Melo, 2 de Setembro
Estou escrevendo, com este, um outro diário. Traslado para aqui as minhas impressões de hoje:
1 pão ------------------------------2.80
2 quilos de batata -------------- 2.40
1/2 quilo de arroz -------------- 4.80
Peço desculpa à literatura.
Vergílio Ferreira, Diário Inédito 1944-1949 , ed de F. Irene Fonseca, Bertrand Editora, Lisboa 2008, p.101
"Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve", Vergílio Ferreira, Escrever
domingo, 30 de dezembro de 2012
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
Escrevo
Escrevo já com a noite
em casa. Escrevo
sobre a manhã em que escutava
o rumor da cal ou do lume,
e eras tu somente
a dizer o meu nome.
Escrevo para levar à boca
o sabor da primeira
boca que beijei a tremer.
Escrevo para subir
às fontes.
E voltar a nascer.
Eugénio de Andrade, "Os sulcos da sede", Poesia
Escrevo já com a noite
em casa. Escrevo
sobre a manhã em que escutava
o rumor da cal ou do lume,
e eras tu somente
a dizer o meu nome.
Escrevo para levar à boca
o sabor da primeira
boca que beijei a tremer.
Escrevo para subir
às fontes.
E voltar a nascer.
Eugénio de Andrade, "Os sulcos da sede", Poesia
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
mas tu não estás lá
![]() | ||
| Quadro de Edvard Munch, Three Stages of Woman (1894) http://www.edvardmunch.org/woman-in-three-stages.jsp |
Se tu viesses. Gostava tanto de te ver. Em qualquer idade da vida, que em todas estarias certa com a minha necessidade de te amar. Na idade jovem do teu cabelo à garçonne, na tua idade azougada em que eras mais enérgica do que a vida, mulher eléctrica, quando eu ficava estoirado só de te ver. Ou mais tarde, à hora desta deusa Primavera que tenho aqui. Ou mesmo já no fim, quando te levava pela mão, já trôpega, atrapalhada com todas as peças de seres, e íamos almoçar ao restaurante em frente de casa. (...)
Só eu conhecia o teu corpo, o percurso nele do meu prazer. Da tua beleza. É preciso um esforço, eu sei. É preciso uma atenção infinita para lhe descobrir o seu rasto. (...)
Lavo o teu corpo mas tu não estás lá. Lembro-me. Outrora vinhas de dentro de ti e chegavas até ao limite dos dedos, das unhas, dos cabelos. Estavas em todo o teu corpo e eu reconhecia-te. Na pele, nos gestos. Nos olhos eléctricos, vivacíssimos. Mas agora está só o teu corpo sem ninguém que se responsabilize por ele.
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
síntese do sono
O Sono
O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim —
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.
Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
E o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.
O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.
Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?,
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.
Meu Deus, tanto sono!...
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Se eu atravessar uma aldeia a cavalo, não há dúvida de que vou mais depressa, mas se for a pé vejo mais coisas e os meus amigos podem convidar-me a entrar na sua cabana. Raramente se ganha em chegar mais depressa ao fim da viagem. O Papalagui corre sempre para um determinado fim. A maior parte das suas máquinas destina-se a fazê-lo atingir mais depressa esse fim. E mal ele o atinge, logo parte com outro destino. O Papalagui leva, pois, toda a vida a correr até perder o fôlego, e cada vez mais se esquece do que é andar, passear, caminhar alegremente para um fim que virá ao nosso encontro sem que o tenhamos procurado.
O Papalagui, p.86
O Papalagui, p.86
domingo, 28 de outubro de 2012
"E de súbito dei conta que estava sozinho. Olhei ao lado e tu não
estavas. Sozinho.
E o coral dos padres era incomodativo. Foi quando te
vi no espaço da Sé, rodavas à volta e no ar.
Não era talvez o teu exercício de ginástica, era uma coisa leve e doce que já não era ginástica mas estava para lá disso e era uma dança aérea, coisa alada. E estavas talvez nua e não se pensava na tua nudez. Os padres cantavam aquela música deles que é do céu e do inferno, música bela e terrível. E tu dançavas e eles não te viam, eu sim. (...) E tudo isto se ligava entre si mas eu não entendia, como em todo o mistério visível. Os cantos reboavam pelas arcadas da Sé e era muito doce ver-te dançar na eternidade. Sentia-me eu suspenso também, fora do meu peso terrestre."
Vergílio Ferreira, Em nome da terra, p.176
Pina Bausch, coreógrafa e bailarina (aqui, em "Café Müller"1978)
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
“No verdadeiro domínio da arte, porém, um valor novo quebra ainda a agressividade
da tragédia: a sua integração num plano universal, aí onde o nosso caso
concreto se dissolve e assume uma indizível necessidade,
aí onde, pois, reconhecemos o nosso destino e nos investimos dele.
Ter-se-á explicado tudo? Mas nada do que apenas é se explica.
E a arte simplesmente é...”,
Vergílio Ferreira, Espaço do Invisível I, Bertrand Editora, Lisboa, 1990, p.30
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
21 de Junho (quinta) - Não passes mais na minha memória, não passes. Aquieta-te no sem-fim do lembrar. Para invenção de mim nas horas difíceis de abandono ao impossível que está sempre na minha memória sem razão. Não há realidade no real que relembro, porque essa realidade sou eu. Sossega no teu nada não voltes mais. O que escrevo não foi, é o absoluto do meu imaginar. Esfuma-te na balada que eu ouça, está só na sua música de pobreza e sê lá só a ficção de ti. Que a sombra que te trouxe te leve de novo para sempre. E a melancolia que nela vive seja a razão verdadeira de te esquecer.
Vergílio Ferreira, Conta-Corrente, nova série II, Bertrand Editora, Lisboa, Abril de 1993, p.158
Vergílio Ferreira, Conta-Corrente, nova série II, Bertrand Editora, Lisboa, Abril de 1993, p.158
Ele há Manifestos
http://youtu.be/vpRJapo5xJI
Manifesto Anti-Cavaco, reescrito a partir do Manifesto Anti-Dantas pelo genial Mário Viegas,
em 1995, respeitando e muito o texto de Almada Negreiros
http://blog-do-manel.blogspot.pt/2012/01/manifesto-anti-cavaco-escrito-por-mario.html
Aqui, o texto completo.
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
queridos irmãos que não pensais
Nunca encontrei verdadeira tranquilidade e nunca senti, como então, tantas saudades da minha cabana de Samoa, onde só o que há é uma esteira e um rolo de dormir, onde só o que chega até mim é a suave brisa do mar...
