domingo, 12 de dezembro de 2021

ser olhado, amado e conhecido

Faleceu um amigo de repente, de manhã.

e, na homilia de hoje, o tema do terceiro domingo de advento foi a Alegria.

complexo poder sentir tudo isto num só dia, mas esta Alegria é uma alegria que não é de instagramer, de gargalhada fútil e superficial, é uma alegria de sentir a companhia e o apoio do Senhor no caminho, ainda eu não sei bem o que isso significa. e o meu amigo faleceu e não o verei mais ao balcão com aquele sorriso pândego ébrio, no ambiente de maresia.

estava o meu corpo lá e a mente vagueava, por todo o lado, pelos textos que iam lendo, pelos (a)braços abertos do Cristo de madeira, pelo hossana que se escutava nas vozes límpidas dos jovens. 

sei por que venho aqui: a música enleva-me.

de repente, a mente vagueando, o padre disse "e cito de novo o poema de Sophia de Mello Breyner", 

orelhas em riste, ah espera, que isto é o que me faz sentido, misturar livros, dissolver palavra na palavra, saborear cada sílaba e a poesia de cada texto, já que o texto é sagrado, qual deles? não são todos? imortalização de palavras, escrevo para ser dizia o meu Vergílio Ferreira. eu escrevo para ver se sai de mim esta ansiedade que não me deixa dormir há meses uma noite sem pesadelos.

oh, Sophia! Sophia na boca dos Jesuítas, porque quem caminha com Deus é olhado, amado e conhecido. que assim seja.

"Escuto mas não sei

Se o que oiço é silêncio
Ou deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco"

Sophia de Mello Breyner

terça-feira, 26 de outubro de 2021

podemos ter várias vidas






por muito que nos abracem, nenhum abraço é semelhante àquele abraço reconfortante, em que parece que todas as nossas peças partidas se fundem e (re)colam magicamente.

segundo diz a Tokyo ( La Casa de Papel), podemos ter várias vidas.

já não cremos em nada. mas não deixa de ser uma das melhores séries que já vi. 

acreditemos em nós próprios, pois vidas não há mais. 








terça-feira, 5 de outubro de 2021

look at your life through heaven's eyes




Aos meus irmãos, Leonor e Roberto



"ela voltou-se suavemente de lado e mostrou-me o dia, preso numa parede cristalina de sono. Apresentou os seus segredos nocturnos ao mundo de olhos verdes e a mim",

in Aníbal, por Ross Leckie.


Quando te vês pelo olhar de um irmão e ele tem a capacidade de captar a tua essência, observas algo que se calhar não te aperceberas antes. E é maravilhoso sentires que te rodeiam seres humanos com abraços calorosos e amigos do coração.

Photos by Roberto Gil (nascer do sol, 2 de outubro 2021, Sto António da Neve, Trevim, Serra da Lousã)






 

domingo, 8 de agosto de 2021

cada camarinha adocicada pelo sol...

A Nossa Sra dos Aflitos é a padroeira da Praia do Pedrógão. 

Nunca me deu para estas coisas - tinha dois avôs opostos, um perfeitamente ateu e contra o sistema religioso, outro devoto da Rainha Santa e participante activo, enquanto pôde, da procissão e das celebrações do 4 de Julho de Coimbra - mas elas exalam, sem dúvida, um mistério interessante de observar.

Aqui, na praia, levavam o andor pela marginal e pela rua perpendicular à nossa, todavia a praça enchia-se de música pimba, para contraste incrédulo perante a minha (falta de) compreensão.

O que mais apreciei, quando por cá estava nas festas, foi a procissão das velas à meia noite, abrir as portadas do quarto, espreitá-los a caminhar solenemente, sob o morrinhar característico daqui e este odor forte a maresia.

Mas envolver-me não consigo, encontro o divino apenas nos grãos de areia e nas ondas do mar, nos pinheiros da mata que outrora conferia sombra. Já passaram anos desde o incêndio. 

