domingo, 29 de maio de 2011

Felizes poetas esses

Mandelstamm, Akhmatova e Rilke
ouviam vozes a ditar-lhes versos. Mesmo
o Valéry falava de um primeiro verso
de que se deduziam os seguintes.
Em tempos mais antigos, os demónios
(pessoais espíritos assim como anjos
menos da guarda que do ouvido bichos)
assim segredos assopravam sem
dizerem mais que enigmas. Felizes
poetas esses (como ainda os há)
capazes de de se crerem nunca sós
nem mesmo às horas mais terríveis da
terrível solidão. Por trás dos ombros,
lá estava o espiritinho a acompanhá-los
nos seus calvários de exilados ou de assassinados,
ou moradores de Duínos principescos,
ou de prefaciadores sacrificando-se
por uns milhares de francos a compor
ensaios sur l'idée de dictature.
Os Sócrates e os Goethes todos tiveram disto,
como outros depois a escrita automática.
E o triste é não dizerem francamente
(senão quando a si mesmos se mentissem) que
na solidão total, na noite escura
- aquela em que S.João da Cruz e os santos
mais dados à poesia se pensavam tendo
não é seguro e certo por que lado
uma Visita do Alto pelo corpo adentro -,
ninguém ou nada lhes falava: nada.
Apenas se falavam no silêncio humano
à dupla imagem que do ser se nega.

O Dáimon (7/11/1972), Jorge de Sena, in Conheço o Sal e outros poemas, Antologia Poética,

sábado, 28 de maio de 2011

como de outrora deuses pelas praias

"Sobre esta praia me inclino.
                                           Praias sei
(...)

Aqui é um novo oceano.
                                     Um outro tempo.
(...)

Se aqui nasceram deuses, nada resta deles
senão a luz mortal de corpos como máquinas
de um sexo que se odeia no prazer que tenha
e mais é de ódio ao ver-se desejado."

Jorge de Sena, I, Sobre esta praia... Oito meditações à beira do Pacífico

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Bibliotecas na madrugada

E assim, quando te vais, fica o vazio na divisão dos livros (FB)

«A tua ausência é, em cada momento, a tua ausência.

não esqueço que os teus lábios existem longe de mim.

aqui há casas vazias. há cidades desertas. há lugares.


mas eu lembro que o tempo é outra coisa, e tenho

tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.

aqui não há palavras. há a tua ausência. há o medo sem os

teus lábios, sem os teus cabelos. fecho os olhos para te ver

e para não chorar.»

José Luís Peixoto

terça-feira, 24 de maio de 2011

Ao JB
 "(...) e sei que danço porque quero ser amada e amar na vertigem de ser amada e sei que danço porque em meu tronco rebentam dois verdes frutos que querem sazonar-se na estação do amor." 
Natália Correia, Madona
 
IPHIGENIE AUF TAURIS de Christoph Willibald Gluck (2010-11) 


Coreografia de Pina Bausch













Por Entre os Sons da Música  

Por entre os sons da música, ao ouvido
como a uma porta que ficou entreaberta
o que se me revela em ter sentido
é o que por essa música encoberta

acena em vão do outro lado dela
e eu sinto como a voz que respondesse
ao que em mim não chamou nem está nela,
porque é só o desejar que aí batesse.

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O que és é-lo no absoluto de ti: dance




"Dance, dance, otherwise we are lost", Pina Bausch

A consciência que te acompanha no que vais sendo é o puro registo disso que vais sendo para o poderes ler, se quiseres, depois de já ter sido. Mas no instante de seres o que és, o que és é apenas, por uma decisão anterior ao decidires. O que és é-lo onde a tua realidade profunda em profundeza obscura se realizou. O que és é-lo no absoluto de ti. A consciência testifica-nos apenas como o ser privilegiado que sabe o que é por aquilo que vai sendo e pode assim reconverter-se à posse iluminada disso que vai sendo. A consciência constata mas não interfere senão para se não ser mais o que se foi, ou mais rigorosamente, para se não querer ser o que se é - o que é ser-se ainda, embora de outra maneira.Porque se neste instante me sobreponho, ao que sou, outra maneira de ser - a consciência que me altera o primeiro modo de ser é a paralela iluminação do modo de ser segundo. Decidi ainda antes de decidir, quando decidi não ser o que primeiramente decidira. Assim no torvelinho dos actos que me presentificam e da consciência desses actos, sempre o insondável de nós se abre para lá do que podemos sondar. Sempre a realidade de nós é a realidade original que na origens se gera. Sempre a autenticidade de nós está a uma distância infinita das razões que a justificam.

