sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

o silêncio é que sim

A Voz do Silêncio

"A pessoa que sou é única, limitada a um nascer e a um morrer, presente a si mesma e que só à sua face é verdadeira, é autêntica, decide em verdade a autenticidade de tudo quanto realizar. Assim a sua solidão, que persiste sempre talvez como pano de fundo em toda a comunicação, em toda a comunhão, não é 'isolamento'. Porque o isolamento implica um corte com os outros; a solidão implica apenas que toda a voz que a exprima não é puramente uma voz da rua, mas uma voz que ressoa no silêncio final, uma voz que fala do mais fundo de si, que está certa entre os homens como em face do homem só. O isolamento corta com os homens: a solidão não corta com o homem. A voz da solidão difere da voz fácil da fraternidade fácil em ser mais profunda e em estar prevenida."

Vergílio Ferreira, in 'Espaço do Invisível I'

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

apenas escrevo


Razão de ser

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece.
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

Paulo Leminski

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

e um gosto que não sei de mar e mel

De ti só quero o cheiro dos lilases
e a sedução das coisas que não dizes
De ti só quero os gestos que não fazes
e a tua voz de sombras e matizes

De ti só quero o riso que não ouço
quando não digo os versos que compus
De ti só quero a veia do pescoço
vampira que já sou da tua luz

De ti só quero as rosas amarelas
que há nos teus olhos cor das ventanias
De ti só quero um sopro nas janelas
da casa abandonada dos meus dias

De ti só quero o eco do teu nome
e um gosto que não sei de mar e mel
De ti só quero o pão da minha fome
mendiga que já sou da tua pele.

Rosa Lobato Faria, in Memória do Corpo (Textual Ed, 1993), in A Noite inteira já não chega - Poesia 1983-2010 (Guimarães, 2012)

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Prends garde à toi

À mon cher frère


À l'aube rose et pluvieuse, mon frère m'a demandé:
As tu peur de revenir à aimer quelqu'un?

Non - j'ai répondu - mais je sais que je ne vais aimer personne. J'ai perdu la confiance, je ne crois pas à un seul amour, je ne peux pas croire que les personnes ne vivent que sous des mensonges.
J'ai tout perdu sauf que, à la fin, je resterai toujours libre.


domingo, 9 de fevereiro de 2020

círculo

"ANA
é outro nome diz 
o nome Ana 
ensinando a ler alguém fico à espera de aprender 
Ana eu queria ir ao interior Ana eu queria ir 
Ana eu queria ir ao interior Ana eu queria ir 
Pra saber, pra saber finalmente"

 (Letra de Guta Naki)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Gira, a entreter a razão



AUTOPSICOGRAFIA
O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa, Ortónimo



domingo, 2 de fevereiro de 2020

Buscar a temperança

Diluir vinho com água. Buscar a temperança nas próprias emoções.
Na selva e catadupa de sentimentos em avalanche que foram estes tempos, não olvidar nunca o essencial de si mesmo.





TASH SULTANA - JUNGLE