O tempo passa demasiado depressa, mas aqui saboreio cada sílaba, cada gota salgada, cada camarinha adocicada pelo sol...



domingo, 1 de agosto de 2021

os sentipensantes e o trabalho em série

Depois de ler a frase de Eduardo Galeano, deu-se aquela aparição pensante que fere como um relâmpago a rasgar o tronco de uma árvore e ilumina tudo em seu redor.

Os sentipensantes pensam e sentem sempre de uma vez, todas as vezes, não separam emoção de razão, nem o corpo da mente (e é isso possível? pergunto-me como sentipensante desde que me conheço, descoberto finalmente um belíssimo adjectivo para o que sempre me regeu).

Ser sentipensante é maravilhoso, é dar de alma e coração, mãos abertas, mas é sofrer com a rejeição de quem apenas racionaliza a vida e nos atira com frieza as suas decisões descartadas de amor e emoção.

Nós, os sentipensantes, viemos a este mundo para ser felizes, pelo menos eu vim, os meus pais não me deram a vida para não fazer dela o melhor que eu puder e isso passa por ser feliz, por me nutrir, por me dar o que mais amo e estar rodeada de pessoas que, como eu, sejam sentipensantes também e se valorizem e valorizem o seu quinhão de vida. A moira, essa porção de tempo que é dado a cada um de nós nesta vida para percorrermos o nosso caminho, não é para desperdiçar. Já o fatum não creio muito nele, o livre-arbítrio está acima dessa ideia de destino que deus(es) preconizaram para nós. E talvez eles me observem lá do Olimpo, e revirem os olhos e batam com a palma da mão na testa, frustrados com as minhas escolhas. Muito possível, e rio-me à gargalhada com essa ideia.

Os dias rolam, madrugada após madrugada. Nem tudo são rosas e o peso das escolhas começa a ferir os braços e as costas, já para não deixar de lado a frustração emocional de trabalhar num local onde há colegas que fazem questão de fazer bulliyng e me levam a mente e o corpo de volta à Ana pequenina da infância. Mas esta, à época, não sabia que o problema não estava nela e sim neles e não soube responder. Hoje sabe que aquelas manifestações são os problemas que as pessoas têm consigo próprias e que em nada retira o meu valor próprio, mas mói e causa mau ambiente.

E juntamos a isto trabalhar num local onde se pratica precisamente aquilo que é o contrário do que defendo. Sou pela medicina narrativa, o utente ser uma pessoa e não mais uma cama, um todo holístico, tido por inteiro. Ali não, entram utentes de 5 em 5 minutos, o relógio dominador a contar ao segundo, quase não tenho tempo de conversar, de os escutar, é trabalho em série, parece uma fábrica de produção em massa de tratamentos que, na rapidez e na indiferença, nada fazem.

Há calor humano, sim, e eu abraço-o, mas o tempo escorre-me das mãos, as campainhas tocam constantemente e até nos pesadelos me ferem os ouvidos, já ouvi resmungar e chamam-me à atenção com maus modos porque demoro muito com cada pessoa e nem dez minutos lhes posso dispensar.

Nasci para ajudar a cuidar o outro sim, mas não assim, não assim e, lá está, não consigo só racionalizar, a emoção está sempre presente, não consigo ver apenas como um biscate que me paga contas, estão em jogo pessoas doentes, com dores, seres humanos que merecem atenção e carinho. 

Quanto tempo arcarei com isto às costas se não compactuo de alma e coração? Além da fadiga de corpo, há uma fadiga emocional, uma ferida que abre a cada dia mais, pela frustração e o stress perante a injustiça.

oh, ser sentipensante é todo um mundo!






segunda-feira, 19 de julho de 2021

Ganhei o dia

Acordo com o nascer do sol para mais um dia.

