junho de 2013 e o meu Pedrógão já não é o mesmo. Há mais de três anos que o Restaurante Central, que há dois anos ainda foi uma Loja de Chineses, está encerrado. Os amigos, antigos donos, emigraram para o Luxemburgo. As lojas fecharam. O próprio mercado que abriu hoje, só torna a receber clientes na 4ª feira, e apenas pela manhã.
   O Posto de Turismo foi vandalizado e já não reabre. A caixa multibanco foi assaltada e não vai ser reposta. Ao fundo da nossa rua, erguem-se as fundações de um enorme edifício, a Igreja Nova e a Morgue, obras embargadas, dinheiro deitado fora, dinheiro mal gerido. Em vez de uma boa piscina, boas infraestruturas de praia, lojinhas apelativas para o turismo, não! investe-se numa nova Igreja (pois já existe outra na estrada principal), cujas dimensões bárbaras para uma terra tão pequena só nos deixam mais incrédulos e indignados.

   Mas heis que surge uma pequena animação: ouvem-se motores roucos e familiares, são os motards! Mas não são uns motards quaisquer! Elas são cerca de 100 e passam lindas, antigas, algumas ferrujentas, mas de colecção: um cortejo felicíssimo de Famel, Vespas e outras que não conseguimos identificar.

   Estamos a nove de Junho de 2013, a época balnear já abriu, é domingo, amanhã é feriado, o que significaria uma enchente nesta praia para um fim de semana prolongado. E, no entanto, ninguém para almoçar... a crise sente-se em todo o lado. Batem as 13h30...quer dizer... na verdade, nem o sino na igreja toca! 
   O dono do Restaurante Santola, perto do edifício da Cáritas, na entrada norte da praia, não tem uma mesa sequer a almoçar. Em tom meio jocoso, mas de fronte pesada e tristonha, diz-nos que o Pedrógão "parece uma daquelas aldeias dos filmes de cowboys, em que filmam uma película e depois abandonam a terra"... 

   Quais cowboys solitários vamos caminhando para norte, o Menino Rui Pedro e eu, pois o Pedrógão está-nos no sangue. Avançamos pela rua à qual deram o nome do meu avô Rui.

   Só se ouve o mar e embrenhamo-nos entre os Pinheiros Bravos que emolduram a recta mais a norte do Pedrógão. Só ouves o teu respirar e os teus próprios pensamentos, o mar ressoa grave a baixinho, e sentes a Terra sob os teus pés. A crise. Não admira que as faces envelheçam, se enruguem com a tristeza dos tempos em que vivemos. Não se vê ninguém.
   Mas estes Pinheiros...estes Pinheiros são especiais e devem continuar a ser protegidos e admirados: como não são capazes de se erguer devido à força das areias e dos ventos marítimos, contornam a situação, curvam para um lado, dançam para o outro, adaptam-se e crescem na mesma, com igual força de vida e robustez. É por isso que não devemos perder o sorriso. Há sempre um cortejo que momentâneamente passará para alegrar o dia. O sol há-de espreitar de novo e o mar não deixa nunca de cantar.

   É necessário, em condições adversas, adaptarmo-nos.
   É necessário amar os Pinheiros Bravos.

ASC
Praia do Pedrógão, 9 de Junho de 2013


Pinheiros Bravos, fotografia minha
Placa-legenda dos Pinheiros Bravos, fotografia de RP

quinta-feira, 6 de junho de 2013

O Avô Virgílio e eu, fotografia de Rui Pedro (Vila da Batalha, 1989)



-Jura-me que nunca hás-de envelhecer- disse-te.
-Juro.
-E que nunca hás-de morrer.
-Sim.
-E que a beleza estará sempre contigo. E a glória. E a paz.
-Juro. 

Vergílio Ferreira, Em nome da terra, Quetzal, Lisboa 2009, p.15

segunda-feira, 3 de junho de 2013

E a vida dizer que sim


Vergílio Ferreira e "A obsessão de se perdurar", Conta-corrente IV, p.339.

Não deixes que te abandone o milagre de escrever. Não deixes que a miséria do teu corpo escureça com a sua sombra a pequena luz da tua escrita. Não deixes que o ódio, o desprezo, a ignomínia alastrem com o seu veneno pela maior glória do que é razão de estares vivo. [...]. Não deixes que morra em ti a vida que ainda és no poderes assemelhar-te à divindade que ficou dos deuses que morreram. [...]. E terás achado a maior razão de teres nascido.

