sexta-feira, 26 de julho de 2013

Aos homens constipados
Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.
  
Poema de António Lobo Antunes, In 'Sátira aos Homens quando estão com Gripe'
 
Lisboa, 26 de Julho de 2013, Curso de Narrativa e Medicina - Ler: o texto do corpo e o corpo do texto, FLUL.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Eu & a Dançar



à Sophia e aos Bundolos

Festa fim de ano lectivo The Stream, Aveiro. Fotografia de RP. Fábio&Ana, Rumba

Festa fim de ano lectivo The Stream, Aveiro. Fotografia de RP. Fábio&Ana, Cha Cha



Um eu.
Um eu em movimento.
O meu eu mais tenso e mais liberto.
O meu corpo.
O corpo dele.
O homem é a moldura que deve sempre realçar a mulher.
Há o meu espaço e o espaço dele, invioláveis.
Há o eu.
Há o meu sorriso.
Eu eu eu.
Peço desculpa
mas é mesmo isto.


Lisboa, 25 de Julho de 2013, Curso de Narrativa e Medicina - Ler: o texto do corpo e o corpo do texto, FLUL.