terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

mudam-se os tempos, e mais nada muda

Ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E, para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só para mim,
Anda o mundo concertado.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Pode ser que precisemos

Agora mesmo, há pessoas que plantam girassóis em jardins e caem de joelhos diante deles. Estas pessoas estão espantadas, compelidas a venerar de novo.

Pode ser que precisemos de ser curados pelas flores.

Pode ser que precisemos de nos despir e deixar as pétalas caírem sobre os nossos ombros, as nossas barrigas, contra as nossas coxas. Pode ser que precisemos de nos deitar nus num campo de flores selvagens. Pode ser que precisemos de caminhar nus pela sua beleza. Pode ser que precisemos de caminhar nus pela cor. Pode ser que precisemos de caminhar nus pelo cheiro. Pode ser que precisemos de caminhar nus pelo sexo e pela morte, Pode ser que precisemos de sentir a beleza na nossa pele. Pode ser que precisemos de caminhar pelo curso do pólen, por entre as flores que estão em toda a parte.

Ainda conseguimos sentir o cheiro do jardim da nossa avó. A nossa avó ainda está viva.


Sharma Apt Russel, Anatomia de uma Rosa, p. 175.