Vergílio Ferreira, in 'Invocação ao Meu Corpo'

Como aceitar assim a força da razão, se a força dela está onde ela não está? (Invocação ao meu corpo)

Ama-se um corpo como instrumento de amar, como forma de onanismo de que o trabalho é dele. Ou como êxtase de um terror paralítico. Ou como orientação ao impossível que não está lá. Com raiva desespero de quem já não pode mais e não sabe o quê. Como avidez insuportável não de o ter tido na mão, porque o podemos ter nela, sofregamente, boca seios o volume quente harmonioso da anca e tudo esmagar até à fúria, ter o que aí se procura e que é o que lá está, mas não o que está atrás disso e é justamente o que se procura e se não sabe o que é nem jamais poderemos atingir.

Vergílio Ferreira, in "Em Nome da Terra"

tens o corpo depositado na memória

«Tenho nas mãos a memória do teu corpo, do boleado doce do teu corpo. As pernas, os seios, deixa-me encher as mãos outra vez. O fio ardente da tua pele. A face. Mal te vejo os olhos, mas o teu olhar cai sobre mim em torrente. Despi-me brusco, deitados os dois na areia, e a fúria, e o limite. E uma só verdade para nós e o universo. Deitados de costas, lemos as estrelas. A paz enorme de horizonte a horizonte. A eternidade. E a necessidade de estarmos lá, para não haver mais nada para fora de nós. Depois erguemo-nos, mergulhámos nas águas.»...

"Querida. Veio-me hoje uma vontade enorme de te amar. E então pensei: vou-te escrever. Mas não te quero amar no tempo em que te lembro. Quero-te amar antes, muito antes. É quando o que é grande acontece. E não me digas lá porquê. Não sei. O que é grande acontece no eterno e o amor é assim, devias saber. Ama-se como se tem uma iluminação, deves ter ouvido. Ou se bate forte com a cabeça. Pelo menos comigo foi assim. Ou como quando se dá uma conjugação de astros no infinito, deve vir nos livros. Ou mais provavelmente esse tempo nunca pára de existir, que é quando realmente existe o que vale a pena existir. Vou pensar melhor a ver se eu próprio entendo."

V.F. Em nome da terra


corpo e música
o som do corpo abafava a oração infinita e visível das mãos.
um leve sussurro anunciava o trajecto que teríamos de executar.
ouvia-se uma música ou uma invenção de vozes que contrariava o silêncio.
tínhamos de aguardar o retorno súbito do sangue. assim poderíamos seguir junto ao fluir desdobrado do teu ventre. a medo porque, o corpo resiste ao espanto de si mesmo.

corpo e labirinto
agora deparo-me com o labirinto do trajecto que o teu corpo delineia.
estás despida. quase nua. escondida. excessiva.
insinuas-te: sigo-te.
e por te ver doemos esmagados na cor perfeita do sangue.

Eduardo de Quina, Corpo a corpo

sábado, 21 de maio de 2011

Pensar não dói como andar à chuva

A MS, um pouco mais de Jorge de Sena

Eu estou cansado de não me dissolver
continuamente em cada instante da vida,
ou das pessoas, ou de mim, ou de tudo.
Qu'ai-je à faire de l'éternel? I live here.
Non abbiamo confusion. E aqui é que morrerei de cansaço, como hoje estou
tão terrivelmente cansado.

"É tarde, muito tarde da noite"
 
Na noite cavernosa a que se aponta
E em que mergulha e se desliza e volta
Quanto se move do que as partes une
De oscilações o templo e o seu suporte –
Trementes superfícies e rebordos
Se roçam se estrangulam se recravam
Até que imóveis o edifício jorra
Adentro de si mesmo um fecho líquido
Selando a abóbada nocturna e quente
Da cripta profunda.

