segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Δéρμα, -ατος



(...)
The beauty goddess burns in her myths
and lives my life.

Eranna to Sappho, New Poems (Neue Gedichte, de Rilke tradução de W. Barnstone)

Métarythmisation

Le rythme existe dans toute la nature, et le corps humain est réglé par ce principe universel.
Le corps humain a donc été organisé et animé d'après les lois de la musique.
Le corps fonctionne comme un poème.

Serait-il donc possible que l'on pût ainsi cueillir et se recueillir dans l'harmonie?

C'est que nous sommes des vivants harmonieux, prêts pour la musique et le poème, puisque nous sommes déjà musique et poème.

but you are the music
While the music lasts. 
(The Dry Salvages, No. 3 of 'Four Quartets)

Écoutons le spondée en nous; méfions-nous de l'iambe meurtrier.

Car nous allons à la mort au pas cadencé.

Jackie Pigeaud, Poésie du Corps, Manuels Payot, Paris 1999.
On l'a gagnée et on l'a perdue
(fotografia minha, Real República do Bota Abaixo)



domingo, 27 de fevereiro de 2011

Tortura
 
(...) 
Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!
 
Florbela Espanca

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Vórtex do desejo

Infelizmente não tenho o livro comigo, mas é qualquer coisa assim deste género:

"Ambos sabem que aquilo é um jogo e estão decididos a dar-lhe o fim a que se destina. A mão que segura o batente é já frouxa...abre-se a porta e lançam-se um contra o outro numa ânsia a que o perigo dá mais fervor"

Inês de Portugal, João Aguiar

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Um Homem que Está

Escrita Pluriversa, , exposição de poesia visual de Ana Hatherly 





um homem que está
no meio da entreaberta porta
apenas não fechada ainda
ou já
está
entrando ou saindo dela

lividamente ou putrefacto

um homem está
na entreaberta
entretanto
porta
apenas não fechada ainda
ou já

Ana Hatherly, in "Um Calculador de Improbabilidades"

Sou eu, desde a aurora

Desde a Aurora

Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,

entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:

vai entrar o vento ou o violento
aroma de uma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:

é tempo de colher: a noite
iluminou-se bago a bago: vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.

Sou eu, desde a aurora,
eu — a terra — que te procuro.

Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Pesa na tarde uma ausência. Uma ausência que ninguém sabe, ninguém sente. Só ao meu coração dói. És tu, mito antigo, sonho colectivo da beirada, és tu que me habitas. E o teu nome é sereia.
Não como um corpo, mas como um pensamento.

Luísa Dacosta

E porque amanheci assim

O Beijo, de Klimt
O Beijo, de Munch

"A estranha sensação de que, aos poucos, se verificara uma verdadeira proliferação de O beijo, como se brotasse de tudo o que era vida, cor, forma ou movimento; em tudo nos acenasse. O beijo  preservava os cabelos dos desmandos do vento ou protegia os ombros da brisa fresca da noite. O beijo sorria nos seios jovens da donzela apetitosa (...) O beijo abrigava da chuva e resguardava os calores das mais afogueadas".
José Ribeiro Ferreira, Os Sons e os Silêncios, Fluir Perene, Coimbra 2005
(a propósito de O beijo de Klimt)



















segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011


Gladiator Soundtrack - 17 - Now We Are Free



Um hálito de música ou de sonho, qualquer coisa que faça quase sentir, qualquer coisa que faça não pensar.


Eu parti? Eu não vos juraria que parti. Encontrei-me em outras partes...

De resto, com que posso contar comigo? Uma acuidade horrível das sensações, e a compreensão profunda de estar sentindo...
 
Esta tendência carnal para converter todo pensamento em expressão, ou antes, pensar como expressão todo pensamento; de ver toda a emoção em cor e forma, e até toda negação em ritmo.


Bernardo Soares 

"Não há sossego - e, ai de mim!, nem sequer há desejo de o ter."


Trailer #9 Filme do Desassossego
http://www.youtube.com/watch?v=1B1KccMmD9E&feature=related




Ópio tenho-o eu na alma.