Pensar, frag. 325, pp.195-196.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Entre a asa e o voo



PALAVRA QUE DESNUDO

Entre a asa e o voo
nos trocámos
como a doçura e o fruto
nos unimos
num mesmo corpo de cinza
nos consumimos
e por isso
quando te recordo
percorro a imperceptível
fronteira do meu corpo
e sangro
nos teus flancos doloridos
Tu és o encoberto lado
da palavra que desnudo
Mia Couto, in Raíz de Orvalho e outros poemas (Ed. Caminho, 2009)

quarta-feira, 22 de maio de 2013

dance, dance, otherwise we are lost (Pina Bausch)

my ballroom dance shoes

"- A vida? Bom. Nunca tinha pensado nisso. Qualquer coisa talvez a que é bom destruir o peso? (...) Porque enfim, eu sou bailarina! Que mais pode interessar-me que bailar?
Saberia ele o que isso significava?
-  Você sente a vida em cor, em estrutura, penso eu. Eu sinto-a onde ela começa: no meu corpo.
Conhecia-a, como dizer-lhe?, nos seus rins, nas suas pernas, na densidade da carne que havia de apodrecer. Aí a possuía, no limiar da sua aparição, nas linhas da beleza percorridas pelo seu corpo.
- Depois, eu conheço o valor do instante, sei que o milagre não dura. Bom Hoelderlin: "só por instantes o homem aguenta a plenitude divina. Passa-se a vida depois a sonhar com eles..."
Poderia ele imaginar como era exaltante construir a beleza com aquela coisa frágil que era um corpo? Trabalhar meses inteiros para conseguir, num instante, um clarão de eternidade, antes que aquele bocado de carne apodrecesse?
- Viver o milagre no exacto momento em que danço e que passa, e que esquece. Esgotar o instante, como esgoto as sapatilhas de ballet num espectáculo. Não deixar rasto.
(...)
Mas só a dança era puro movimento.
- Vocês, os das artes, das letras, ainda acreditam no futuro. Trabalham com palavras, com as cores que os outros hão-de um dia recuperar. Que é que isso quer dizer? Eu salvo-me e condeno-me só comigo. Jogo tudo nesta coisa que há-de apodrecer amanhã. Mas é belo saber que nada vai restar de mim, que eu própria e o meu público acidental esgotamos totalmente a minha arte! (...) Um corpo é tão inimitável! (...) O prazer é bem mais nosso e profundo e único se... O sabor de um vinho é outro, se quebrarmos a taça."

Vergílio Ferreira, Cântico Final, Círculo de Leitores, 1982, pp.60-61


Porque a capacidade de encantamento...essa não envelhece!
Paris, tarde ensolarada de finais de Abril 2013

"Près de Notre Dame
Parfois couve un drame
Oui mais à Paname
Tout peut s'arranger
Quelques rayons
Du ciel d'été
L'accordéon
D'un marinier
L'espoir fleurit
Au ciel de Paris"

Édith Piaf, Sous le ciel de Paris

quarta-feira, 24 de abril de 2013

donnez moi mes lunettes




Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, desenho de Júlio Pomar (Aqui)


   Mon cher António Mora, dit-il, Proserpine me veut dans son royaume, il est temps de partir, il est temps de quitter ce théâtre d'images que nous appelons notre vie. 
   Si vous saviez les choses que j'ai vues avec les lunettes de l'âme, j'ai vu les contreforts d'Orion, là-haut dans l'espace infini, j'ai marché avec ces pieds terrestres sur la Croix du Sud, j'ai traversé des nuits infinies comme une comète brillante, les espaces interstellaires de l'imagination, la volupté et la peur, et j'ai été homme, femme, viellard, petite fille, j'ai été la foule des grandes boulevards des capitales de l'Occident, j'ai été le placide Bouddha de l'Orient dont j'enviais le calme et la sagesse, j'ai été moi-même et les autres, tous ceux que je pouvais être, j'ai connu les honneurs et les déshonneurs, les enthousiasmes et les épuisements, j'ai traversé les fleuves et les montagnes inaccessibles, j'ai regardé les troupeaux paisibles et j'ai reçu sur ma tête le soleil et la pluie, j'ai été femelle en chaleur, j'ai été le chat qui joue dans ma rue, j'ai été soleil et lune, et tout cela parce que la vie ne suffit pas. 
   Mais à present ça suffit, mon cher António Mora, vivre ma vie a été vivre mille vies, je suis fatigué, ma chandelle s'est consumée, je vous en prie, donnnez moi mes lunettes.
   António Mora ajusta sa tunique. Prométhée frappait en lui.