"Arquitectura dos corpos"

Última ceia de nudez absurda: imagens naturais além da moral

"La nature a ses lois. La morale est antinaturelle".(Rhinocéros, Ionesco)

Demónios de lingerie cor de carne, músculos, corpo e o poder do gesto e da insinuação...
-Pensei que fosses mais poético! A lógica é linda! Um grito na penumbra e os demónios lânguidos tentam obstinadamente a carne... eles são belos, vê, são felizes e dançam ("E que mover-se um corpo no de um outro o amplexo / não é dos corpos o mais puro intento?", Jorge de Sena, Exorcismos) e o bafo da respiração surda sente-se ("Olhos se fechem não para não ver / mas para o corpo ver o que eles são / e no silêncio se ouça o só ranger / da carne que é da carne a só razão", Jorge de Sena, Exorcismos) e sorris.
Escuta-se o esgar e o contorcer-se de alguém que veementemente afirma "Je ne capitule pas!" (Rhinocéros, Ionesco)

Ó doce perspicácia dos sentidos!
Versão mais táctil que apressados dedos
sempre na treva tropeçando em medos
que só o olfacto os ouve definidos!

Audível sexo, corpos repetidos,
gosto salgado em curvas sem segredos
a que outras acres e secretas - ledos,
tranquilos, finos ásperos rangidos -

se ligam, mancha a mancha, lentamente...
Perfume túrgido, macio, tépido,
sequioso de mão gélida e tremente...

Vago arrepio que se escoa lépido
por sobre os tensos corpos tão fingidos...
Ó doce perspicácia dos sentidos!
(Jorge de Sena, Pedra Filosofal)
«Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio de asas.
- Como quereis o equilíbrio?»
(David Mourão-Ferreira)
E porque entre corpos o que existe é pura energeia - "assez de tricoter" - seja!
 Post espectáculo Normal, do grupo Citac (É normal ir?) :http://www.youtube.com/watch?v=zcfpbjs4eaA

segunda-feira, 16 de maio de 2011

C'est le feu qui se relève avec son damné

La richesse d'un poème si elle doit s'évaluer au nombre des interprétations qu'il suscite, pour les ruiner bientôt, mais en les maintenant dans nos tissus, cette mesure est acceptable.
Qu'est-ce qui scintille, parle plus qu'il ne chuchote, se transmet silencieusement, puis file derrière la nuit, ne laissant que le vide de l'amour, la promesse de l'immunité?
Cette scintillation très personnelle, cette trépidation, cette hypnose, ces battements innombrables sont autant de versions, celles-là plausibles, d'un évènement unique: le présent perpétuel, en forme de roue comme le soleil, et comme le visage humain, avant que la terre et le ciel en le tirant à eux ne l'allongeassent cruellement.

Rimbaud, Poésies. Une saison en enfer, introdução de René Char, Éditions Gallimard
von den Sternen stürzt alle Zeit herab

Das estrelas escorre o tempo em cascata
(in Electra de Hgo von Hofmannsthal)
@Toca, fotografia minha

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Vésperas

“Está aí o processo mesmo da formação do coração trágico – e é este
o fenómeno dramático original: assistirmos nós próprios à nossa
própria metamorfose e agir desde então como se tivéssemos
efectivamente entrado num outro corpo, numa outra pessoa.
Assim se inaugura a evolução do drama”
(Nietzsche, A Origem da Comédia, p.73 e sqq.)

"Todo este fruir violento de sensações, no entanto e porque efémero é tudo na vida, mesmo o sentir, vai redundar na alienação e na aniquilação do sujeito que já não sente nem controla o querer".
C. M. Jesus (2008), Arquíloco. Fragmentos poéticos. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, p.16. 

terça-feira, 10 de maio de 2011

Advérbio

ἦλθες ἔγω ς ' ἐμαιόμαν,
ὂν δ' ἔψυξας ἔμαν φρένα καιομέναν πόθωι

Chegaste, fizeste-me enlouquecer,
E esfriaste o meu peito que tanto ardeu em desejo.
Sapho,  fr.48 V

Tradução de Sophia Carvalho, há 5 minutos (in Tese de Mestrado. Não sei se me Safo, Bota Abaixo Editora, ainda no prelo)

segunda-feira, 9 de maio de 2011

onde um dia eu disse que viria a desfalecer

Ajuda-me a fechar os olhos
com a suavidade dos lírios.
Quero dormir e o mundo não deixa.
Suplico-te:
se às 4 não estiver já
num sono profundo,
abre por favor todas as janelas
e atira cada parte do meu corpo
contra as eras do tempo.

 in A dança das feridas de Henrique Manuel Bento Fialho
http://www.ovni.org/2008/09/henrique-fialho/ 

domingo, 8 de maio de 2011

A sombra entre a mentira e a verdade...