Terei escolhido mal a vocação, deveria ter seguido a área da saúde desde sempre? Mas a base humanista serve-me tanto.

Morrinhava quando saí de casa, os cafés por abrir, a madrugada a deixar lugar à manhã.

O silêncio da clínica, as persianas ainda cerradas, o vazio que se encherá bem depressinha à medida que os ponteiros do relógio avançam.

É este o Presente, o Aqui e o Agora, mas as rotinas vão-se estabelecendo e conhece-se aos poucos o futuro próximo.

Às 2ªs, 4ªs e 6ªs vem a D. Celeste, sempre aprumada, o cabelo cinza bem arranjado, saúda-me sempre, "A Mna Ana, como está"?

A D. Alzira, pequenina e trigueira, quando me vê diz numa doce voz "Que Deus nosso Senhor lhe dê saúde". "A ambas", respondo eu, "a ambas, que eu não a quero ver cá muito tempo" e ela ri-se como um passarinho, como fazia a minha avó, mãe do meu pai.

O Sr. Eduardo vem ao fim da manhã, é um homenzarrão novo, com ar de motoqueiro e um vozeirão que se ouve na clínica inteira. Como faz tratamentos mais demorados, quando volto do almoço exclamo sorridente "Ainda aqui"? "É que eu gosto tanto disto", diz-me ele a rir. 

Às 3ªs e 5ªs, a delícia que é ver chegar o Sr. José, sempre sem pressa, mas sempre a querer fugir. Quer ir para a Figueira, onde tem uma casinha, quer ir para alto mar, pescar. O Sr José tem a pele tisnada pelo sol, o sorriso franco. Vou chamá-lo à entrada, medir-lhe a temperatura, "O Sr José quer vir comigo?" Responde sempre "Então não vou? Divorciava-me já!" e faz-me rir. Já me contou embevecido que foi doceiro toda a vida, fazia o chocolate, o ponto de caramelo, os bombons, as coberturas, agora não quer cozinhar nem por nada, só se os amigos lhe pedirem muito. "E conheci a minha mulher na doçaria", afirma ele, sorrindo feliz. Fala da vida, da filha, das coisas simples, do mar e do sol e há todo um oceano naquelas palavras.

Há outro senhor, do qual ainda não decorei o nome, cujos olhos são azuis cristalinos. Sempre que termino o tratamento, exclamo "Está novo!" e ouço-o a rir com gosto, "Estou estou!". Fala da mulher com ar triste. Ouvi-o partilhar com um terapeuta "Passei 50 anos da minha vida com ela e agora que ela está assim é que a vou deixar? Claro que não! Não me conhece, mas conheço-a eu". Não conheço a história, mas subentende-se. Disfarcei como pude, contudo as lágrimas apareceram nos beirais e salvou-me, neste caso único, a porcaria da máscara que já não suporto, para disfarçar o meu semblante. 

A Humanidade está aqui e quanto amor e bondade há no Homem!

São tantos os que desfilam naquele corredor, que desfilam as suas dores, os seus lamentos quando pergunto "Como passou?", mas depois saem sorridentes, mais leves talvez, imagino eu, quero eu acreditar que sim, nem que seja com o espírito reconfortado pelo abraço de um olhar meigo e de um "até amanhã" com a perspectiva e a fé nas melhoras. 

Depois, há a minha homónima. Ajudo-a a virar-se na marquesa, abraçamo-nos, ajudo-a a revestir-se do seu luto, depois dos tratamentos, calço-lhe os sapatos e chego-lhe a bengala. Encostou a testa à minha e confessou-me que adorava cantar. "Agora a voz já não me sai como saía", diz dolorida, "mas ainda canto e sobretudo toco viola. Fui professora de criançada toda a vida, oh como é bom!". Sorrio com o olhar, sorrio com o corpo todo, porque a máscara tira-nos a expressão partilhada das feições, e peço-lhe que não deixe de cantar, pelo menos para si mesma, se é algo que a conforta.

