quarta-feira, 29 de junho de 2022

a gente está tão farta que já nem se importa

Da página do Facebook Para Português Ler

"Teolinda Gersão escreveu:
Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as ideias são todas deles.
Aqui ficam, e espero que vocês também se divirtam. E depois de rirmos espero que nós, adultos, façamos alguma coisa para libertar as crianças disto.

Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa

Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito. ”O Quim está na retrete”: “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é uma característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar, etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum, o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.
No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?
A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12.º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Luisa Fortes da Cunha um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.
E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.
E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.
João Abelhudo, 8.º ano, turma C (c de c…r…o, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática).

terça-feira, 28 de junho de 2022

O que em mim sente está pensando

Pudesse eu ser como a ceifeira de Pessoa e ter uma alegre inconsciência que me impedisse de pensar demais, porque segundo o Caeiro "Amar é a eterna inocência, / E a única inocência é não pensar..."


Co-Criações com Carlos Gomes


Ela canta, pobre ceifeira,

Ela canta, pobre ceifeira,

Julgando-se feliz talvez;

Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia

De alegre e anónima viuvez,

Ondula como um canto de ave

No ar limpo como um limiar,

E há curvas no enredo suave

Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,

Na sua voz há o campo e a lida,

E canta como se tivesse

Mais razões para cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!

O que em mim sente está pensando.

Derrama no meu coração

A tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!

Ter a tua alegre inconsciência,

E a consciência disso! Ó céu!

Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!

Entrai por mim dentro! Tornai

Minha alma a vossa sombra leve!

Depois, levando-me, passai!


Fernando Pessoa

domingo, 26 de junho de 2022

Crônicas dos Açôures - (IV)

    Carpe Diem Noctemque



Maria olhava o mar revolto, para lá da Poça de São Simão. Verdes e azuis pincelados, melhor do que uma tela. 

Maria Emília era uma senhora incrivelmente alegre. Apesar da chuva que os atacou na volta à ilha, achava tudo maravilhosamente bonito, mas com uma alegria que Maria comentara "adoro como vê positividade em tudo!". Emília soltou uma gargalhada e respondera "Com o que já passei, tinha de ser assim". À noite, com um copo de vinho branco à frente, Maria Emília desabafou a sua narrativa de vida. Perder um amor não é tão doloroso como perder dois filhos e ficar viúva e sozinha nesta vida. Esta relatividade da sua dor fulminou-a e deixou Maria pensativa o resto do serão. 

Em São Jorge, tudo é verde, estonteantemente verde e húmido, de uma beleza de lágrima feliz, as fajãs a morrer na espuma do mar, um azul impossível e translúcido contra a pedra negra das praias.





Cobardia continental, pensa Maria, ficou a mensagem por ler, o esclarecimento merecido por ser verbalizado e proferido. Mentiras e omissões, não entende Maria por que não se comunica assertiva e honestamente. Não havia nada a perder em falar francamente. E mergulha no livro de Nemésio de novo. 

João Garcia fora também um cobarde, encostado ao muro da Quinta, com arreceios do pai de Bidinha. Que homem que ama tem desbrio do pai da amada? Era mas é peito cheio e conversa escancarada.

Bidinha não gostou destas migalhas, desta parca prova de afeição e, numa carta para Lisboa, que João Garcia esperava desesperado, arremessou-lhe com o corte. 
Ambos de parte a parte a morrer de saudades um do outro. 
Garcia acaba por casar com Laura, devedor do pai da moça mas sem nunca esquecer Bidinha. 
E Margarida, a mulher com quem Maria mais se identificara ao longo de todo o romance, alevantada, franca, expressiva, desejosa de se sentir útil e prestável, mas impulsiva sempre, após os desgostos maiores da morte do tio preferido e da aventura entre homens em meio de um baleeiro à cata de um cachalote, termina de forma imprevisível. 
A sua aventura no barco, sozinha, deixou-a mal falada no Faial. Foi graciosamente recolhida na Urzelina, em São Jorge, pelo barão e a esposa, pais de André Barreto, enquanto esperava que saísse de novo um barco de volta ao Faial, quando o mar finalmente se acalmasse.
E Bidinha acaba, por falta de forças e de ânimo e de esperança e de fé, por casar com André, apenas por ser de boas famílias, num conceito de amor perfeitamente execrável.
Choram as cascatas em São Jorge como os olhos de Maria. 

