segunda-feira, 25 de junho de 2012

A “ideologia portuguesa”, por Vergílio Ferreira

Em 1977 Vergílio Ferreira sobre a “ideologia portuguesa”. Espantosa e dolorosamente actual.
“Decerto que não é o mando que está no nosso horizonte – e ainda bem; mas não deve estar também a submissão. E se tal submissão é evidente, quando ao nosso destino o detêm mãos alheias, é já menos evidente quando se obscurece a consciência de que o temos, o devemos ter, nas nossas mãos. Porque o não perdemos apenas quando de facto o perdemos, mas ainda quando nos perdemos dele e nele deixamos de nos reencontrar. Não deixa de ser nosso apenas quando ele é já de outrem, mas ainda quando não o reconhecemos para o assumir e continuar. Porque esquecermo-nos de nós é correr o risco de que outros nos encontrem …  (…) O  mínimo que de nós podemos exigir é assim a sensatez. Parecerá um pouco excessivo, talvez, misturar o nome puro do grande poeta [Camões] à perturbação por que passamos. Porque ela desenvolve-se não apenas ou não bem numa dimensão de idealidade ou de grandeza, mas numa esfera do elementar. É mesmo grave, decerto, ou um pouco despropositado que, esquecidos do elementar, pensemos apenas no que o transcende, que, esquecidos do mais urgente, nos fixemos no que o excede, ainda que a isso julguemos mais importante. É grave assim que a um problema imediatamente económico, nós sobreponhamos um problema de ideologia. Determinados por esquemas ideológicos, enquistados nos termos de uma doutrinação, valorizando acima de tudo a nossa paixão política, ou seja a paixão de nós – porque a política, ou certa política, contra o que possa parecer, é uma paixão solitária – nós recusamo-nos muitas vezes, ou quase sempre, a pensar no que lhe subjaz, nós recusamo-nos a considerar o que a excede, nós recusamo-nos sobretudo a admitir o seu erro, ainda que a realidade a desminta. Como os medievos em face de Aristóteles, se os factos põem em causa a nossa doutrina, tudo podemos admitir, excepto que esteja errada. Porque o que está em causa somos nós. E nós, obviamente, somos exactos como um axioma …” (15-16)
[Vergílio Ferreira "Da Ausência, Camões" (discurso nas comemorações oficiais do 10 de Junho, 1977), em Camões e a Identidade Nacional, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1983]

segunda-feira, 18 de junho de 2012

"Floresceu, teria dito o jardineiro, se tivesse aberto a porta; se tivesse entrado, em qualquer uma daquelas noites de antanho, e o encontrasse a escrever; se o tivesse encontrado a rasgar o que escrevera; se o tivesse encontrado a terminar uma obra-prima às três da manhã, saindo a correr para calcorrear as ruas, e visitar igrejas, e jejuar num dia, e beber no outro, a devorar Shakespeare, Darwin, A História da Civilização e Bernard Shaw"

Mrs Dalloway, Virginia Woolf

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Os olhos rasos de água

Cansado de ser homem durante o dia inteiro
chego à noite com os olhos rasos de água.
Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,
entrar dentro de ti como num bosque.

É a hora de fazer milagres:
posso ressuscitar os mortos e trazê-los
a este quarto branco e despovoado,
onde entro sempre pela primeira vez,
para falarmos das grandes searas de trigo
afogadas a luz do amanhecer.

Posso prometer uma viagem ao paraíso
a quem se estender ao pé de mim,
ou deixar uma lágrima nos meus olhos
ser toda a nostalgia das areias

Eugénio de Andrade, in As palavras interditas

terça-feira, 12 de junho de 2012

Mas como fazer durar
até ao último instante
esta boca, este sol?

É preciso amá-la,
paciente e alta,
onde a chama canta.

Amá-la. Até ao fim.
Até ser dança.

Eugénio de Andrade, "Matéria Solar", Poesia, Rosto Editora, Abril 2011, p.379