O conforto, penso, para muitas daquelas pessoas é o parco tempo que ali passam. Para a maioria talvez seja até dos poucos momentos do dia em que conversam com alguém. 

Como quando fiz voluntariado com as crianças do Hospital Pediátrico e da Acreditar, pergunto-me quem ajuda mais quem? Se sou eu (nós) que procuramos amenizar aquelas dores, físicas e de solidão, ou se são eles (os utentes), que me (nos) dão momentos de pura alegria e iluminação humana, seja num sorriso, numa mão que pousa no nosso braço, quando me apertam a mão reconhecidos por uma ninharia que lhes fiz. Sei bem que não ligo apenas as máquinas, nem os cronómetros que ditam o tempo de tratamento, sei que estar lá influencia, com o toque, o tom de voz, um "até já, já venho ter consigo", tudo detalhes que não se esquecem, mas ainda assim, chego ao final do dia com a sensação do tão pouco que tenho para oferecer e da quantidade de bençãos e amor e carinho que recebo. 

Hoje morrinhava, "Está fresquinho", ouvi dezenas de vezes pela manhã, mas ali há calor, calor humano. "A menina começou a trabalhar há pouco tempo aqui? Nunca me tinha tratado... Pois Deus lhe dê sorte que é tão novinha!". "Olhe que não, menina", disse eu que as chamo meninas e derretem-se todas, "olhe que não". "Então, não é? Não tem mais de 23 aninhos, me parece".

Uma sonora gargalhada ouviu-se em toda a clínica, por certo. E eu, eu ganhei o dia.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Parece um sonho

Parece um sonho


Parece um sonho que ela tenha morrido!
diziam todos... Sua viva imagem,
tinha carne!... E ouvia-se, na aragem,
passar o frêmito do seu vestido...

E era como se ela houvesse partido
e logo fosse regressar de viagem...
- até que em nosso coração dorido
a Dor cravava o seu punhal selvagem!

Mas tua imagem, nosso amor, é agora
menos dos olhos, mais do coração.
Nossa saudade te sorri: não chora...

Mais perto estás de Deus, como um anjo querido.
E ao relembrar-te a gente diz, então:
Parece um sonho que ela tenha vivido!

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Ao menos tu sê ave

Ergue-te de mim,
substância pura do meu canto.
Luz terrestre, fragrância.
Ergue-te, jasmim.

Ergue-te e aquece
a cal e a pedra,
as mãos e a alma.
Inunda, reina, amanhece.

Ao menos tu sê ave,
Primavera excessiva.
Ergue-te de mim:
canta, delira, arde.


Coração do Dia, Eugénio de Andrade


quinta-feira, 10 de junho de 2021

E é isto. Bom feriado.

Dia de Camões, dia da nossa língua, da minha língua vejo o mar, esta frase de Vergílio Ferreira, que nos faz percorrer a língua dentro da boca e depois vir saborear os lábios com a pontinha, como se acabássemos de mergulhar no mar e e trouxéssemos no corpo esse gosto maravilhoso do sal e a frescura arrepiante de sentir cada músculo acordado no mundo. Como um choque eléctrico que te percorre as fibras e te faz querer gritar "Eu", estás ali, és imortal por instantes, na plenitude assombrosa do teu eu-corpo nas ondas do mar, na areia molhada.

Pele de sol, Língua de sal, Olhos de mar - leu há pouco nesses chavões do Instagram. Mas... olha... reconhece-se.

Há dois verões que esse sabor parece quase longínquo, mas basta fechar os olhos para o sentir. Falta pouco.

Camões falava demasiado no amor. Tal como este blogue. Ah, mon chère, méprise, mon chère, méprise, de que serve? De que serve falar dele, de que serve o amor a não ser para o sentir? Bah. 