Ali estava face a um esmagamento de estilhaços

Então a mulher arrancou das órbitas os olhos dolorosos, abandonou-os no banco e, estátua cega, começou a caminhar por entre as folhas dos plátanos, das tílias, dos liliodendros, já não promessas mas mortas referências ignoradas, que cobriam, como um sudário, a tarde anoitecida.
Luísa Dacosta


Como unir no mesmo tecido a singularidade do teu corpo à percepção das coisas mais alheias e distantes? O meu desejo de quanto há em ti de mais teu, como dizer-to a ti que só existes como símbolo, ânsia em carne viva, mistura de esperança e fúria até ao último átomo de oxigénio?

Luísa Dacosta, Corpo Recusado

domingo, 20 de fevereiro de 2011

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Beijo no Tempo

Relógio, Museu Romântico, Porto, fotografia minha (18/02/2011)
"Nenhum tecido igualava a seda da sua nudez. Nenhuma jóia o brilho dos seus olhos. E aguardava um coração livre, para a noite, infindável, do amor
O sol sucedia-se à ronda das luas, as manhãs apagavam as noites, o tempo fiava o ciclo do eterno retorno"
Luísa Dacosta, Corpo Recusado


O Beijo

(...)
E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...
Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'







Horas Rubras
Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos rubros e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas...

Oiço olaias em flor às gargalhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p'las estradas...

Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras...

Sou chama e neve e branca e mist'riosa...
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!
Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

E ainda:
http://www.youtube.com/watch?v=sGJ_Rir5wmo

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

“Escrever, escrever, escrever. Toma-me um desvairamento como o de ébrio, que tem mais sede com o beber para o beber, ou do impossível erotismo que vai até ao limite de sangrar. Escrever. Sentir-me devorado por essa bulimia, a avidez sôfrega que se alimenta do impossível”.

(Vergílio Ferreira, Pensar, 1992).

"Todo o entender é no impossível que tem o seu limite"

Como é que certos tipos têm belas frases à hora da morte?

O "tudo está bem" de Kant, ou o "mais luz" de Göethe, ou o "amanhã o que virá" de Pessoa, ou até mesmo, à maneira de Sócrates, o "tirem daqui as mulheres" de Herculano?
À hora da morte devia-se era estar calado. E à medida que se vai lá chegando, era o que se devia apetecer. E daí que talvez o não se perder a fala, mesmo em lamúria, é o sinal que resta de que ainda se está vivo.
Mas se a coisa é a doer, fica-se quieto e calado, à espera. A grande verdade da vida é a morte. E um morto está sossegado.
Como é que certos tipos à hora da morte têm o desplante de ter frases?

(...)

Mas o impossível é a medida do homem e da sua vocação. Aí sou. Aí estou

Vergílio Ferreira, Pensar.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Quo Vadis?

Santo-e-Senha

Deixem passar quem vai na sua estrada.
Deixem passar
Quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada.

Deixem, que vai apenas
Beber água do Sonho a qualquer fonte;
Ou colher açucenas
A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.

Vem da terra de todos, onde mora
E onde volta depois de amanhecer.
Deixem-no pois passar, agora.

Que vai cheio de noite e solidão.
Que vai ser
Uma estrela no chão.

Miguel Torga, Poesia Completa, volume I, p.93

Ausência e desvalorização de sentido

O importante é o que cada um faz do seu niilismo... Enest Jünger


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Tombar

Entrou a dementar-se aquela desconcertada cabeça. A saudade, em vez de lhe tirar lágrimas do íntimo, amadurou-lhe temporâmente o apostema de sandices, que em todo o homem se cria paredes meias com o coração.

Cairias tu nas pioses desta princesa dos mares, desta Lisboa que filtra aos nervos dos seus habitantes o fogo que lhe estua nas entranhas?
Cairias tu, anjo?

A Queda de um Anjo, Camilo Castelo Branco, Babel, 2010
Tausendfach wirken die Pfeile des Amors
Mil vezes se fazem as flechas do Amor sentir

Erotica Romana, Goethe

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Estás Só

 
Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada 'speres que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.