Antonio Tabucchi, Les trois derniers jours de Fernando Pessoa, um délire, Librairie XXe siècle, Éditions du Seuil, 1994.

sexta-feira, 29 de março de 2013

visita-me enquanto não envelheço

Vigílias
Quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer
a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrerem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas

um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz

quero morrer
com uma overdose de beleza

e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta esse coração
esse
solitário caçador

Al Berto, Vigílias,
Assírio & Alvim, 2004.

domingo, 24 de março de 2013

domingo no alentejo

Castelo do Marvão, foto de LM
Estrada Marvão-Valência, foto da própria

Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!


José Régio

sábado, 16 de março de 2013

Escada horizontal. Cilindro curvo.

A nave de Alcobaça

Alcobaça, 13 de Janeiro de 2013, foto de AS&LM

Vazia, vertical, de pedra branca e fria,
longa de luz e linhas, do silêncio
a arcada sucessiva, madrugada
mortal da eternidade, vácuo puro
do espaço preenchido, pontiaguda
como se transparência cristalina
dos céus harmónicos, espessa, côncava
de rectas concreção, ar retirado
ao tremor último da carne viva,
pedra não-pedra que em pilares se amarra
em feixes de brancura, geometria
do espírito provável, proporção
da essência tripartida, ideograma
da muda imensidão que se contrai
na perspectiva humana. Ambulatório
da expectação tranquila.
Nave e cetro,
e sepulcral resíduo, tempestade
suspensa e transferida. Rosa e tempo.
Escada horizontal. Cilindro curvo.
Exemplo e manifesto. Paz e forma
do abstracto e do concreto.
Hierarquia
de uma outra vida sobre a terra. Gesto
de pedra branca e fria, sem limites
por dentro dos limites. Esperança
vazia e vertical. Humanidade.

Jorge de Sena, Araquara, 27/11/1962

segunda-feira, 4 de março de 2013

"-Olha- queres ouvir-me?"

Ao Tó João


"Hoje as aves nem cantam" (Carolina)

"(...)

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

(...)


Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves"


Eugénio de Andrade, Poema à Mãe, in Poesia, Modo de ler, 2011, p.58

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

um templo, um poema

Imagem aqui
O Mosteiro da Batalha

"(...)

E ei-lo aí que se levanta
Com majestosa grandeza,
Daquela gentil proeza
Sublime recordação:
Ei-lo aí aos céus erguido,
Como um colosso gigante
Apontando ao caminhante
O sítio da grande acção.

Altos pórticos, lavores
D'ostentosa arquitectura,
Coruchéus d'imensa altura
Roçando a fronte nos céus;
Dentro, a nobre majestade
Do santuário profundo,
Onde, extinta a voz do mundo,
Só lembra o passado, e Deus.

Sobre os góticos pilares
Brilham trémulos fulgores,
Que das vidraças de cores
Entorna a mística luz.
Tudo cala, mas, se o órgão
Por entre as naves ressoa,
Tudo se anima, e apregoa
O santo Verbo da cruz.

Então a mente se enleva
Nas torrentes da harmonia
Que da abóbada vazia
Retumbam pela multidão;
E, abrasada nos fulgores
Dos vivos, sagrados lumes,
Sobre as asas dos perfumes
Revoa à etérea mansão.

Se tudo cai em silêncio,
Cai em si mesma, e medita,
Recordando a data escrita
Nesses góticos umbrais.
Pensa então nos heroísmos,
E crenças de meia idade,
Combatendo a escuridade
Daqueles tempos feudais;

(...)

E pensa também no artista,
Nesse arquitecto inspirado,
Que um poema sublimado
Ali traçou a cinzel;

(...)

Que as gerações passando reverentes
Possam, volvendo as páginas da história,
Largas eras saudar, curvando as frentes,
Esse padrão d'imerredoira glória!"


