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domingo, 9 de junho de 2013

o meu pedrógão: é necessário amar os pinheiros bravos


   Foi aqui, na Praia do Pedrógão, a sul da Figueira da Foz, que comecei a andar, no verão de 1985.
   Foi nesta praia que comecei a beber café, que tomei os primeiros licores no Restaurante Central, foi aqui que aprendi a gostar de peixe em criança, a encher a barriga de fruta e a dourar a pele todos os verões. Foi aqui que andei descalça pela rua fora até ficar com os pés negros de alcatrão e lá veio o meu pai, o Menino Rui Pedro, como é conhecido nestas bandas desde pequeno, com a água-raz lavar-me os pés pretos e cheios de areia.
   Nesta casa, no número 4 da Aquilino Ribeiro, muita história se conta ainda das gerações anteriores. Foi o meu avô paterno Rui que a mandou construir, médico em Monte Redondo e aldeias em redor.
   O escritor Aquilino Ribeiro inspirou-se nesta zona, do Pedrógão ao Coimbrão, para redigir o maravilhoso romance que é a Batalha sem Fim (cujo enredo já referi e citei nos inícios deste blogue). O exemplar belíssimo que tenho do meu avô data de 1944. O próprio Miguel Torga vários verões aqui passou, os meus pais recordam-se dele: instalava-se normalmente na casinha de azulejos azuis, por detrás do Posto de Turismo.

   Estamos a nove de Junho de 2013 e o meu Pedrógão já não é o mesmo. Há mais de três anos que o Restaurante Central, que há dois anos ainda foi uma Loja de Chineses, está encerrado. Os amigos, antigos donos, emigraram para o Luxemburgo. As lojas fecharam. O próprio mercado que abriu hoje, só torna a receber clientes na 4ª feira, e apenas pela manhã.
   O Posto de Turismo foi vandalizado e já não reabre. A caixa multibanco foi assaltada e não vai ser reposta. Ao fundo da nossa rua, erguem-se as fundações de um enorme edifício, a Igreja Nova e a Morgue, obras embargadas, dinheiro deitado fora, dinheiro mal gerido. Em vez de uma boa piscina, boas infraestruturas de praia, lojinhas apelativas para o turismo, não! investe-se numa nova Igreja (pois já existe outra na estrada principal), cujas dimensões bárbaras para uma terra tão pequena só nos deixam mais incrédulos e indignados.

   Mas heis que surge uma pequena animação: ouvem-se motores roucos e familiares, são os motards! Mas não são uns motards quaisquer! Elas são cerca de 100 e passam lindas, antigas, algumas ferrujentas, mas de colecção: um cortejo felicíssimo de Famel, Vespas e outras que não conseguimos identificar.

   Estamos a nove de Junho de 2013, a época balnear já abriu, é domingo, amanhã é feriado, o que significaria uma enchente nesta praia para um fim de semana prolongado. E, no entanto, ninguém para almoçar... a crise sente-se em todo o lado. Batem as 13h30...quer dizer... na verdade, nem o sino na igreja toca! 
   O dono do Restaurante Santola, perto do edifício da Cáritas, na entrada norte da praia, não tem uma mesa sequer a almoçar. Em tom meio jocoso, mas de fronte pesada e tristonha, diz-nos que o Pedrógão "parece uma daquelas aldeias dos filmes de cowboys, em que filmam uma película e depois abandonam a terra"... 

   Quais cowboys solitários vamos caminhando para norte, o Menino Rui Pedro e eu, pois o Pedrógão está-nos no sangue. Avançamos pela rua à qual deram o nome do meu avô Rui.

   Só se ouve o mar e embrenhamo-nos entre os Pinheiros Bravos que emolduram a recta mais a norte do Pedrógão. Só ouves o teu respirar e os teus próprios pensamentos, o mar ressoa grave a baixinho, e sentes a Terra sob os teus pés. A crise. Não admira que as faces envelheçam, se enruguem com a tristeza dos tempos em que vivemos. Não se vê ninguém.
   Mas estes Pinheiros...estes Pinheiros são especiais e devem continuar a ser protegidos e admirados: como não são capazes de se erguer devido à força das areias e dos ventos marítimos, contornam a situação, curvam para um lado, dançam para o outro, adaptam-se e crescem na mesma, com igual força de vida e robustez. É por isso que não devemos perder o sorriso. Há sempre um cortejo que momentâneamente passará para alegrar o dia. O sol há-de espreitar de novo e o mar não deixa nunca de cantar.

   É necessário, em condições adversas, adaptarmo-nos.
   É necessário amar os Pinheiros Bravos.

ASC
Praia do Pedrógão, 9 de Junho de 2013


Pinheiros Bravos, fotografia minha
Placa-legenda dos Pinheiros Bravos, fotografia de RP