Indiferente à algazarra que faziam na piscina, Maria deitara-se a ler na rede de pano, com a vista do morro do Livramento e o mar como fundo. De braços ao alto, com o livro recortado no céu azul pincelado de nuvens brancas, evadiu-se para 1918, terminou o epílogo com atenção e esmoreceu. 



Afinal, a protagonista desiludia-a, afinal aquela jovem de 20 anos pensava de forma bem diferente de si. Amortalhava-se em vida com a inércia de uma desistência incrível que a desgostava profundamente. 

Margarida e André, após três meses de casamento, lançam-se na lua de mel, juntamente com os pais de André e a irmã, Clara. Vão num navio para a Europa. Bem sabe Maria que os tempos são outros. O que pode fazer sozinha, graças a Deus, não podia Bidinha à época: ir conhecer Roma, Paris, Bruxelas e Varsóvia, ir até à Holanda e Inglaterra mais tarde, mas casar para poder viajar é uma felicidade enganosamente falsa.
Bidinha encontra um velho amigo de infância, no convés, que lhe pergunta pelos noivos, como estão, e esta responde-lhe que o amor de casados é como uma morte, um navio encalhado e seguro, que não vai a lado nenhum:
"Para quem se preza e já não tem ilusões, é a grande âncora (...) ser uma mulher casada é ser como um daqueles veleiros que se deixavam apodrecer meses e meses na horta, amarrados a uma bóia da Doca; ou, se quisermos puxar as comparações ao trágico: como um morto que encontra a paz e a luz perpétua numa sepultura que os seus compraram e que trazem asseadinha... (...)".

Como pode alguém na flor da idade pensar semelhante coisa? E, todavia, fora exactamente isso que Maria vivenciara com os seus vinte também, uma morte prematura, um desânimo. Felizmente, soubera sair desse túmulo. Mas conhece alguns punhados de pessoas que se amarram a outras apenas para não estarem sós. Que vida é essa? Perdoem-lhes pois não sabem o que fazem. 

Nessa noite, Margarida vai até à proa, só, pensando sistematicamente em João Garcia, casado lá longe com Laura, pensando ele nela também. 
Faróis que se apagam e desistem de se iluminar... 
Observa o anel com as pedrinhas que tanto gostava de tirar e pôr do dedo (e com que João brincara, reparando nesse vício). De súbito, atira-o ao mar como se as memórias fossem destruídas e desaparecessem com o anel, para a "cucumária dos abismos"... 
Mas não, essas permanecem, e que triste é ler o destino de duas pessoas que se amam escolherem caminhos díspares e infelizes. "Não faças isso", diz Maria a Bidinha.

Maria Emília toca-lhe suavemente no ombro. Não sabe quanto tempo se deixara dormir. "Temos de nos arranjar para jantar". Estremunhada, com o livro no colo, Maria compreende onde está. Em sonhos, fora para bem longe dali, ao convés do navio, quase esbofetear Bidinha. De nada valia ter saudades de conversas profundas se nada se faz para as voltar a ter... pensou... e de nada valiam mais reflexões filosóficas àquela hora, "isso são outros catorze", como dizem nos Açores.

Está em São Jorge, no ano de 2022, no relvado do hotel, com uma vista soberba e há um jantar para fruir, uma mesa com queijos, mel e folhinhas de hortelã, uma mistura saborosíssima e inesquecível.