Ricardo Reis, in "Odes"
"quando poi davanti a te si apriranno tante strade e non saprai quale prendere, non imboccarne una a caso, ma siediti e aspetta. (…) Stai ferma, in silenzio, e ascolta il tuo cuore. Quando poi ti parla, alzati e và dove lui ti porta.”

(Susanna Tamaro – Và dove ti porta il cuore)

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Parecenças... (ou então é por serem 4h)




Bernstein Conducts Mahler Symphony No. 6 "Tragic" (1/9)


O meu avô, verdadeiro "João Semana"
http://ansianensesilustres.blogs.sapo.pt/1490.html 

Um livro não rejeita um abraço


Shakespeare na noite fria

Love is a smoke raised with the fume of sighs;
Being purged, a fire sparkling in lovers' eyes;
Being vex'd a sea nourish'd with lovers' tears:
What is it else? a madness most discreet,
A choking gall and a preserving sweet.
Casem-se os poetas com a respiração do Mundo.

(Osvaldo Alcântara)
"Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura." 

Frases como estas, que parecem crescer sem vontade que as houvesse dito, limpam-me de toda a metafísica que espontaneamente acrescento à vida. Depois de as ler, chego à minha janela sobre a rua estreita, olho o grande céu e os muitos astros, e sou livre com um esplendor alado cuja vibração me estremece no corpo todo. 

"Sou do tamanho do que vejo!" E a frase fica sendo-me a alma inteira, encosto a ela todas as emoções que sinto, e sobre mim, por dentro, como sobre a cidade por fora, cai a paz indecifrável do luar duro que começa largo com o anoitecer."


Bernardo Soares, Livro do Desassossego

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Palavras denteadas de revolta mordida

Ai, quem nunca se abraçou a um tronco não sabe o que seja ser sozinha! Arada até ao âmago da pedra, até ao nódulo da secura, com a alma rasamente aplainada, roçados, a foices de desesperanças, os trigais ainda verdes do desejo, mal despontadas as lânguidas giestas, rumurosas, onde acolher-se?
Nenhum perdão, nenhum berço para a angústia.
Restavam as palavras. Nelas ia morar. Só elas possuíam a imponderável agitação da asa ou o peso, esmagante, da pedra. Amalgamados, o frémito e a quietude, a brevidade e o eterno, que o tempo é lento a comer.
Tinha-as amado tanto! Do fundo da alma da menina que fora.
Tilintavam, caíam sobre ela, como pingos de chuva, grossa, a espapaçarem-se em terra fofa. Eram girassóis de luz raiada. Soltas. Pássaros voantes? Tranças em liberdade? Deixavam-se partir em degrauzinhos felizes (...) e podiam enrolar-se em ternuras diminutivas. Tão guardadoras da meiguice de qualquer nome! (...) a quererem amarrar o tempo, a duração tão breve, das coisas, de tudo, agora o sabia. Vermelhas, sumarentas, medronhos ou bocas maduras. E pisadas, roxas (...) Com a dureza do granito: não! Ou a macieza das dunas: sim! Poliédricas de intenções...
Mágicas. Mágicas. Mágicas.

Luísa Dacosta, Corpo Recusado, pp.16-18

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Deutsche Tänze


Franz Schubert - Deutsche Tänze D 820 (SWR Symphony Orchestra, Cambreling)