É verdade que nós exercemos pouco o saber a que o Papalagui chama "pensar", mas a questão que se põe é a de saber qual dos dois é mais estúpido, se aquele que não pensa muito ou se aquele que pensa em demasia. O Papalagui não pára de pensar: "A minha cabana é mais pequena do que a palmeira; a palmeira verga-se por causa da tempestade; ou isto é o fragor da tempestade!" É assim que ele pensa no que o preocupa. Mas também ele próprio é objecto dos seus pensamentos. (...)
Mas o Papalagui pensa tanto, que o acto de pensar se tornou um hábito, uma necessidade, e até mesmo uma coacção. Vê-se obrigado a pensar continuamente. Só muito a custo consegue não fazê-lo e deixar viver todas as partes do seu corpo ao mesmo tempo. Na maior parte do tempo vive apenas com a cabeça, enquanto os sentidos dormem um profundo sono. Muito embora isso o não impeça de andar normalmente, de falar, de comer e de rir, permanece fechado na prisão dos seus pensamentos - os quais são fruto da reflexão. Deixa-se por assim dizer embriagar pelos seus próprios pensamentos. Quando brilha um belo sol, logo ele pensa: "Que belo sol que está agora!" E continua a pensar, sempre a pensar: "Mas que belo sol!" Ora isso é falso, absolutamente falso, é uma aberração, pois quando o sol brilha, vale mais não pensar em nada. Qualquer Samoano sensato irá estender e aquecer o seu corpo ao sol, sem mais reflexões. E goza do sol não só com a cabeça, mas também com as mãos, com os pés, com as coxas, com o ventre, em resumo, com o corpo todo. Deixa a sua pele e os seus membros pensarem por si próprios, e eles pensam à sua maneira, por certo diferente da da cabeça. Os pensamentos barram amiúde o Papalagui, como um grande bloco de lava impossível de deslocar. (...)
O Papalagui é, regra geral, um ser vivo dominado por uma perpétua luta entre os seus sentidos e o seu espírito, um ser humano dividido em dois. (...)
Há, de resto, muitas maneiras de pensar e toda a espécie de alvos convém às setas do espírito. Que triste sorte a do homem que pensa em coisas tão longínquas como por exemplo: "Que irá acontecer amanhã, ao alvorecer do dia?" (...) É tão vã esta maneira de pensar, como é vão tentar ver o sol de olhos fechados, não se consegue. (...) Foi atingido pela grave doença de estar sempre a pensar.
Na Europa, dizem que este modo de proceder torna o espírito mais aberto e sedutor. Quando alguém pensa muito e com rapidez, diz-se que é uma grande cabeça. (...)
Nunca ninguém conseguiu trepar mais alto do que o cocoruto da palmeira a que se agarrou; chegando ao cimo teve que parar, por não haver mais tronco a que se agarrar para continuar a subir. Além do mais, o Grande Espírito não gosta da curiosidade dos homens; é por isso que estendeu, sobre todas as coisas, grandes lianas sem princípio nem fim. Eis a razão pela qual todo o indivíduo que siga até ao fim o fio dos seus pensamentos, se vê forçado a reconhecer que nem por isso ficou a saber algo mais (...)
Mas a maior parte dos doentes do pensamento persiste na sua voluptuosa paixão. (...)
Ser instruído significa: atravancar a cabeça com saber, até ela quase estoirar. (...) Todo o Papalagui tem por obrigação, acima de tudo, saber e pensar. (...)
Queridos irmãos que não pensais (...) será que realmente desejareis imitar o Papalagui e aprender a pensar como ele? Por mim digo "Não!" Pois devemos evitar tudo o que não fortifique o corpo (...) Acautelemo-nos, sobretudo, contra tudo o que nos possa fazer perder a alegria de viver, contra tudo o que possa ensombrar-nos o espírito, roubando-lhe a sua luz radiante...
O Papalagui, discurso de Tuiavii chefe de tribo de Tiavéa nos mares do Sul, trad. de L. Jorge, Edições Antígona, Lisboa 1988 (9ª ed), pp.111-120
É verdade que nós exercemos pouco o saber a que o Papalagui chama "pensar", mas a questão que se põe é a de saber qual dos dois é mais estúpido, se aquele que não pensa muito ou se aquele que pensa em demasia. O Papalagui não pára de pensar: "A minha cabana é mais pequena do que a palmeira; a palmeira verga-se por causa da tempestade; ou isto é o fragor da tempestade!" É assim que ele pensa no que o preocupa. Mas também ele próprio é objecto dos seus pensamentos. (...)
Mas o Papalagui pensa tanto, que o acto de pensar se tornou um hábito, uma necessidade, e até mesmo uma coacção. Vê-se obrigado a pensar continuamente. Só muito a custo consegue não fazê-lo e deixar viver todas as partes do seu corpo ao mesmo tempo. Na maior parte do tempo vive apenas com a cabeça, enquanto os sentidos dormem um profundo sono. Muito embora isso o não impeça de andar normalmente, de falar, de comer e de rir, permanece fechado na prisão dos seus pensamentos - os quais são fruto da reflexão. Deixa-se por assim dizer embriagar pelos seus próprios pensamentos. Quando brilha um belo sol, logo ele pensa: "Que belo sol que está agora!" E continua a pensar, sempre a pensar: "Mas que belo sol!" Ora isso é falso, absolutamente falso, é uma aberração, pois quando o sol brilha, vale mais não pensar em nada. Qualquer Samoano sensato irá estender e aquecer o seu corpo ao sol, sem mais reflexões. E goza do sol não só com a cabeça, mas também com as mãos, com os pés, com as coxas, com o ventre, em resumo, com o corpo todo. Deixa a sua pele e os seus membros pensarem por si próprios, e eles pensam à sua maneira, por certo diferente da da cabeça. Os pensamentos barram amiúde o Papalagui, como um grande bloco de lava impossível de deslocar. (...)
O Papalagui é, regra geral, um ser vivo dominado por uma perpétua luta entre os seus sentidos e o seu espírito, um ser humano dividido em dois. (...)
Há, de resto, muitas maneiras de pensar e toda a espécie de alvos convém às setas do espírito. Que triste sorte a do homem que pensa em coisas tão longínquas como por exemplo: "Que irá acontecer amanhã, ao alvorecer do dia?" (...) É tão vã esta maneira de pensar, como é vão tentar ver o sol de olhos fechados, não se consegue. (...) Foi atingido pela grave doença de estar sempre a pensar.
Na Europa, dizem que este modo de proceder torna o espírito mais aberto e sedutor. Quando alguém pensa muito e com rapidez, diz-se que é uma grande cabeça. (...)