Carpe Diem Noctemque*



sábado, 25 de junho de 2022

MEMENTO HOMO



Co-Criações com Carlos Gomes


memento homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris

Lembra-te, Homem, que és pó e em pó te voltarás a tornar
Génesis 3:19

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Crônicas dos Açôures (III)

 "Do que é ser-se farol"





Desde criança que Maria admirava os faróis e os faroleiros. Queria de vivo ânimo visitar o Farol de São Pedro de Moel, conhecer por dentro aquele mester. Foi no Farol do Topo, na Fajã do Topo, em São Jorge, que o sonho se concretizou, já que o Farol dos Capelinhos, na Horta, fôra convertido em museu e erguia-se mumificado na paisagem de negrume.

A lâmpada requer os maiores desvelos, explica o faroleiro, estar límpida, translúcida, mesmo com aquela humidade característica, este desunha-se a esfregá-la. E se falhar? Há sempre uma lâmpada de reserva, a luz não se pode apagar nunca. Se tudo falir, faz-se uma fogueira, a luz-guia sempre brilha ao longe para os navios seguirem o seu caminho sem encalharem nas rochas, sem desviar a rota, evitando acidentes de maior, mesmo em dias de tempestade, nas Ilhas de Bruma.

Assim deverá ser um companheiro/a, reflectiu Maria, e ser também ela um farol, ambos dedicados a nunca deixar a luz esmair. Dois faróis que se iluminam, velando o caminho um do outro, sempre em evolução, apoiando-se mutuamente. Ser-se farol e porto de abrigo é a receita, porque o Amor é uma escolha, e não deixar a luz desvanecer ou toldar-se é mester diário e voluntário, a cada jorna, a cada passo. Iluminar o caminho e dar a mão, respeitar que cada um tem o seu, mas que há um propósito comum, e navegar sensatamente, mesmo quando as ondas causam temor e o mar está agitado.

O Amor é uma revolução, é querer agir. De nada serve esperar e ficar sentado a ver os navios passarem se a luz tremelica, há que lhe dar forças, lenha e lume, atiçar sempre, bases para o fogo se manter intenso e perene.


quarta-feira, 22 de junho de 2022

secreta arquitectura de água




Co-criações com Carlos Gomes

Palavras

Tocam-me
como lábios,
como beijos.
Pássaros sedentos de ramos
e de sombra,
pousam-me nos ombros.
A movimentos de asa,
desenham-me ainda um corpo
-secreta arquitectura de água,
rasgada no vento.


Luísa Dacosta, in A maresia e o sargaço dos dias

terça-feira, 21 de junho de 2022

Crônicas dos Açôures (II)

 "Matar cachorros a grito"





Às oito da matina iniciaram a subida para o Pico. Três horas e meia para cima.
Maria queria desistir na primeira etapa. Adivinhava o sofrimento que se avizinhava, o menisco a dar de si, a chuva e o vento a aumentar. O grupo unido não a deixou, não abandonamos ninguém, subimos juntos e descemos juntos. A uma hora de atingir a cratera, a parede de neblina levantou por cinco minutos, puderam compreender que estavam acima das nuvens, para lá da altura da Serra da Estrela.
Maria descobriu vários sentimentos, frustração por estar a chover e neblina, regozijo durante parcos minutos quando o sol abriu e perceberam o que a paisagem teria prometido, não fôra a meteorologia pregar-lhes partidas. As lágrimas vieram aos olhos de felicidade.
Mas chegaram lá acima e conseguiram ver o Piquinho durante uns cinco minutos apenas até toldar tudo de novo. As rajadas de vento levantavam a 150km/hora e uma colega, franzina e leve, deu uma cambalhota e só não caiu ravina abaixo porque foi agarrada pelos bons reflexos de outro companheiro do grupo.
Já ninguém subiu a última etapa do Piquinho nesse dia. Na verdade, já mais nenhum grupo empreendeu a subida, foram todas canceladas. O guia recomendava partirem quanto antes. Iniciaram imediatamente a descida, pois o frio não permitia descansar ou comer na cratera.
Tudo o que sobe tem de descer. Maria sabia que a problemática estava justamente aí. Já desde criança adorava subir às árvores, o pior era sair de lá de cima.
Afadigavam-se como formigas num carreiro organizado, mal respirando quase com o vento de frente, gélido.
Bloqueou várias vezes, parou, pensou que ficava ali, chorando de raiva a descer e ao mesmo tempo com um sentimento de superação.
Como dizia o seu paizinho, Maria ia ali num estado que "só Deus e ela é que sabiam.."
"Matar cachorros a grito", uma expressão de origem antiga brasileira mas muito usada pelos açorianos, aqui se aplicaria totalmente, um sentimento desesperado, de pequenez incrível contra a lava sólida e o gigante que se erguia, o ponto mais alto de Portugal. Só o saber que realmente a lava não escorregava e sentir a aderência das botas lhe trazia um pouco de paz, passageira, a cada passo, encharcada até à roupa íntima, apesar da capa impermeável, a Mãe-Natureza não perdoava um minuto e ela sofria com a decisão.
Mas orgulhosamente, lágrimas a escorrer do rosto em silêncio, vislumbrou a Casa da Montanha e dá em chover copiosamente então à chegada, e os pingos grossos de chuva misturavam-se com as lágrimas, começou a rir nervosamente, a trautear o I'm singing in the rain como louca, com a estupidamente feliz sensação de dever cumprido, se ultrapassara aquilo, ultrapassaria tudo.
Porque há sempre um raio de sol que trespassa as águas da chuva e o arco-íris há-de aparecer algures, quando menos se espera.