Soares de Passos, Poesia, Colecção Mnésis, Assírio Bacelar 1983, pp.165-171.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

A vida zumbe à volta/ das pétalas fechadas dos sentidos

Epithalamium

 I

As persianas todas abre e o dia deixa entrar
como um ruído ou um mar.
Que da inútil sombra nenhum recanto
os pensamentos da noite constranja
ou o confronto traga
de algumas coisas serem tristes.
Porque hoje é o dia de todos se alegrarem.
É manhã! É a plena manhã! Inteiro
o sol nasce do abismo onde
por trás da oculta orla da sombra do horizonte
ontem à noite mergulhou.
(...)

Fernando Pessoa, "Epithalamium", English Poems III, tradução de Natália Correia, in Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e SatíricaDos Cancioneiros Medievais à actualidade, Antígona&Frenesi, Lisboa 1999, p.350.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Pretextos para fugir do real

A uma luz perigosa como água
De sonho e assalto
Subindo ao teu corpo real
Recordo-te
E és a mesma
Ternura quase impossível
De suportar
Por isso fecho os olhos
(O amor faz-me recuperar incessantemente o poder da
provocação. É assim que te faço arder triunfalmente
onde e quando quero. Basta-me fechar os olhos)
Por isso fecho os olhos
E convido a noite para a minha cama
Convido-a a tornar-se tocante
Familiar concreta
Como um corpo decifrado de mulher
E sob a forma desejada
A noite deita-se comigo
E é a tua ausência 
Nua nos meus braços

              *

Experimento um grito
Contra o teu silêncio
Experimento um silêncio
Entro e saio
De mãos pálidas nos bolsos



Alexandre O´Neill
Poesias Completas
1951/1981
Biblioteca de Autores Portugueses
Imprensa Nacional  Casa da Moeda

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Mar, Mar e Mar

Tu perguntas, e eu não sei,
eu também não sei o que é o mar.

É talvez uma lágrima caída dos meus olhos
ao reler uma carta, quando é de noite.
Os teus dentes, talvez os teus dentes,
miúdos, brancos dentes, sejam o mar,
um mar pequeno e frágil,
afável, diáfano,
no entanto, sem música.

É evidente que a minha mãe me chama
quando uma onda e outra onda e outra
desfaz o seu corpo contra o meu corpo.
Então o mar é carícia,
luz molhada onde desperta
meu coração recente.

Às vezes o mar é uma figura branca
cintilando entre os rochedos.
Não sei se fita a água
ou se procura
um beijo entre conchas transparentes.

Não, o mar não é nardo nem açucena.
É um adolescente morto
de lábios abertos aos lábios da espuma.
É sangue,
sangue onde a luz se esconde
para amar outra luz sobre as areias.

Um pedaço de lua insiste,
insiste e sobe lenta arastando a noite.
Os cabelos da minha mãe desprendem-se,
espalham-se na água,
alisados por uma brisa
que nasce exactamente no meu coração.
O mar volta a ser pequeno e meu,
anémona perfeita, abrindo nos meus dedos.

Eu também não sei o que é o mar.
Aguardo a madrugada, impaciente,
os pés descalços na areia.


Eugénio de Andrade, "As palavras interditas", in Poesia, Modo de Ler, Abril 2011, pp.83-84

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

eras novo ainda

mal sabia reconhecer os teus própios erros

e o uso violento que de noite eu fazia deles

esta cama de minerais acesos

escrevo para despertar a fera de sol pelo corpo

escorrem aves de cuspo para a adolescência da boca

e junto ao mar existe ainda aquele lugar perdido

onde a memória te imobilizou

enumero as casas abandonadas ao sangue dos répteis

surpreendo-te quando me surpreendes

pela janela espio a paisagem destruída

e o coração triste dos pássaros treme

quando escrevo mar

o mar todo entra pela janela

onde debruço a noite do rosto tocado...me despeço 
 

Al Berto
[eras novo ainda] 

Infelizmente, não consigo decifrar a que obra pertence


Pelo aniversário de Al Berto, Alberto Raposo Pidwell Tavares, nascido a 11 de Janeiro de 1948, na minha cidade, Coimbra. Não é à toa que somos do mesmo dia, com 37 anos de diferença: ambos compreendemos tão bem o mar.