Nunca ninguém conseguiu trepar mais alto do que o cocoruto da palmeira a que se agarrou; chegando ao cimo teve que parar, por não haver mais tronco a que se agarrar para continuar a subir. Além do mais, o Grande Espírito não gosta da curiosidade dos homens; é por isso que estendeu, sobre todas as coisas, grandes lianas sem princípio nem fim. Eis a razão pela qual todo o indivíduo que siga até ao fim o fio dos seus pensamentos, se vê forçado a reconhecer que nem por isso ficou a saber algo mais (...)
Mas a maior parte dos doentes do pensamento persiste na sua voluptuosa paixão. (...)
Ser instruído significa: atravancar a cabeça com saber, até ela quase estoirar. (...) Todo o Papalagui tem por obrigação, acima de tudo, saber e pensar. (...)
Queridos irmãos que não pensais (...) será que realmente desejareis imitar o Papalagui e aprender a pensar como ele? Por mim digo "Não!" Pois devemos evitar tudo o que não fortifique o corpo (...) Acautelemo-nos, sobretudo, contra tudo o que nos possa fazer perder a alegria de viver, contra tudo o que possa ensombrar-nos o espírito, roubando-lhe a sua luz radiante...
O Papalagui, discurso de Tuiavii chefe de tribo de Tiavéa nos mares do Sul, trad. de L. Jorge, Edições Antígona, Lisboa 1988 (9ª ed), pp.111-120
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Trago na palma da mão a luz diurna: e a ferida no flanco.
O meu deus, o meu demónio, respira fundo e alto.
Ela, a minha múltipla companheira,
é uma coluna silenciosa e ardente.
A luz sela esta aliança entre o sopro e a matéria
e uma voz se eleva nos barcos do silêncio.
António Ramos Rosa, "Três lições materiais", Antologia poética (1989)
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Para um Amigo Tenho Sempre
Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.
António Ramos Rosa, in "Viagem Através de uma Nebulosa"
domingo, 23 de setembro de 2012
És a carne dos deuses / O sorriso das pedras
| Castelo de Aguiar (22 de Setembro 2012) |
"És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.
És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto
(...)
Tudo repousa em paz no teu regaço."
À beleza, Odes
Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens só me deram tristezas. Ou eu nunca os entendi, ou eles nunca me entenderam. Até os mais próximos, os mais amigos, me cravaram na hora própria um espinho envenenado no coração.
A terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa foi sempre generosa. É claro que nunca um panorama me interessou como gargarejo. É mesmo um favor que peço ao destino: que me poupe à degradação das habituais paneladas de prosa, a descrever de cor caminhos e florestas. As dobras, e as cores do chão onde firmo os pés, foram sempre no meu espírito coisas sagradas e íntimas como o amor. Falar duma encosta coberta de neve sem ter a alma branca também, retratar uma folha sem tremer como ela, olhar um abismo sem fundura nos olhos, é para mim o mesmo que gostar sem língua, ou cantar sem voz. Vivo a natureza integrado nela. De tal modo, que chego a sentir-me, em certas ocasiões, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro.
Nenhum outro espectáculo me dá semelhante plenitude e cria no meu espírito um sentido tão acabado do perfeito e do eterno. Bem sei que há gente que encontra o mesmo universo no jogo dum músculo ou na linha dum perfil. Lá está o exemplo de Miguel Ângelo a demonstrá-lo. Mas eu, não.
Eu declaro aqui a estas fundas e agrestes rugas de Portugal que nunca vi nada mais puro, mais gracioso, mais belo, do que um tufo de relva que fui encontrar um dia no alto das penedias da Calcedónia, no Gerez. Roma, Paris, Florença, Beethoven, Cervantes, Shakespeare...
Palavra, que não troco por tudo isso o rasgão mais humilde da tua estamenha, Mãe!
Miguel Torga, in "Diário (1942)"
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
corpo que pode dizer "eu"
| Vila Pouca de Aguiar |
O “eu” de cada
homem é inatingível, enquanto esse “eu” é um actuar e ser de dentro para fora.
Eis porque até mesmo a exterioridade em que dois homens se encontram é vivida
em cada um em radical solidão. A causa que nos une é o sol que nos aquece ou a
pedra que ambos reconhecemos entre nós. Mas o calor do sol e a resistência da
pedra é cada “eu” que a sente e ninguém mais por ele. No acto amoroso, um “tu”
está sempre distante ainda que tudo o que ele é esteja ao alcance da nossa mão.
Cada “eu” é o seu corpo, porque o corpo não é bem um “instrumento” mas ainda um
modo subjectivo de o sermos, um modo ainda de sermos nós. (...)
E, todavia, como
um “eu”, nós somos totalmente o nosso corpo e o que através dele ou com ele
somos ou manifestamos, e no entanto somos ainda outra coisa que está atrás disso tudo, embora não esteja lá. O “tu”
que se atinge no acto amoroso é o corpo que se atinge e as palavras que ele diz
e o prazer que manifesta; e no entanto é ainda outra coisa atrás disso e que é
a pessoa que é tudo isso, a sua proprietária, a indizível realidade que pode
dizer “eu sinto, eu amo, este corpo é meu”. (...)
Esse alguém está
lá e no entanto não está. E tanto não está que quando o corpo morrer nada desse
alguém permanece. (...)
Não pretende
assim bem realizar o ingénuo mito platónico (...) da união das duas metades, o
mito da complementaridade em que os moderados se fixam, mas sim fazer que de
dois todos nasça um todo apenas e que esse todo, absurdamente, seja vivido pelo
nosso “eu” através do “tu” que enfrentamos.
Vergílio Ferreira, “XII Erotismo”, in Invocação ao meu corpo, Bertrand, 1994, pp.175-177
domingo, 9 de setembro de 2012
E hei-de acabar assim, a dizer-lhe que não.
Coimbra, 10 de Dezembro de 1958 - há vinte e cinco anos a lidar profissionalmente com a morte, e cada vez me sinto menos capaz de a compreender e aceitar. A meio caminho entre o puro campónio e o puro cerebral, perante ela nem consigo ter a paz do rústico, que olha o trânsito de cada existência como um ciclo da natureza, nem a dor do intelectual, que o vê em função de categorias mentais. Mal a descortino à cabeceira dum doente, reajo sempre da mesma maneira instintiva e sobressaltada. E, sem querer saber das suas razões, passo a guerreá-la encarniçadamente com as armas de que disponho. Esgoto o arsenal da farmacopeia e da esperança. Metido quase fisiologicamente na pele do enfermo, e servido pela terapêutica que a ciência me fornece, luto até não poder mais. E quando é ela que triunfa, apenas pragmaticamente aceito a derrota. Vencido mas não convencido, retempero os conhecimentos e a coragem, e preparo-me para o combate seguinte. E hei-de acabar assim, a dizer-lhe que não.