segunda-feira, 20 de junho de 2022

Dia Mundial dos Refugiados

https://tag.jn.pt/dia-mundial-dos-refugiados-por-um-mundo-mais-aberto-e-justo/






da subida

A João Rui de Sousa, que faleceu este fim de semana, aos 94 anos.

Ascensão

Beijava-te como se sobe uma escadaria:
pedra a pedra, do luminoso para o obscuro,
do mais visível para o mais recôndito
- até que os lábios fossem
não o ardor da sede, nem sequer a magia
da subida,
mas o tremor que é pétala do êxtase,
o lento desprender do sol do corpo
com o feliz quebranto dos meus dedos.

João Rui de Sousa, in 'Obstinação do Corpo'
(1928-2022)

domingo, 19 de junho de 2022

Crônicas dos Açôures (I)

"O matriarcado da Natureza"

Maria Paiva aterrou na Ilha do Pico às 9h30 da manhã de um domingo nublado.

O aeroporto, à sombra do vulcão, pequeno mas animado, afadigava-se de gente alegre com as suas bagagens, em busca de novas aventuras. Conhecera os companheiros de viagem em Lisboa e, em êxtase, mirava ao redor observando tudo. É áspera e dura a paisagem de tons castanhos e pretos, a pontuar de verdes aqui e acolá, e os azuis do mar e a espuma a bater na rocha vulcânica convidavam a deliciosos mergulhos.

A caminho do poiso, olhava os barcos, as casinhas plantadas nas rochas, como pontos coloridos num bouquet mais escuro, e uma paz radiosa emanava de tudo. A algazarra do grupo, por vezes, arrancava-a da contemplação mas, ao mesmo tempo, sacava sorrisos e o corpo relaxado sentia-se renovado e vivo.

O primeiro trilho da tarde, na Lagoa do Capitão, era verde, tão verde, no centro da ilha, com o Pico a fazer-se gigante na paisagem, pleno de vacas a pastar, calmas e pachorrentas, que se deixavam acariciar na cabeça, a menos que guardassem os filhotes e aí afastavam-se, protectoras e guardiãs.




O tempo, meio turvo de nuvens cinza, deixava entrever uns raios de sol marotos, na descida.

O dia seguinte surpreendeu, num luxuriante verde trilho, o Caminho dos Burros, que iniciara com neblina cerrada e chuviscos, mas que abrira com mais sol, que puxava os tons de verde da floresta. Não há palavras para descrever o caminho de fadas, os ramos, as folhas desenhadas e recortadas, humedecidas com pingos de orvalho, os pequenos ribeiros e poças.