E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...

Florbela Espanca

Mar adentro às 4h30

Mar adentro,
mar adentro.

Y en la ingravidez del fondo
donde se cumplen los sueños
se juntan dos voluntades
para cumplir un deseo.

Un beso enciende la vida
con un relámpago y un trueno
y en una metamorfosis
mi cuerpo no es ya mi cuerpo,
es como penetrar al centro del universo.

El abrazo más pueril
y el más puro de los besos
hasta vernos reducidos
en un único deseo.

Tu mirada y mi mirada
como un eco repitiendo, sin palabras
‘más adentro’, ‘más adentro’
hasta el más allá del todo
por la sangre y por los huesos.

Pero me despierto siempre
y siempre quiero estar muerto,
para seguir con mi boca
enredada en tus cabellos.

Ramón Sampedro

sábado, 7 de maio de 2011

Correspondances


 
Correspondances

La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L'homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l'observent avec des regards familiers.


Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.


II est des parfums frais comme des chairs d'enfants,
Doux comme les hautbois, verts comme les prairies,
— Et d'autres, corrompus, riches et triomphants,


Ayant l'expansion des choses infinies,
Comme l'ambre, le musc, le benjoin et l'encens,
Qui chantent les transports de l'esprit et des sens.


Charles Baudelaire

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Faz tudo como se alguém te contemplasse (Epicuro)

"Nenhum prazer é um mal em si, mas certas coisas capazes de engendrar prazeres trazem consigo maior número de males que de prazeres. Se as coisas que proporcionam prazeres às pessoas dissolutas pudessem livrar-lhe o espírito das angústias que experimentam diante dos fenómenos celestes, da morte e dos sofrimentos, e se, por outro lado, lhes ensinassem o limite dos desejos, nada teriamos de censurar nelas, pois que as cumulariam de prazeres, sem mistura alguma de dor ou pesar, os quais constituem precisamente o mal."

Epicuro, in "Máximas Fundamentais"

En el zaguán hay un espejo, que fielmente duplica las apariencias

El universo (que otros llaman la Biblioteca) se compone de un número indefinido, y tal vez infinito, de galerías hexagonales, con vastos pozos de ventilación en el medio, cercados por barandas bajísimas. Desde cualquier hexágono, se ven los pisos inferiores y superiores: interminablemente.

En el zaguán hay un espejo, que fielmente duplica las apariencias. Los hombres suelen inferir de ese espejo que la Biblioteca no es infinita... yo prefiero soñar que las superficies bruñidas figuran y prometen el infinito...

«La Biblioteca es una esfera cuyo centro cabal es cualquier hexágono, cuya circunferencia es inaccesible»

El hombre, el imperfecto bibliotecario, puede ser obra del azar o de los demiurgos malévolos; el universo, con su elegante dotación de anaqueles, de tomos enigmáticos, de infatigables escaleras para el viajero y de letrinas para el bibliotecario sentado, sólo puede ser obra de un dios.

Jorge Luís Borges, "A Biblioteca de Babel", Ficciones, Coleccão Novis, Biblioteca Visão, 2000.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Não fales nela que a mentes.

Da vida... não fales nela,
quando o ritmo pressentes.
Não fales nela que a mentes.

Se os teus olhos se demoram
em coisas que nada são,
se os pensamentos se enfloram
em torno delas e não
em torno de não saber
da vida... Não fales nela.

Quanto saibas de viver
nesse olhar se te congela.
E só a dança é que dança,
quando o ritmo pressentes.

Se, firme, o ritmo avança,
é dócil a vida, e mansa...
Não fales nela, que a mentes.

Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'