Coimbra, 20 de Janeiro de 1961 - A pergunta é sempre a mesma, mas o tamanho da resposta varia consoante a disponibilidade e a pachorra.
-A medicina dá muitos escritores! Por que será?
Pacientemente, dobro a receita, tiro os óculos, levanto-me e começo o sermão, que hoje me saiu um pouco sincopado:
- Não é ela que os dá. Limita-se, simplesmente, a preservar esse dom aos que nasceram com ele, o que já não é pouco. Ao invés doutras profissões, que estrangulam no indivíduo o espírito de aceitação e compreensão do semelhante, esta faz o contrário. O médico, como tal, nem pode fechar as portas da alma, nem apagar a luz do entendimento. É todo o humano que o solicita a todas as horas: o que sofre, o que simula, o que teme e o que desvaria. E só a graça de uma certa dimensão afectiva e mental permite corresponder eficientemente a tantos e tão diversos apelos. Ora, essa dimensão está implícita na condição do artista, o mais receptivo e perceptivo dos mortais. Por isso, quando o acaso sobrepõe a uma vocação criadora uma condenação clínica, não há dramas sangrentos. A caneta que escreve e a que prescreve revezam-se harmoniosamente na mesma mão.
Miguel Torga, Diário, excerto in A caneta que escreve e a que prescreve , Doença e Medicina na Literatura Portuguesa, Antologia (org. de C. Rocha), Verbo, babel, Lisboa 2011 pp.200-201
Coimbra, 20 de Janeiro de 1961 - A pergunta é sempre a mesma, mas o tamanho da resposta varia consoante a disponibilidade e a pachorra.
-A medicina dá muitos escritores! Por que será?
Pacientemente, dobro a receita, tiro os óculos, levanto-me e começo o sermão, que hoje me saiu um pouco sincopado:
- Não é ela que os dá. Limita-se, simplesmente, a preservar esse dom aos que nasceram com ele, o que já não é pouco. Ao invés doutras profissões, que estrangulam no indivíduo o espírito de aceitação e compreensão do semelhante, esta faz o contrário. O médico, como tal, nem pode fechar as portas da alma, nem apagar a luz do entendimento. É todo o humano que o solicita a todas as horas: o que sofre, o que simula, o que teme e o que desvaria. E só a graça de uma certa dimensão afectiva e mental permite corresponder eficientemente a tantos e tão diversos apelos. Ora, essa dimensão está implícita na condição do artista, o mais receptivo e perceptivo dos mortais. Por isso, quando o acaso sobrepõe a uma vocação criadora uma condenação clínica, não há dramas sangrentos. A caneta que escreve e a que prescreve revezam-se harmoniosamente na mesma mão.
Miguel Torga, Diário, excerto in A caneta que escreve e a que prescreve , Doença e Medicina na Literatura Portuguesa, Antologia (org. de C. Rocha), Verbo, babel, Lisboa 2011 pp.200-201
Ter a tua alegre inconsciência / E a consciência disso
Esta espécie de loucura
Que é pouco chamar talento,
E que brilha em mim na escura
Confusão do pensamento,
Não me traz felicidade,
Porque, enfim, sempre haverá
Sol ou sombra na cidade,
Mas em mim não sei o que há.
*
Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma,
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com o imaginá-las
Que são mais nossas do que a nossa vida.
Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verdor turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.
Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.
Fernando Pessoa, Poesia 1918-1930
Que é pouco chamar talento,
E que brilha em mim na escura
Confusão do pensamento,
Não me traz felicidade,
Porque, enfim, sempre haverá
Sol ou sombra na cidade,
Mas em mim não sei o que há.
*
Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma,
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com o imaginá-las
Que são mais nossas do que a nossa vida.
Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verdor turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.
Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.
Fernando Pessoa, Poesia 1918-1930
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
"Um ser amado que seduz. Escrevi-lhe. Impossível que não me responda ao que eu disse a mim mesma em seu nome.
Os homens devem-nos o que imaginamos que nos darão. Remeter-lhes esta dívida.
Aceitar que sejam diferentes da nossa imaginação, é imitar abnegação de Deus.
Também eu sou diferente daquilo que me imagino ser.
A sabedoria, é o perdão."
Simone Weil, A gravidade e a graça, Antropos, Relógio d'Água, Lisboa 2004, p.15.
Os homens devem-nos o que imaginamos que nos darão. Remeter-lhes esta dívida.
Aceitar que sejam diferentes da nossa imaginação, é imitar abnegação de Deus.
Também eu sou diferente daquilo que me imagino ser.
A sabedoria, é o perdão."
Simone Weil, A gravidade e a graça, Antropos, Relógio d'Água, Lisboa 2004, p.15.
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
ninguém
Pois bem, e já que me permite aconselhá-lo, peço-lhe que desista de tudo isso. Está a olhar para fora de si, e é sobretudo isso que não deve fazer agora. Ninguém o pode aconselhar, ninguém o pode ajudar, ninguém. Há uma única via. Entre dentro de si. Investigue a razão que o leva a escrever, veja se ela lançou raízes no lugar mais recôndito do seu coração, pergunte se morreria caso fosse impedido de escrever. Acima de tudo, na hora mais silenciosa da noite, pergunte a si próprio: tenho de escrever? Escave dentro de si até encontrar uma resposta profunda. E se esta resposta for afirmativa, se puder enfrentar esta séria pergunta com um "tenho" simples e forte, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade; a sua vida, mesmo nas horas indiferentes e pequenas, terá de ser um sinal e um testemunho deste ímpeto.
Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta, Primeira Carta, Quasi Edições, Famalicão 2008, p.12
Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta, Primeira Carta, Quasi Edições, Famalicão 2008, p.12
terça-feira, 7 de agosto de 2012
cores falam de um céu que anoitece
Iniciação à noite
É a hora grave do entardecer. (...) Cessaram as cores da alegria, as que resplandecem espectaculares numa praia de verão, as cores intactas à sombra, quando o sol desce a pique. Mas as que as renderam não são cores da tristeza - são, quando muito, de uma serena aceitação. Assim elas amortecem na ameaça da noite que se adivinha e estendem-se na horizontal, que é a linha do repouso, o traço de uma soma. E se por vezes a linha desce na vertical, é à memória de uma taça que transborda em silêncio, num jardim deserto ao fim da tarde. São na sombra as cores do céu e da terra porque elas são a verdade de um homem, desde os olhos até aos pés. Mas são cores silenciosas, não daquelas que gritam e chamamos por isso "gritantes".
Espaço e silêncio são assim as dominantes destes quadros (...) - espaço que se abre para a infinitude do homem e o silêncio que sobe até esse homem da terra. São quadros para olharmos infinitamente e não para simplesmente nos alegrarmos - passarmos - e esquecermos. (...)
