terça-feira, 20 de junho de 2017

Bem-haja

17, 18, 19, 20 de Junho de 2017 - incêndios em Pedrógão Grande

São pessoas... eram pessoas como eu, como nós, que passavam férias, que saboreavam o fim de semana, mergulhos com os filhotes na piscina, almoços de família, passeios de sábados ensolarados.
Desolação, choque, não despegar da TV o fim de semana inteiro, sentir o fumo e a escuridão que a força do vento traz até Coimbra. Chorar ao ler o texto da Tânia Ribas de Oliveira, uma mãe de uma família tão semelhante às famílias que perderam a vida: http://onossot2.com/2017/06/tempo-de-luto/.
Porque o que brota é o medo de imaginar e a certeza de que poderia ter sido qualquer um de nós.

Em Conta-Corrente 5, Vergílio Ferreira acertadamente, questiona: 

"Perante quem é que somos homens? É uma pergunta simples. Mas ela revoluciona toda a história da humanidade. Experimenta fazê-la. Experimenta pensá-la".

Quem me conhece sabe que não sou religiosa, mas acredito no Homem e no que ele é capaz. E estas Mulheres e estes Homens foram e são! capazes de muito, lutar contra as chamas, lutar pelas suas vidas e pelas dos que os rodeiam. 
Mesmo quem fugiu com as famílias, pensava ser o melhor para si e para os seus e nos derradeiros momentos pegou nos seus filhos ao colo, abraçou-os, até ao fim.

Sou de letras. Não é difícil desfiar palavras nem é difícil saber escolhê-las e coroar os textos com citações certeiras de outros autores. Estou habituada a mergulhar em livros, na humanidade, sim, mas através de escritos.

Por isso, não imagino aqueles cujas profissões se deparam diariamente com as chamas, no terreno, como os valorosos bombeiros que, enquanto dormimos, combatem os incêndios; ou os GNR que auxiliaram as pessoas a evacuarem as suas casas e as suas aldeias, deparando-se com velhos do Restelo que teimosamente não desejavam abandonar o lar; ou aqueles, 
os psicólogos e assistentes sociais, que vão ao encontro de rostos que precisam de ser acalmados, acarinhados, reconfortados, daqueles que ficaram mas que perderam bens e acima de tudo, entes queridos; ou aqueles que cuidam dos feridos e dos queimados, médicos, enfermeiros e veterinários, que lutam por dar vida e saúde, aconchego; e ainda muito menos imagino aqueles cujas profissões observam à lupa a Morte em si mesma, aqueles que trabalham incansáveis para identificar os que partiram, muitos irreconhecíveis, para possibilitar o luto digno das famílias.

Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada 

Dos meus lábios não saem mais do que agradecimentos por entre lágrimas por estes Homens e Mulheres que lutam, cada um no seu campo, para apoiar ao máximo cada homem, cada mulher, e cada bichinho que sobreviveu.

Vergílio Ferreira afirma "Só numa situação concreta sabemos o que realmente somos".

E o Homem é realmente enorme.

Bem-haja!