Ao terceiro dia, a meteorologia fez-lhes negaças, com a subida nocturna ao Pico adiada. Metidos no ferry pelas 8h da matina, foram fazer a jornada ao Faial, para beber o gin do Peter's, maravilhar-se com a cratera e visitar o vulcão dos Capelinhos. Mas o Faial não se queria deixar ver, uma parede de neblina fechada não deixava ver nem para lá de um metro, a cratera escondia-se, embalada nas nuvens. O vulcão, esse sim, imponente, deixou-os subir no seu negrume, enterrando as botas na cinza da lava. O vento cobria-lhes as faces e os cabelos de um pózinho incomodativo, mas a paisagem faria olvidar todo o frio que enregelava até aos ossos e a fome que já apertava.

Assim são os Açôures, mas Maria já sabia. Levara consigo atrás o livro de Nemésio, para se deleitar nas horas vagas, Mau tempo no canal. Já o tinha lido de fio a pavio, talvez não com tanta atenção e propriedade como nestes dias, mas firmemente sentia, por vezes, que saltitava de 2022 para 1917, e vice-versa, identificando-se profundamente com Margarida Clark Dulmo, a Bidinha, a protagonista do romance.

Ora, desta feita, o Pico fazia mais sentido, visto pelos seus olhos e pelos de Bidinha, o Faial erguia-se de outra giza, como se Maria lhes pertencesse e à terra-mãe, há muito tempo.

segunda-feira, 13 de junho de 2022

E esta, hein?

Dia de Santo António.

Frei Fabrizio vem saudar-me e à turma no intervalo ensolarado e quente da manhã, e convida-nos a ir à igreja ver a imagem no andor que sairá logo à noite em procissão. Afadigam-se os senhores com o corta-relvas, ruído que nos obrigou a falar mais alto durante a aula; as senhoras limpam a entrada da igreja onde há sacos com pães de Santo António para oferecer, abençoados pelo Frei na missa da alvorada e que ele distribui pela turma agradecida.

Vamos observar os lindos azulejos azuis e brancos, do séc. XVIII, com o sermão de António aos peixes. Explico a bela metáfora, deliciosamente utilizada mais tarde pelo Padre António Vieira: António queria pregar o amor de Deus e os homens não queriam escutá-lo, então dirigiu-se ao mar e os peixes, esses sim, ouviram-no encantados. 

A animalidade do Homem ou a humanização do animal é das mais belas ideias que podemos escutar para compreender o amor divino que abraça todas as criaturas.

Há uma igreja na Turquia onde milhares de muçulmanos se dirigem ainda hoje, devotos a Santo António. E esta, hein? 

Adoraria ir conhecer a mesquita deles.

Estava eu a explicar e a traduzir, semi em Português semi em Inglês, para que dois deles traduzissem para o restante grupo em Dari, Farsi ou Pastho, quando um dos meus alunos, que deve ter a idade do meu pai, me sorri e diz "God is all the same, for all of us, Deus é o mesmo" e eu respondi, feliz, de lágrima no olho, "Deus é o mesmo, os livros é que foram escritos por pessoas diferentes" e ele acenou com a cabeça.

"Are you catholica?" perguntou um outro a sorrir. Esta apanhou-me desprevenida, como explicar? Não, não sou, acredito num bem maior, num Deus que tudo abraça e que não tem nome, se é homem ou mulher nem sei, mas gosto de pensar num poder feminino (eles riram-se). Gosto das imagens pela arte em si mesma, mas não da adoração dos santos (só de santa Bárbara porque sempre ouvi o meu pai, que tinha medo de trovoadas, a pedir-lhe para parar de trovejar). 

Enfim, são tradições, e eu amo história de arte (quem sabe, quando for velhinha, não tiro um terceiro curso), mas para já, é isto, manhãs com Deus e o Amor, na distribuição de pães, na partilha de culturas diferentes e no ensino da minha Língua materna a seres humanos incríveis que, como os peixes a Sto António, me escutam com atenção e isso é, sem dúvida, a maior das dádivas e maravilhas dos meus dias.