Pintura elegíaca? Pintura grave onde os gestos cessaram e as palavras que os acendiam. Pintura apenas de ser. Como tudo o que simplesmente é.
Vergílio Ferreira, Conta Corrente Nova Série I, Bertrand Editora, Lisboa 1993, p.39.
É a hora grave do entardecer. (...) Cessaram as cores da alegria, as que resplandecem espectaculares numa praia de verão, as cores intactas à sombra, quando o sol desce a pique. Mas as que as renderam não são cores da tristeza - são, quando muito, de uma serena aceitação. Assim elas amortecem na ameaça da noite que se adivinha e estendem-se na horizontal, que é a linha do repouso, o traço de uma soma. E se por vezes a linha desce na vertical, é à memória de uma taça que transborda em silêncio, num jardim deserto ao fim da tarde. São na sombra as cores do céu e da terra porque elas são a verdade de um homem, desde os olhos até aos pés. Mas são cores silenciosas, não daquelas que gritam e chamamos por isso "gritantes".
Espaço e silêncio são assim as dominantes destes quadros (...) - espaço que se abre para a infinitude do homem e o silêncio que sobe até esse homem da terra. São quadros para olharmos infinitamente e não para simplesmente nos alegrarmos - passarmos - e esquecermos. (...)
Pintura elegíaca? Pintura grave onde os gestos cessaram e as palavras que os acendiam. Pintura apenas de ser. Como tudo o que simplesmente é.
Vergílio Ferreira, Conta Corrente Nova Série I, Bertrand Editora, Lisboa 1993, p.39.
terça-feira, 24 de julho de 2012
Não a ouço
"- Às vezes calha falar de ti, digo que és 'bibliotecário geral'. As pessoas riem.
- Porque é que riem?
- Não sei, acham piada, levares assim a vida, para aqui enterrado em livros velhos. Acham divertido.
- Também achas, tu.
- É cómico.
e no entanto, porquê? ela sabia.
(...)
- É cómico pensar que uma pessoa levou a vida toda assim, trabalhada a traça e a bafio. Dá vontade de rir, que é que queres? a gente pensar que lá fora há coisas, acontecem coisas, revoluções, e gente que nasce e que morre, e alegria, e ar livre (...) E de repente pensar que há um tipo, que és tu, que levou a vida a cheiriscar os palimpsestos. É de rebentar a rir, hás-de concordar.
Não a ouço. Olho a tarde para lá da varanda, a montanha escura do horizonte.
(...)
- Como é que te não chegou ainda a notícia de que um livro é de um tempo que já morreu? de que é do tempo da memória e que a memória findou? Escrever um livro imagina o tempo de vida que se perdeu. E lê-lo devagar, com notas à margem. E guardá-lo em estantes como um cadáver num jazigo.
- Tu escreves para jornais.
- É diferente. Escreve-se um artigo como se toma um café. As pessoas lêem e deitam fora. Se alguém o apanha, é para uma necessidade de momento. Para embrulhar castanhas. Para utilizar na retrete quando não há papel.
(...)
- O tempo do livro é o tempo do artesanato. Coisa destinada a um indivíduo, fabricada com vagares, consumida com vagares. Não temos vagares, estamos cheios de pressa. O tempo do livro - o das saias compridas, do coco e da bengala, dos espartilhos com varas de baleia, dos colarinhos engomados até ao queixo. Tu ainda usas bengala?
(...)
- O tempo do livro é o tempo da morte e nós estamos vivos e cheios de coisas a fazer. O tempo do livro é o da imaginação trabalhosa e nós estamos cheios de realidade. Descreve esta sala e vê o tempo que se leva, tu a escreveres e eu a ler. Mas eu olho a sala e sei logo tudo. O tempo do livro é o do carro de bois. Tenho mais que fazer.
Olho a minha filha, sorri sempre. (...) Nada tenho a dizer, ela sorri ainda.
Sou do tempo dos mortos, os mortos não falam."
Vergílio Ferreira, Para Sempre, Quetzal Editores, Lisboa 2008
- Porque é que riem?
- Não sei, acham piada, levares assim a vida, para aqui enterrado em livros velhos. Acham divertido.
- Também achas, tu.
- É cómico.
e no entanto, porquê? ela sabia.
(...)
- É cómico pensar que uma pessoa levou a vida toda assim, trabalhada a traça e a bafio. Dá vontade de rir, que é que queres? a gente pensar que lá fora há coisas, acontecem coisas, revoluções, e gente que nasce e que morre, e alegria, e ar livre (...) E de repente pensar que há um tipo, que és tu, que levou a vida a cheiriscar os palimpsestos. É de rebentar a rir, hás-de concordar.
Não a ouço. Olho a tarde para lá da varanda, a montanha escura do horizonte.
(...)
- Como é que te não chegou ainda a notícia de que um livro é de um tempo que já morreu? de que é do tempo da memória e que a memória findou? Escrever um livro imagina o tempo de vida que se perdeu. E lê-lo devagar, com notas à margem. E guardá-lo em estantes como um cadáver num jazigo.
- Tu escreves para jornais.
- É diferente. Escreve-se um artigo como se toma um café. As pessoas lêem e deitam fora. Se alguém o apanha, é para uma necessidade de momento. Para embrulhar castanhas. Para utilizar na retrete quando não há papel.
(...)
- O tempo do livro é o tempo do artesanato. Coisa destinada a um indivíduo, fabricada com vagares, consumida com vagares. Não temos vagares, estamos cheios de pressa. O tempo do livro - o das saias compridas, do coco e da bengala, dos espartilhos com varas de baleia, dos colarinhos engomados até ao queixo. Tu ainda usas bengala?
(...)
- O tempo do livro é o tempo da morte e nós estamos vivos e cheios de coisas a fazer. O tempo do livro é o da imaginação trabalhosa e nós estamos cheios de realidade. Descreve esta sala e vê o tempo que se leva, tu a escreveres e eu a ler. Mas eu olho a sala e sei logo tudo. O tempo do livro é o do carro de bois. Tenho mais que fazer.
Olho a minha filha, sorri sempre. (...) Nada tenho a dizer, ela sorri ainda.
Sou do tempo dos mortos, os mortos não falam."
Vergílio Ferreira, Para Sempre, Quetzal Editores, Lisboa 2008
terça-feira, 17 de julho de 2012
Fado
Hoje a grande desgraça não fui eu:
Foi um velho navio que partiu
E me deixou no cais
Sem nenhum sonho mais.
Vila Nova, 7 de Outubro de 1936 - Aqui na minha frente a folha branca do papel, à espera; dentro de mim esta angústia, à espera: e nada escrevo. A vida não é para se escrever. A vida - esta intimidade profunda, este ser sem remédio, esta noite de pesadelo que nem se chega a saber ao certo porque foi assim - é para se viver, não é para se fazer dela literatura.