http://danielferber.wordpress.com/2008/02/13/as-dancas-da-corte/


Devido à proximidade corporal do par durante a dança, postura considerada imoral e inadequada para os costumes da época, os estados da Alemanha e da Áustria promulgaram entre 1760 e 1772 várias leis contra as danças “valsantes”, onde pudesse ocorrer o perigo de contacto físico entre elementos de sexo oposto.
No entanto, estas proibições surtiram o efeito contrário pela parte conservadora da sociedade. No contexto da Revolução Francesa, a população e a burguesia escolheram a Dança Alemã como uma das formas de contrariar os ideais da nobreza e da igreja.
Os imperadores “esclarecidos” (aqueles que tentaram conciliar as exigências da burguesia, mas sem prejudicar os privilégios da nobreza e do clero), aceitaram novamente a Dança Alemã em festas da corte. Em 1790, Joseph II, imperador da Áustria, chega a contratar os melhores compositores e músicos para criar novas Danças Alemãs. Entre os compositores que se destacaram estão Haydn, Mozart e Beethoven. No mesmo período, Franz Peter Schubert também compõe várias valsas denominadas “Deutscher Tanz”, hoje conhecidas como “German Dance”.
No Congresso de Viena (1815), a “Dança Nacional Alemã” ganha aceitação internacional, tornando-se a principal dança social do século XIX. Com advento de novos instrumentos e composições mais elaboradas, a Dança Alemã evolui, aos poucos, para a “Valsa Vienense”.
http://www.parvizyashar.com/galleri1/03.htm

Edith Piaf & Sapho


Edith Piaf- Je t'ai dans la peau 1953


"a língua se me quebrou e um subtil
fogo de imediato se pôs a correr debaixo da pele;
não vejo nada com os olhos, zunem-me
os ouvidos;

o suor escorre-me do corpo e o tremor
me toma toda."

Sapho (fr.31 PLF)

Folha de rosto de Corpo Recusado

 Acabadinho de requisitar: Corpo Recusado, de Luísa Dacosta

"Um conto de fadas era para ela uma obra d'arte comparável às mais belas ou a uma sinfonia de Beethoven" - Simone Veil, citada por seu irmão André, na biografia de Simone Pétrement

"On a perdu en rêve ce qu'on a gagné en réalité", L'Homme Sans Qualités, Robert Musil

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Desassossegada

Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar.
As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas.

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego.

Song of Solomon no filme "Keeping mum"

Rowan Atkinson a recitar a Song of Salomon com ar de seriedade e paixão: de génio
(1:00:46 - 1:03:34)

- The Bible is full of sex. Haven't you noticed? The Song of Solomon, for example...

- Ahhh, no. No. That is the passionate declaration of love from a devote man to God!

- No, - diz ela muito séria - it's about sex!!!

- Right...


Let him kiss me with the kisses of his mouth
For thy love is better than wine
His fruit was sweet to my taste
His left hand is under my head
And his right hand doth embrace me.
Behold thou art fair my love
Behold thou art fair
Thy lips are like a thread of scarlet
Thine eyes are as doves behind the veil
And comely is thy mouth
Thy two breasts are like fawns feeding among the lilies.
Thy navel is like a round gobblet
Wherein no mingled wine is wanting
Thy belly is like a heap of wheat set about with lilies.
Let thy breasts be as clusters on the vine
And thy mouth like the best wine
Open to me my dove
For my head is filled with the drops of the night
Come my beloved
Let us see if the vine flourishes
And the tender grapes appear
And the pomegranates bud forth

("Alfred Hitchcock said he had the perfect cure for a sore throat: "Cut it."

Je suis fou

Depuis cent ans la folie (littéraire) est réputée consister en ceci: "Je est un autre": la folie est une expérience de dépersonnalisation. Pour moi, sujet amoureux, c'est tout le contraire: c'est de devenir un sujet, de ne pouvoir m'empêcher de l'être, qui me rend fou. Je suis pas un autre: c'est ce que je constate avec effroi.
Je suis indéfectiblement moi-même, et c'est en cela que je suis fou: je suis fou parce que je consiste.

Les souffrances du jeune Werther, de Goethe, in Roland Barthes, Fragments d'un discours amoureux 


Par la violence du dépassement, je saisis, dans le désordre de mes rires et de mes sanglots, dans l'éxcès des transports qui me brisent, la similitude de l'horreur et d'une volupté qui m'excède, de la douleur finale et d'une insupportable joie.


Georges Bataille, Les larmes d'Éros

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Deliciosa imagem

Franz seria incapaz de dar uma ordem a Sabina.
Nunca lhe ordenara, como Tomas dantes fazia, que deitasse o espelho no chão e se pusesse a passear toda nua em cima dele.
Não que a sensualidade lhe falte - não tem é força para dar ordens.
Há coisas que só se podem fazer com violência. O amor físico é impensável sem violência.

