domingo, 25 de dezembro de 2022

Vem tu, Poesia, vem

Philos-the-cat in Xmas Nostalgia (24 dez 2022)




Natal à Beira-Rio

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
a trazer-me a água da infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
que ficava, no cais, à noite iluminado…

Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra me envolvia
mais da terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia…
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
precisam de Jesus, do Mar, ou de Poesia?

(David Mourão Ferreira, Cancioneiro de Natal, 1971)

domingo, 11 de dezembro de 2022

Que o luar te amanheça

Recordar o poeta e declamador José Carlos Pereira Ary dos Santos 
(7 de Dezembro de 1937 – 18 de Janeiro de 1984)




Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca tardando-lhe o beijo morria.
Quando à boca da noite surgiste na tarde qual rosa tardia
Quando nós nos olhámos, tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos, unidos, ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia.

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça
E o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria
Ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza!

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram.
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite se deram
E entre os braços da noite, de tanto se amarem, vivendo morreram.

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça
E o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria
Ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza!

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso se é pranto
É por ti que adormeço e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!

in As Palavras das Cantigas

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

na neve branca e fofa

Como numa tela cinematográfica, passei no recorte da janela e vi-te sentada no bar.
sorrias e o mundo parou. a vida suspendeu-se num fôlego que parecia uma eternidade como as cenas em slow motion dos filmes e o olhar cruzou-se, fulminante aparição.
depois morreste. ou matei-te. não me lembro. morreste, veio no jornal.
o avião despenhou-se no cimo dos Alpes suíços, a explosão quebrou esse corpo amado em pedacinhos que caíram na neve branca e fofa aqui e ali e não mais me sorriste. só vejo o vermelho a salpicar a neve. um desperdício, a paisagem arruinada.

não mais acordei com o teu olhar verde na fronha da almofada, nunca mais ouvi o teu riso feliz nas madrugadas de netflix que nem assim te tiravam a energia para nos encontrarmos na escuridão e arrancar ao outro uma nota mais, um suspiro, "eu vou-me..." avisavas-me ao ouvido com a boca entreaberta, os cabelos espalhados na almofada e, simplesmente, no estalido frenético e num tsunami coreográfico, o teu corpo explodia e inundavas o mundo de prazer.

morreste.... ou foi a abrir na N125... não me lembro, matei-te numa páscoa ensolarada, o carro ficou irreconhecível, pois foi, uma amálgama de peças a arder contigo, embate frontal, sem hipótese. 
o teu sorriso...
e volta e meia voltas do Hades, nas noites de insónia, e passo na janela e o tempo pára naquele recorte fotográfico em que o olhar se cruzou.

caminho no mundo dos vivos e não desejo qualquer tipo de catábase, mantém-te no Letes, dorme e sossega.