Miguel Torga, Diário vols. I a VIII 1941-1959, Publicações Dom Quixote, p.41-42.
Hoje a grande desgraça não fui eu:
Foi um velho navio que partiu
E me deixou no cais
Sem nenhum sonho mais.
Vila Nova, 7 de Outubro de 1936 - Aqui na minha frente a folha branca do papel, à espera; dentro de mim esta angústia, à espera: e nada escrevo. A vida não é para se escrever. A vida - esta intimidade profunda, este ser sem remédio, esta noite de pesadelo que nem se chega a saber ao certo porque foi assim - é para se viver, não é para se fazer dela literatura.
Miguel Torga, Diário vols. I a VIII 1941-1959, Publicações Dom Quixote, p.41-42.
sexta-feira, 13 de julho de 2012
silêncio nulo
"Ouvir as horas dizer-nos que existimos com um sorriso deliciado e incrédulo. Ver o Tempo pintar o mundo e achar o quadro não só falso mas vão.
Pensar em frases que se contradigam, falando alto em sons que não são sons e cores que não são cores. Dizer - e compreendê-lo, o que é aliás impossível - que temos consciência de não ter consciência, e que não somos o que somos. Explicar isto tudo por um sentido oculto e paradoxo que as coisas tenham no seu aspecto outro-lado e divino, e não acreditar demasiado na explicação para que não hajamos de as abandonar.
Esculpir em silêncio nulo todos os nossos sonhos de falar. Estagnar em torpor todos os nossos pensamentos de acção."
Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, Assírio&Alvim. p.374
Pensar em frases que se contradigam, falando alto em sons que não são sons e cores que não são cores. Dizer - e compreendê-lo, o que é aliás impossível - que temos consciência de não ter consciência, e que não somos o que somos. Explicar isto tudo por um sentido oculto e paradoxo que as coisas tenham no seu aspecto outro-lado e divino, e não acreditar demasiado na explicação para que não hajamos de as abandonar.
Esculpir em silêncio nulo todos os nossos sonhos de falar. Estagnar em torpor todos os nossos pensamentos de acção."
Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, Assírio&Alvim. p.374
segunda-feira, 2 de julho de 2012
vou com ele na tua órbita
Mozart - Flute Concerto No. 2 in D, K. 314 / K. 285d [complete]
"É um concerto para oboé e orquestra KV314 (285d), é um concerto para Mónica, que giro. Primeiro o oboé entra muito tímido, encolhido e em bicos de pés, na grande massa orquestral. Depois a orquestra põe-se a olhar para ele - donde veio este miúdo? e ele faz umas tantas piruetas. (...) O oboé deve estar a fazer o flique-flaque e a roda e a orquestra espantada a ver.
Querida. Quanto tu eras mais poderosa quando parecias mais frágil. A força do efémero. Da graça leve. Do que se esgueira do combate mas lhe corta os abastecimentos. A força de uma criança está na imensidão do seu possível sem nada ainda a possibilitá-lo - e então a orquestra deixa o oboé brilhar e ele entusiasma-se. Depois a orquestra entra no jogo. Como te amo. Entra no jogo numa espécie de desafio. E abafa-o, sufoca-o, outra vezes retira-se encantada a ouvi-lo. E liberto em si com um espaço largo para a sua liberdade, que garoto traquinas.
A orquestra afasta-se mais e o oboé sozinho longamente, como ele brinca, dança, vejo-te, vejo-te. No espaço da Sé, no ginásio e eu grito-te Mónica, Mónica. Passa um vento, vou com ele na tua órbita. Mónica. Como te quero.
Mas a orquestra regressa, é o segundo andamento, suponho. Há uma harmonia que os envolve a todos, o oboé mais adulto integra-se ordeiro no conjunto. Mas sempre tão triste. De vez em quando ouço-o, a voz já crescida de galispo. Mas por vezes esquece-se, volta à brincalhotice, às suas cabriolas de garoto. Vejo-o escapar-se à orquestra, a orquestra apanha-o, ele safa-se de novo num jogo de enleio mútuo de caça ao caçador.
Até que toda a orquestra põe fim às suas diabruras, o oboé é absorvido, integrado e levado lá para dentro. Deve doer-se ainda, já o não ouço. É um instrumento triste, deve ter sido órfão de pai e mãe. Digo-o baixo o no teu nome. Mónica. Entardece devagar na minha memória, vem aí a noite sobre o mundo. O teu nome. Vou repeti-lo até. Um sorriso fatigado. O teu súbito esplendor. Adormecer."
Em nome da terra, Vergílio Ferreira
domingo, 1 de julho de 2012
uma ou outra consciência tresmalhada
Coimbra, 12 de Julho de 1953 - Esta Universidade única desgraçou-nos. Se fosse obrigada a dialogar, a argumentar, a defender-se, teria de ser subtil, ágil e audaz. Assim, pôs o capelo e a borla, alheou-se da realidade no alto da sua colina dogmática, e o país, rasteiro, em baixo, foi repetindo o cantochão. E de tal modo se acostumou à sebenta, à mnemónica, ao ritmo do chouto coimbrão, que, apesar dos esforços de Lisboa e do Porto, o humanismo português continua a ter uma andadura de cortejo doutoral, oco, barroco e charameleiro.
De vez em quando, uma ou outra consciência tresmalhada tenta reagir, é certo. Mas ninguém lhe dá crédito. Se tal acontecesse, diante das razões dum Garret ou dum Eça, cada ouvinte teria de rasgar a sua própria carta de bacharel, ou a do pai, ou a do filho. E não há nada mais sagrado do que um pergaminho selado a garantir a nossa maioridade intelectual, ou a da família.
Miguel Torga, Diário, Vols. I-VIII (1941-1959), 2ªedição integral, Publicações D.Quixote, Lisboa 1999, p.700.
De vez em quando, uma ou outra consciência tresmalhada tenta reagir, é certo. Mas ninguém lhe dá crédito. Se tal acontecesse, diante das razões dum Garret ou dum Eça, cada ouvinte teria de rasgar a sua própria carta de bacharel, ou a do pai, ou a do filho. E não há nada mais sagrado do que um pergaminho selado a garantir a nossa maioridade intelectual, ou a da família.
Miguel Torga, Diário, Vols. I-VIII (1941-1959), 2ªedição integral, Publicações D.Quixote, Lisboa 1999, p.700.
segunda-feira, 25 de junho de 2012
A “ideologia portuguesa”, por Vergílio Ferreira
Em 1977 Vergílio Ferreira sobre a “ideologia portuguesa”. Espantosa e dolorosamente actual.