O Amor está, é, sente-se, é poderosíssimo,  e esse, que se sente e é, é o mais puro, o mais límpido, mas o ideal para ela é ser a transcendência emocional vivida na materialização mais humana que temos, seja pelo olhar, pelos lábios, pelo mais primário suor que se partilha num abraço sufocado.

Não vê um sem o outro. É uma cobra a mudar de pele. Não se reconhece, ainda. Falta pouco, deixa o tempo passar. A transcendência trocou-lhe as voltas. A inquietude do perguntar fervilha-lhe nas entranhas. Não!! acalma essa ansiedade, tiveste aquilo que sempre quiseste, que lias em Vergílio Ferreira e que pedias para ti, que tanto estudaste e escarrapachaste na tua tese de doutoramento, não foi? o assombro encontro, a aparição de ti a ti mesma... o espanto do eu, a dorida consciência de uma existência brutal que pode terminar num segundo, o divino em ti... não era o que querias ? pois agora aguenta.

olhos que não vêem, coração que não sente, o provérbio mais mentiroso e inadequado que alguém alguma vez se lembrou de escrevinhar.

Postou este poema em 2012... pareceu-lhe bem recordá-lo hoje de novo.

E é isto. Bom feriado.


segunda-feira, 31 de maio de 2021

Multiply it by infinity, and take it to the depth of forever, and you will still have barely a glimpse of what I'm talking about.


Meet Joe Black

Foi preciso chegar aos quase 36 anos e meio para ver este filme do início ao fim, com atenção. 

Não sei ainda se gostei, não sei se achei ridículos ou se adorei os olhares, pois alguns me pareceram exageradamente ingénuos, amadores. As personagens-tipo muito simplistas e as principais profundamente complexas, alguma linguagem corporal hesitante e demasiado teatral para um primeiro plano de câmara. 

E no entanto, quanto de nós, na vida real, fica efectivamente por dizer verbalmente e é o nosso corpo que o balbucia e deixa entrever os nossos pensamentos? um balancear de cabeça, um olhar pleno de dúvidas, um abraço apertado e, sobretudo, se falamos no tema maior do filme, o amor.

Contudo, a mensagem... a voz do Anthony Hopkings, um dinossauro a fazer do empresário William Parrish, que toma consciência da sua morte próxima e que observa a sua vida e se apercebe, feliz, ter dado tudo de si em cada momento e ter sentido as emoções em cada momento. 

E é esse o desejo que ele gostava de legar à filha mais nova, que ela sinta paixão, emoção na vida.


  • Joe Black I don't care Bill. I love her.

    William Parrish How perfect for you - to take whatever you want because it pleases you. That's not love.

    Joe Black Then what is it?

    William Parrish Some aimless infatuation which, for the moment, you feel like indulging - it's missing everything that matters.

    Joe Black Which is what?

    William Parrish Trust, responsibility, taking the weight for your choices and feelings, and spending the rest of your life living up to them. And above all, not hurting the object of your love.

    Joe Black So that's what love is according to William Parrish?

    William Parrish Multiply it by infinity, and take it to the depth of forever, and you will still have barely a glimpse of what I'm talking about.

    Joe Black Those were my words.

    William Parrish They're mine now.

 

terça-feira, 18 de maio de 2021

Carthago non delenda est

Que a couraça da raiva se dissipe, a garganta suavize e a tensão diminua. 

Só faz ranger os dentes de noite o que fica por dizer e o cuspo das palavras forma uma bola que se atravessa e corrompe a doçura do amor que jorra. A lágrima escorre. Como dizia o outro "não sei para onde vou, só sei que não vou por aí". 

Em boa verdade vos digo que pelo Amor é que vamos e nunca cegos pela raiva. 