Milan Kundera

Ainda não são suficientes os posts kunderianos?

A beleza involuntária, claro. Mas também pode dizer-se: a beleza por engano. Antes de deixar definitivamente o mundo, a beleza ainda há-de subsistir alguns instantes, mas por engano. A beleza por engano é o último estádio da história da beleza.

Milan Kundera

sábado, 5 de fevereiro de 2011

desconstrução

Para ele a música é libertadora: liberta-o da solidão e da clausura... e abre-lhe portas no corpo por onde a alma pode sair e confraternizar.

O ruído tem uma vantagem. É que as palavras não se ouvem, Desde a juventude não fizera outra coisa senão falar, escrever, dar aulas, inventar frases, procurar fórmulas, corrigi-las, de tal maneira que as palavras já não tinham nada de exacto, o sentido esbatia-se-lhes, perdiam o conteúdo e só restavam migalhas, moinhas, poeira, areia que lhe flutuava no cérebro...

Apeteceu-lhe então, confusa e irresistivelmente, uma música enorme, um ruído absoluto, uma barulheira infernal que se espalhasse sobre todas as coisas, inundasse tudo, abafasse tudo, onde a dor, a vaidade e a mesquinhez das palavras perecessem para todo o sempre.
A música era a negação das frases, a música era a antipalavra!

Milan Kundera, A insustentável leveza do ser

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Sinestesia



Bach: Magnificat In D, BWV 243 - Gloria Patri

"... sentiu a tripulação da alma a lançar-se para a ponte do corpo"
Milan Kundera
Mas o amor a nascer aguçou-lhe o sentido da beleza e, por isso, nunca mais esquecerá essa música. (...)
Tudo o que se passar à sua volta nesse instante ficará aureolado com o brilho dessa música e será belo.
(...)

Mesmo nos momentos da mais profunda desordem, é segundo as leis da beleza que, secretamente, o homem vai compondo a sua vida.

A insustentável leveza do ser, Milan Kundera

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O que escolheremos então? O peso ou a leveza?


... mas, na verdade, será atroz o peso e belo a leveza? o mais pesado fardo nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. 
Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital. 
Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira.

Milan Kundera

A Sustentável leveza do ser

Le roi danse, drama francês do realizador Gérard Corbiau 2000

http://www.imdb.com/title/tt0244173/plotsummary


Ecfrasis

Par la beauté de ses mouvements, la pureté de ses lignes, sa plastique, la Danse s'apparente à la peinture. Par sa science de la répartition des volumes, elle participe à la sculpture, par la composition de ses évolutions dans l'espace, elle participe à l'architecture, enfin, elle est la traduction visuelle des sensations auditives de la musique. À tout cela, elle ajoute ce qui lui est propre: le mouvement, impliquant la notion de temps qui n'existe pas dans les autres arts.

La Danse est de ce fait le plus fugitif de tous les arts. Elle n'existe qu'à l'instant même de sa création et ne laisse aucune trace matérielle. Elle est pour le spectateur un enchantement des yeux, un mirage qui s'évanouit lorsqu'on veut le saisir.

Fotografia de Solve Sundsbo.
http://stylefrizz.com/200803/solve-sundsbo-invitation-a-la-danse/


Porque não terei
pensado nisto já antes?
Este corpo meu
ao recordar tanto o teu
tem a marca que deixaste.

Isumi Shikibu

(mais sobre tanka em http://en.wikipedia.org/wiki/Waka/_poetry)

Eugénio de Andrade: Palavras

Palavras que muito amei
Que talvez ame ainda
Elas são a casa, o sal da língua.

in O Sal da Língua

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A insustentável leveza do ser

 Nesnesitelná lehkost bytí

Fui, uma vez mais, agraciada com um belo presente: A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera.

Tenho o livro nas mãos desde esta madrugada, mas ainda não vou poder lê-lo já já. Não obstante, só a beleza do título vale um post!


(merci, Sophie, pela lembrança que acarreta, de si, um tremendo significado)