“Decerto que não é o mando que está no nosso horizonte – e ainda bem; mas não deve estar também a submissão. E se tal submissão é evidente, quando ao nosso destino o detêm mãos alheias, é já menos evidente quando se obscurece a consciência de que o temos, o devemos ter, nas nossas mãos. Porque o não perdemos apenas quando de facto o perdemos, mas ainda quando nos perdemos dele e nele deixamos de nos reencontrar. Não deixa de ser nosso apenas quando ele é já de outrem, mas ainda quando não o reconhecemos para o assumir e continuar. Porque esquecermo-nos de nós é correr o risco de que outros nos encontrem … (…) O mínimo que de nós podemos exigir é assim a sensatez. Parecerá um pouco excessivo, talvez, misturar o nome puro do grande poeta [Camões] à perturbação por que passamos. Porque ela desenvolve-se não apenas ou não bem numa dimensão de idealidade ou de grandeza, mas numa esfera do elementar. É mesmo grave, decerto, ou um pouco despropositado que, esquecidos do elementar, pensemos apenas no que o transcende, que, esquecidos do mais urgente, nos fixemos no que o excede, ainda que a isso julguemos mais importante. É grave assim que a um problema imediatamente económico, nós sobreponhamos um problema de ideologia. Determinados por esquemas ideológicos, enquistados nos termos de uma doutrinação, valorizando acima de tudo a nossa paixão política, ou seja a paixão de nós – porque a política, ou certa política, contra o que possa parecer, é uma paixão solitária – nós recusamo-nos muitas vezes, ou quase sempre, a pensar no que lhe subjaz, nós recusamo-nos a considerar o que a excede, nós recusamo-nos sobretudo a admitir o seu erro, ainda que a realidade a desminta. Como os medievos em face de Aristóteles, se os factos põem em causa a nossa doutrina, tudo podemos admitir, excepto que esteja errada. Porque o que está em causa somos nós. E nós, obviamente, somos exactos como um axioma …” (15-16)
[Vergílio Ferreira "Da Ausência, Camões" (discurso nas comemorações oficiais do 10 de Junho, 1977), em Camões e a Identidade Nacional, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1983]
segunda-feira, 18 de junho de 2012
"Floresceu, teria dito o jardineiro, se tivesse aberto a porta; se tivesse entrado, em qualquer uma daquelas noites de antanho, e o encontrasse a escrever; se o tivesse encontrado a rasgar o que escrevera; se o tivesse encontrado a terminar uma obra-prima às três da manhã, saindo a correr para calcorrear as ruas, e visitar igrejas, e jejuar num dia, e beber no outro, a devorar Shakespeare, Darwin, A História da Civilização e Bernard Shaw"
Mrs Dalloway, Virginia Woolf
Mrs Dalloway, Virginia Woolf
quarta-feira, 13 de junho de 2012
Os olhos rasos de água
Cansado de ser homem durante o dia inteiro
chego à noite com os olhos rasos de água.
Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,
entrar dentro de ti como num bosque.
É a hora de fazer milagres:
posso ressuscitar os mortos e trazê-los
a este quarto branco e despovoado,
onde entro sempre pela primeira vez,
para falarmos das grandes searas de trigo
afogadas a luz do amanhecer.
Posso prometer uma viagem ao paraíso
a quem se estender ao pé de mim,
ou deixar uma lágrima nos meus olhos
ser toda a nostalgia das areias
Eugénio de Andrade, in As palavras interditas
Cansado de ser homem durante o dia inteiro
chego à noite com os olhos rasos de água.
Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,
entrar dentro de ti como num bosque.
É a hora de fazer milagres:
posso ressuscitar os mortos e trazê-los
a este quarto branco e despovoado,
onde entro sempre pela primeira vez,
para falarmos das grandes searas de trigo
afogadas a luz do amanhecer.
Posso prometer uma viagem ao paraíso
a quem se estender ao pé de mim,
ou deixar uma lágrima nos meus olhos
ser toda a nostalgia das areias
Eugénio de Andrade, in As palavras interditas
terça-feira, 12 de junho de 2012
quarta-feira, 30 de maio de 2012
tal e qual
Pára-me de repente o Pensamento...
— Como se de repente sofreado
Na Douda Correria... em que, levado...
— Anda em Busca... da Paz... do Esquecimento
— Pára Surpreso... Escrutador... Atento
Como pára... um Cavalo Alucinado
Ante um Abismo... ante seus pés rasgado...
— Pára... e Fica... e Demora-se um Momento....
Vem trazido na Douda Correria
Pára à beira do Abismo e se demora
E Mergulha na Noute, Escura e Fria
Um Olhar d’Aço, que na Noute explora...
— Mas a Espora da dor seu flanco estria...
— E Ele Galga... e Prossegue... sob a Espora!
Publicado em várias revistas literárias, com ligeiras alterações, de 1900 (O Portugal) a 1935 (Sudeste).
terça-feira, 29 de maio de 2012
Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?
Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais.
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar.
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?
Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais.
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar.
Almada Negreiros, Reconhecimento à Loucura
sexta-feira, 27 de abril de 2012
"Com o corpo apaga-se o que nele se iluminou" ??
"Pensar um corpo. A inserção nele do espírito que nele se incendeia. Pensar no eu que o personaliza e na separação dos dois à hora da desintegração. (...) Ao fim de uma vida um corpo está cheio de sinais do que lhe aconteceu, do que em cada dia lhe põe a marca de uma presença (...) O último inquilino de um corpo é o eu em que ele é"
Vergílio Ferreira, Pensar, 271, p.191
Por 2012, o Ano Europeu do Envelhecimento Activo e após o espectáculo Maior, coreografado por Clara Andermatt.
quinta-feira, 26 de abril de 2012
terça-feira, 27 de março de 2012
language of movement
| "The dance is love, it is only love, it alone, and is enough... now, I would like to no longer dance to anything but the rhythm of my soul" Isadora Duncan, considerada a mãe da dança moderna Harriet Lihs, Appreciating Dance, A guide to the world's liveliest art, Princeton Book Publishers, 2009. ![]() | |
| Isadora Duncan, bailarina (1878-1927) http://6247daisy.wordpress.com/tag/isadora-duncan/ |
segunda-feira, 19 de março de 2012
Projectos
Como o rumor
Como o rumor do mar dentro de um búzio
O divino sussurra no universo
Algo emerge: primordial projecto
Sophia de Mello Breyner, Obra Poética, O nome das coisas, Caminho 2006, p.18
Como o rumor do mar dentro de um búzio
O divino sussurra no universo
Algo emerge: primordial projecto
Sophia de Mello Breyner, Obra Poética, O nome das coisas, Caminho 2006, p.18
quinta-feira, 15 de março de 2012
Enquanto.
| Edgar Degas, Bailarina, 1874. |
Aproveita a vida enquanto ela é vida dentro de ti.