"Não existe família perfeita. Não temos pais perfeitos ,não somos perfeitos, não nos casamos com uma pessoa perfeita nem temos filhos perfeitos. Temos queixas uns dos outros. Decepcionamos uns aos outros. Por isso, não há casamento saudável nem família saudável sem o exercício do perdão. O perdão é vital para nossa saúde emocional e sobrevivência espiritual. Sem perdão a família se torna uma arena de conflitos e um reduto de mágoas. Sem perdão a família adoece. O perdão é a assepsia da alma, a faxina da mente e a alforria do coração. Quem não perdoa não tem paz na alma nem comunhão com Deus. A mágoa é um veneno que intoxica e mata. Guardar mágoa no coração é um gesto autodestrutivo. É autofagia. Quem não perdoa adoece física , emocional e espiritualmente. É por isso que a família precisa ser lugar de vida e não de morte; território de cura e não de adoecimento; palco de perdão e não de culpa. O perdão traz alegria onde a mágoa produziu tristeza; cura, onde a mágoa causou doença".

Papa Francisco

domingo, 28 de março de 2021

Apesar de.

 "E umas das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi criadora de minha própria vida."

Clarice Lispector

quinta-feira, 18 de março de 2021

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

cada dia, cada noite e cada manhã

All I ask of you, Phantom of the Opera 

é linda a canção, ainda que persista um pouco na ideia do homem proteger mas, no geral, a mensagem de transversalidade é merecedora de atenção: prometer a verdade, ser abrigo um para o outro, partilhar um amor, uma vida, partilhar cada dia, cada noite e cada manhã.

é pedir muito? ainda esta semana uma amiga separou-se porque o ex companheiro afirmou que ela era exigente e têm um rebento de meses. 

agora a mulher é exigente só porque o homem não está habituado a assumir tarefas? quando apenas desejamos partilha fifty fifty e justa de acções, como numa equipa. 

dá Deus nozes a quem não tem dentes...



domingo, 31 de janeiro de 2021

do que é o amor nas noites de chuva

Ou tenho pesadelos ou não durmo. either way, o meu cérebro não descansa.
Só vi estes dois filmes uma vez. A Princesa Encantada e a Polegarzinha são do tempo da minha irmã, por volta do ano de 1994, tinha ela dois anos e eu nove.
Odiei ambos. 
No primeiro, os pais perguntam ao príncipe Derek por que razão quer casar com a princesa Odete e ele responde apenas porque ela é linda. E ela, a noiva to be pergunta-lhe "e além da beleza?" Ao que ele, com cara de parvo (sim, porque também sempre detestei o traço destes desenhos) responde: "e o que há mais?".
TXAPUM. Parece que se ouve aquelas buzinas dos concursos, quando um concorrente erra na resposta: WRONG!!!
Mais tarde, lá percebe o pobre homem que a Mulher até tem mais qualidades além da Beleza exterior. Mas há todo o cenário de princesa raptada e ter que beijar o amor da sua vida em 48 ou 72 horas ou, caso contrário, ela ficará sob a forma de cisne para sempre, blá blá blá. e o raio da música não me sai da cabeça desde madrugada. Ela espera, ele procura, toda a submissão feminina e etc etc "Que Deus me leve a onde você está" https://www.youtube.com/watch?v=hhWEIqPXyUs.
A Polegarzinha é uma miúda inocente, fofa e querida, pequenina claro está, que queria ser fada e ter asas. Lá vai conhecendo vários pretendentes, mas o olho dela está pousado no príncipe das fadas, solteirão com um péssimo corte de cabelo (acaso já referi que não gosto do traço destes desenhos animados???) que quer ser o protector dela porque a menina não faz nada sozinha (quando ela passa o filme inteiro a conhecer gente e a fugir de pretendentes malucos, obcecados com a sua voz a cantar e a sua beleza!). https://www.youtube.com/watch?v=pPnWOxUXLyI Obviamente, no final, a Polegarzinha casa com o príncipe das fadas (com quem voou apenas uma vez) e ganha as asas como prenda. Is this love? (Sim, também podemos aqui colocar os casos da Cinderela e da Branca de Neve, que só vêem os amores das vidas delas uma única vez e nem conversam, é uma interacçãozita singela e curta. Neste caso, honra seja feita ao primeiro filme, porque Derek e Odete viam-se todos os anos nas férias, desde crianças e já se conheciam havia anos e brincavam e se arreliavam na adolescência).
Decidi deitar-me na mesma, mas tinha as duas músicas e as letras a zumbir-me nos ouvidos. Horas na cama sem dormir.
Tinha estado a ouvir a Valsa Vienense Life Everlasting Is Promised https://www.jw.org/en/library/music-songs/sing-out-joyfully/147-life-everlasting-promised/?media=sjjc e a Valsa Lenta Now we are one https://www.jw.org/en/library/music-songs/sing-out-joyfully/132-now-we-are-one/?media=sjjc e o meu cérebro traz-me à memória outra VHS da minha irmã. Resolveu, um dia, trazer do Pingo Doce (convenceu o meu pai, claro), a comprar os desenhos animados da Arca de Noé e cantarolávamos aquilo carradas de vezes. Cantei o refrão "Venham todos os crentes / no Reino no Senhor / Aqui estamos seguros quando a chuva vier / Não existem diferenças / Todos podem embarcar / Embarcar / Embarcar / Embarcar."
Não existem diferenças????? Todos podem embarcar ???
Soltei uma gargalhada, olhei o relógio, eram 6h30, ouvi os passarinhos e adormeci.
Estou exausta.



