Carpe Diem Noctemque
Maria olhava o mar revolto, para lá da Poça de São Simão. Verdes e azuis pincelados, melhor do que uma tela.
Maria Emília era uma senhora incrivelmente alegre. Apesar da chuva que os atacou na volta à ilha, achava tudo maravilhosamente bonito, mas com uma alegria que Maria comentara "adoro como vê positividade em tudo!". Emília soltou uma gargalhada e respondera "Com o que já passei, tinha de ser assim". À noite, com um copo de vinho branco à frente, Maria Emília desabafou a sua narrativa de vida. Perder um amor não é tão doloroso como perder dois filhos e ficar viúva e sozinha nesta vida. Esta relatividade da sua dor fulminou-a e deixou Maria pensativa o resto do serão.
Em São Jorge, tudo é verde, estonteantemente verde e húmido, de uma beleza de lágrima feliz, as fajãs a morrer na espuma do mar, um azul impossível e translúcido contra a pedra negra das praias.
Cobardia continental, pensa Maria, ficou a mensagem por ler, o esclarecimento merecido por ser verbalizado e proferido. Mentiras e omissões, não entende Maria por que não se comunica assertiva e honestamente. Não havia nada a perder em falar francamente. E mergulha no livro de Nemésio de novo.
João Garcia fora também um cobarde, encostado ao muro da Quinta, com arreceios do pai de Bidinha. Que homem que ama tem desbrio do pai da amada? Era mas é peito cheio e conversa escancarada.
Bidinha não gostou destas migalhas, desta parca prova de afeição e, numa carta para Lisboa, que João Garcia esperava desesperado, arremessou-lhe com o corte.
Ambos de parte a parte a morrer de saudades um do outro.
Garcia acaba por casar com Laura, devedor do pai da moça mas sem nunca esquecer Bidinha.
E Margarida, a mulher com quem Maria mais se identificara ao longo de todo o romance, alevantada, franca, expressiva, desejosa de se sentir útil e prestável, mas impulsiva sempre, após os desgostos maiores da morte do tio preferido e da aventura entre homens em meio de um baleeiro à cata de um cachalote, termina de forma imprevisível.
A sua aventura no barco, sozinha, deixou-a mal falada no Faial. Foi graciosamente recolhida na Urzelina, em São Jorge, pelo barão e a esposa, pais de André Barreto, enquanto esperava que saísse de novo um barco de volta ao Faial, quando o mar finalmente se acalmasse.
E Bidinha acaba, por falta de forças e de ânimo e de esperança e de fé, por casar com André, apenas por ser de boas famílias, num conceito de amor perfeitamente execrável.
Choram as cascatas em São Jorge como os olhos de Maria.
Indiferente à algazarra que faziam na piscina, Maria deitara-se a ler na rede de pano, com a vista do morro do Livramento e o mar como fundo. De braços ao alto, com o livro recortado no céu azul pincelado de nuvens brancas, evadiu-se para 1918, terminou o epílogo com atenção e esmoreceu.
Afinal, a protagonista desiludia-a, afinal aquela jovem de 20 anos pensava de forma bem diferente de si. Amortalhava-se em vida com a inércia de uma desistência incrível que a desgostava profundamente.
Margarida e André, após três meses de casamento, lançam-se na lua de mel, juntamente com os pais de André e a irmã, Clara. Vão num navio para a Europa. Bem sabe Maria que os tempos são outros. O que pode fazer sozinha, graças a Deus, não podia Bidinha à época: ir conhecer Roma, Paris, Bruxelas e Varsóvia, ir até à Holanda e Inglaterra mais tarde, mas casar para poder viajar é uma felicidade enganosamente falsa.
Bidinha encontra um velho amigo de infância, no convés, que lhe pergunta pelos noivos, como estão, e esta responde-lhe que o amor de casados é como uma morte, um navio encalhado e seguro, que não vai a lado nenhum:
"Para quem se preza e já não tem ilusões, é a grande âncora (...) ser uma mulher casada é ser como um daqueles veleiros que se deixavam apodrecer meses e meses na horta, amarrados a uma bóia da Doca; ou, se quisermos puxar as comparações ao trágico: como um morto que encontra a paz e a luz perpétua numa sepultura que os seus compraram e que trazem asseadinha... (...)".
Como pode alguém na flor da idade pensar semelhante coisa? E, todavia, fora exactamente isso que Maria vivenciara com os seus vinte também, uma morte prematura, um desânimo. Felizmente, soubera sair desse túmulo. Mas conhece alguns punhados de pessoas que se amarram a outras apenas para não estarem sós. Que vida é essa? Perdoem-lhes pois não sabem o que fazem.
Nessa noite, Margarida vai até à proa, só, pensando sistematicamente em João Garcia, casado lá longe com Laura, pensando ele nela também.
Faróis que se apagam e desistem de se iluminar...
Observa o anel com as pedrinhas que tanto gostava de tirar e pôr do dedo (e com que João brincara, reparando nesse vício). De súbito, atira-o ao mar como se as memórias fossem destruídas e desaparecessem com o anel, para a "cucumária dos abismos"...
Mas não, essas permanecem, e que triste é ler o destino de duas pessoas que se amam escolherem caminhos díspares e infelizes. "Não faças isso", diz Maria a Bidinha.
Maria Emília toca-lhe suavemente no ombro. Não sabe quanto tempo se deixara dormir. "Temos de nos arranjar para jantar". Estremunhada, com o livro no colo, Maria compreende onde está. Em sonhos, fora para bem longe dali, ao convés do navio, quase esbofetear Bidinha. De nada valia ter saudades de conversas profundas se nada se faz para as voltar a ter... pensou... e de nada valiam mais reflexões filosóficas àquela hora, "isso são outros catorze", como dizem nos Açores.
Está em São Jorge, no ano de 2022, no relvado do hotel, com uma vista soberba e há um jantar para fruir, uma mesa com queijos, mel e folhinhas de hortelã, uma mistura saborosíssima e inesquecível.
Carpe Diem Noctemque*
Sem comentários:
Enviar um comentário