Aproveita o teu corpo enquanto és tu que lá moras.
Aproveita.
Primeiro tens mais espírito do que corpo e há dentro de ti uma convulsão de ideias, uma agitação insofrida de projectos, resoluções, descobertas. Depois a convulsão abranda e começas a viver das ideias amealhadas. Depois, pouco a pouco, vais perdendo essas ideias ou vai-las esquecendo no sótão de ti.
Depois resta só uma ou duas com que te vais governando.
E por fim ficarás só com a carcaça do teu corpo, sem interior nenhum, e que as leis municipais estão à espera que se despache para atirarem à fossa.
Aproveita o teu corpo enquanto estás dentro dele.
Aproveita enquanto estás.
Vergílio Ferreira, Pensar, Bertrand 2004, p.194.
segunda-feira, 12 de março de 2012
A árvore existe
Estou só - estás só. Não penses. Não fales. És em ti apenas o máximo de ti. Qualquer coisa mais alta do que tu te assumiu e rejeitou como a árvore que se poda para crescer. Que te dá pensares-te o ramo que se suprimiu? A árvore existe e continua para fora da tua acidentalidade suprimida. O que te distingue e oprime é o pensamento que a pedra não tem para se executar como pedra. E as estrelas, e os animais. Funda aí a tua grandeza se quiseres, mas que reconheças e aceites a grandeza que te excede.
Vergílio Ferreira, Para Sempre
Vergílio Ferreira, Para Sempre
sexta-feira, 9 de março de 2012
experimental poesia
de amor se faz amor
de nada mais resulta amor
que amor se faz de amor
de nada mais.
resulta amor de amor
que amor se faz de nada.
mais resulta que amor de amor
se faz amor de nada.
mais.
de nada mais resulta amor
que amor se faz de amor
de nada mais.
resulta amor de amor
que amor se faz de nada.
mais resulta que amor de amor
se faz amor de nada.
mais.
E. M. de Melo e Castro, in «Antologia efémera: 1950-2000», Nova Fronteira, 2007
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Desafio à viagem
| Selmes, Pedrógão do Alentejo. Fotografia minha. |
"Assim nos dávamos as mãos em face do Mistério.
Mas para a Profundidade, o pensamento não pode dar respostas. (...)
Urgente se mostra portanto uma libertação da consciência,
pela compreensão do que realmente somos e da nossa relação com o mundo."
pela compreensão do que realmente somos e da nossa relação com o mundo."
M. B. Serpa Branco, "Diálogo Inacabado"
in M. J. Nobre Júlio, In Memoriam de Vergílio Ferreira, Bertrand Editora, Lisboa 2003
sábado, 28 de janeiro de 2012
Sentido
"Uma ideia só interfere na vida quando o sangue a reconhece"
Vergílio Ferreira, Do Mundo Original
(pelo seu aniversário, 28 de Janeiro de 1916)
Vergílio Ferreira, Do Mundo Original
(pelo seu aniversário, 28 de Janeiro de 1916)
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Metamorfoses da Casa
à "Toca", pelo aniversário de Eugénio de Andrade
Metamorfoses da Casa
Ergue-se aérea pedra a pedra
a casa que só tenho no poema.
A casa dorme, sonha no vento
a delícia súbita de ser mastro.
Como estremece um torso delicado,
assim a casa, assim um barco.
Uma gaivota passa e outra e outra,
a casa não resiste: também voa.
Ah, um dia a casa será bosque,
à sua sombra encontrarei a fonte
onde um rumor de água é só silêncio.
"Ostinato Rigore", in Poesia Eugénio de Andrade, Modo de Ler, Rosto Editora, Abril 2011, pp.175-176.
(pelo aniversário do poeta, 19 de Janeiro de 1923)
Metamorfoses da Casa
Ergue-se aérea pedra a pedra
a casa que só tenho no poema.
A casa dorme, sonha no vento
a delícia súbita de ser mastro.
Como estremece um torso delicado,
assim a casa, assim um barco.
Uma gaivota passa e outra e outra,
a casa não resiste: também voa.
Ah, um dia a casa será bosque,
à sua sombra encontrarei a fonte
onde um rumor de água é só silêncio.
"Ostinato Rigore", in Poesia Eugénio de Andrade, Modo de Ler, Rosto Editora, Abril 2011, pp.175-176.
(pelo aniversário do poeta, 19 de Janeiro de 1923)
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Vale a pena?
"É difícil ainda admitir que a Terra não é o centro do Mundo. É difícil conceber que a espécie humana é uma espécie entre as outras que há-de findar como elas. Nós pensamos na nossa morte, mas sonhamo-nos sempre perduráveis na memória dos que nos conheceram ou mesmo na dos que vierem depois desses.
Mas a espécie humana é pressupostamente contínua pelos milénios dos milénios. Raro assim imaginamos a extensão infinita do silêncio que a precedeu e há-de seguir. Mas é só pensando num silêncio infinito que a espera é que podemos entender a sua fragilidade.
Um dia a Terra será deserta e reduzida à condição de uma bola de pedra perdida nos espaços e no seu absurdo fantástico de ser. Pensa nisso quando conquistares um império ou realizares uma obra de arte ou sofreres ou infligires uma humilhação.
E verás que tudo se te transfigurará."
Vergílio Ferreira, Escrever, Bertrand Editora, Lisboa 2001ª, p.20.
Mas a espécie humana é pressupostamente contínua pelos milénios dos milénios. Raro assim imaginamos a extensão infinita do silêncio que a precedeu e há-de seguir. Mas é só pensando num silêncio infinito que a espera é que podemos entender a sua fragilidade.
Um dia a Terra será deserta e reduzida à condição de uma bola de pedra perdida nos espaços e no seu absurdo fantástico de ser. Pensa nisso quando conquistares um império ou realizares uma obra de arte ou sofreres ou infligires uma humilhação.
E verás que tudo se te transfigurará."
Vergílio Ferreira, Escrever, Bertrand Editora, Lisboa 2001ª, p.20.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
"De vez em quando a memória levanta-se...Estou bem. Cansado até às raízes de mim, mas estou bem. A vida inventa-se em cada hora em que ela se nos inventa (...) Uma serenidade invulnerável alastra-se pelo universo... O mar deserto até ao limite do poente. A vida inteira dentro de mim"
Vergílio Ferreira, Até ao fim.
(http://www.youtube.com/watch?v=fD-AzafLWVk&feature=related - Ludovico Einaudi, In un'altra vita)
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