sábado, 30 de janeiro de 2021

Dos pesadelos, parte IV, 2º confinamento

estamos escondidos numa casa sem janelas.

tenho medo mas tu estás a sorrir-me.

Hitler dizima quem não lhe obedece. ofendo-te dizendo que o teu Deus é hitleriano e preconiza o fim de um mundo e a morte de pessoas como eu, a tua mulher, que não acredita nele.

o amor tem razões que a razão desconhece. sorrio-te também.

estrondo. apanham-me.

estou num cadafalso, uma multidão grita que é a vontade de Deus, mas também não é o teu. 

conseguiste fugir. Hitler pergunta-me se desejo renunciar à esquerda e às actividades às quais me dedicava para abraçar a nova ordem e baptizar-me.

sorrio de novo. tu estás a sorrir-me e a abraçar-me a apertar-me as costelas e a pegar-me ao colo feliz, casámos. 

passam-me as imagens pela cabeça, os meus olhos riem, iluminan-se.

não posso abdicar do amor e da liberdade. Hitler grita, aquele bigode ridículo, penso. sorrio serenamente. não, nunca abraçaria algo em que não acredito. nunca seria hipócrita.

morro.

acordo.

Dos pesadelos, parte III (2º confinamento)

é tarde na noite..

tu foste, pela calada, no escuro, buscar comida. vivemos escondidos num anexo sem janelas, com o Philos, outro gato amarelo que desconheço e um gato com cabeça de pinguim.

durmo, leio, danço, leio, danço durmo. procuro cozinhar qualquer coisa. tenho medo que não voltes.

tenho sempre.

tal como tu tens quando sou eu a sair.

vivemos escondidos porque a tua religião não é a vigente no país. vivemos escondidos porque eu, a tua mulher, não tenho religião e recuso-me a subjugar-me.

ajudo amigos lgbt, sou a favor da democracia e da liberdade, sou acusada de me ter manifestado pela liberdade conjugal. a vizinha da nossa antiga casa denunciou-nos.

tenho medo, mas tento sorrir-te e fazer amor contigo com o ânimo de outrora.

temos uma tartaruga, mas é de desenhos animados. estou a tentar limpar a banheira e o Philos e a Tartaruga brincam e não me deixam trabalhar. às tantas enfureço-me e atiro os dois pelo ar. a tartaruga parte a carapaça.

acordo a suar.